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Introdução

A consciência focada e o pensamento linear são estratégias de sobrevivência. Huxley fala disso de maneira hábil e precisa em seu ensaio Portas da Percepção.

Mas para resumir aqui de maneira rápida e geral: se diante de um tigre, ficarmos admirando as belas listras pretas e alaranjadas de seus pelos, seu olhar feroz e imponente ou suas patas afiadas, seremos mortos.

É preciso reduzir a percepção do todo e focar apenas no que importa: lidar com aquela fera e dar um jeito de sobreviver.

Nosso corpo e mente são capazes de perceber muito mais do que percebemos no dia a dia com a consciência comum, focada e ordinária. Mas essa percepção é limitada e filtrada pela necessidade pura e simples de sobrevivência.

Em outras palavras, a consciência dirigida limita a amplitude da percepção, estreita o contato com o infinito que nos cerca. É como dizem em algumas mitologias: os mortais não podem olhar diretamente para Deus, pois se o fizerem ficarão cegos.

Ainda assim, nosso espírito sente saudades do infinito. Queremos dar uma espiada. Ver um pouco da luz que se esconde por trás das vendas que colocamos em nós mesmos para seguirmos vivos e funcionais.

Talvez seja esse o impulso que move tantos de nós: a vontade de explorar os sonhos, os mistérios e os estados alterados de consciência.

Essa busca, profunda e instintiva, se manifesta de muitas formas.

Alguns fazem jejuns ou dietas extremas. Tem gente que passa dias, meses, anos em retiros religiosos. Outros exploram os sonhos lúcidos e viagens fora do corpo. Há quem desenvolva práticas intensas de respiração ou concentração, mantras, cânticos, exaustão física e mental. E há aqueles, como eu, que encontram nas substâncias psicoativas um caminho rápido, arriscado — mas efetivo — para abrir essas frestas, voando com os dois pés para arrombar as portas da percepção.

Drogas?

São relatos de experiências com drogas? Talvez — mas também talvez não.
“Drogas” é um termo genérico, assustador, usado para descrever coisas muito distintas. Não existem “drogas” de maneira homogênea. Existem o cacto San Pedro, a Salvia Divinorum, os cogumelos, as sementes de Argyréia. Existem também a cocaína, o crack, a heroína — substâncias que não conheço e sobre as quais não falarei.

Cada planta e cada molécula carrega uma personalidade, uma história, um espírito diferente. Falar de “drogas” como quem fala de uma coisa única é como discutir frutas sem distinguir um abacaxi de uma mexerica.

Por isso não gosto da palavra “drogas”. Outras palavras como “expansores de consciência” também me soam enganosas: há vezes em que não se expande nada, só se confunde. Quase me agrada o termo “plantas de poder”, mas também acho impreciso — às vezes não é a planta, é a alma dela capturada em um comprimido. Está tudo bem. A própria Maria Sabina, na Sierra Mazateca, ao tomar comprimidos de psilocibina isolados, falou para Gordon Wasson e Hoffman que sim, a alma de seus niños santos estava ali na pílula mágica.

Quando preciso generalizar, prefiro termos neutros: substâncias psicoativas, substâncias alteradoras de consciência.

Simples, honesto, sem defender nem acusar.

Repressão

A história da repressão às substâncias é longa, complexa, e acessível a quem quiser buscá-la em livros e documentários. Não pretendo discutir isso aqui.

Só quero deixar claro um ponto: o problema não está nas substâncias. Está na relação que estabelecemos com elas.

Quando usadas para fugir da realidade ou anestesiar a dor, tornam-se armadilhas.

Quando usadas para ampliar, ou melhor, modificar a percepção e investigar outros ângulos da existência, podem se tornar espelhos, mestres, catalisadores.

Não se trata de fazer apologias ingênuas nem de advogar o uso irrestrito. É preciso respeito, informação, e um tanto de coragem.

As substâncias podem iluminar caminhos ou precipitar quedas. Mas reprimi-las, silenciá-las, tratá-las apenas como ameaça, é amputar uma parte ancestral da experiência humana: a saudade de se reconectar com o infinito.

Minha busca

Durante anos, entre erros, acertos e muita curiosidade, busquei essa conexão — principalmente nas plantas e nos fungos.

Esta coletânea é o relato honesto dessa travessia: sem o glamour da Nova Era, sem a condenação moralista, sem o distanciamento acadêmico. Apenas um testemunho real, escrito por alguém movido, acima de tudo por curiosidade.

Não era busca de cura, nem de Deus, nem de fuga, nem de conforto. Bom, às vezes pode ter sido tudo isso. Mas, olhando para trás, acho que era mesmo a pura curiosidade que me conduzia.

Os relatos que você lerá foram escritos em momentos distintos da vida, e trazem as marcas dessas fases: ora mais ingênuo, ora mais lúgubre, ora mais esperançoso.
Por honestidade, optei por preservá-los como foram registrados — são documentos vivos de um caminho real, não de um caminho idealizado. Não tem jornada do herói, mas relendo e reorganizando, vejo que sim, tem amadurecimento em todos os níveis, desde a maneira de relatar, até a qualidade das reflexões surgidas nas experiências. Portanto, peço paciência se os primeiros relatos soarem meio bobos. Talvez soem mesmo, mas sinto que simplesmente não poderia negá-los, mesmo que isso custe um pouco a qualidade do material compilado.

Sinceramente, ao reler certas passagens antigas, sinto quase vergonha — pela ingenuidade, pelos vícios de linguagem, pela quantidade de cigarros que eu fumava, pela soberba juvenil de quem acreditava compreender o mistério da vida. Ainda assim, decidi não apagar nada: mesmo as imperfeições fazem parte da jornada.

Não me siga!

Escrevo como quem partilha uma travessia, e não como quem ensina o caminho.

Não sou cientista, nem mestre, nem exemplo de qualquer coisa. Não busco conduzir, salvar, nem defender qualquer verdade absoluta — apenas apresentar os registros do que vi, do que senti, e de como integrei essas coisas em minha vida.

Cada experiência relatada aqui nasceu de um impulso íntimo, movido pela curiosidade e pela sede de mistério, não por qualquer fórmula de evolução pessoal.

As viagens, os medos, as pequenas descobertas que preenchem estas páginas são fragmentos de uma conversa silenciosa com as plantas, as substâncias, e sobretudo comigo mesmo. O que você encontrará nestes relatos é apenas isso: um diário sincero, escrito sem a pretensão de ser mais do que é.

Vivemos hoje cercados por discursos sofisticados sobre psicodélicos, espiritualidade e estados alterados de consciência — fórmulas de cura, métodos de autoconhecimento, promessas de transcendência. Mas minha intenção aqui é outra, talvez mais simples e talvez mais antiga: dar testemunho da experiência vivida, com seus tropeços e deslumbramentos, sem armaduras, sem firulas.

Nos anos 90 e 2000, quando participei de fóruns e comunidades do submundo da Internet, era comum encontrar esse tipo de relato cru: uma partilha direta, entre iguais, sem pretensão de doutrinar ou salvar. Falo um pouco mais sobre isso no último relato desse material (Retorno ao Salviaspace).

Foi nesse espírito que comecei, e é nesse espírito que desejo continuar.

Se alguma página deste livro puder tocar um coração, despertar um olhar mais atento para o mistério da existência, ou simplesmente semear respeito pela força invisível que sustenta a vida — então já terá cumprido sua função.

No fim das contas, esta coletânea é apenas isso: fragmento de memória de alguns caminhos tortos que segui, enquanto buscava pelo infinito.