Nem sempre é nas grandes aventuras ou nas viagens planejadas que as melhores surpresas acontecem. Às vezes, é no meio da rotina mais burocrática — entre ônibus de excursão, churrasco da firma e premiações toscas — que a vida resolve abrir pequenas janelas de magia.
Este relato nasce de um desses dias improváveis. Um dia que começou com a expectativa nula, misturado àquela velha sensação de deslocamento social, e que, sem querer, acabou trazendo encontros, pequenos rituais secretos e uma silenciosa conspiração da natureza a meu favor.
Por trás do desânimo com o mundo corporativo e da luta para parecer funcional no meio de um ambiente que nunca me coube muito bem, havia ainda a velha busca: a vontade de encontrar brechas, símbolos, momentos de liberdade. E foi assim, entre cervejas mornas, vaquinhas no horizonte e cogumelos inesperados, que aquele dia ordinário se tornou, sem muito alarde, uma pequena celebração da vida.
[2001-12-20] - FESTAS CORPORATIVAS
PARTE I
[Verão de 2001]
Pois é… vivo reclamando tanto do mundo corporativo, escritórios, mundo cão-pitalista, ar-condicionado, gravatas e tal…
Mas…
Hoje não quero satanizar isso tudo. Quer dizer, eu não mudei de opinião: O mundo ainda é cão, eu ainda odeio ar-condicionado, gravatas são invenções imbecis e tal…
Mas…
Acho que às vezes eu generalizo demais as pessoas. Quer dizer, nem todas as pessoas do escritório têm sorrisos amarelos. Ou talvez até tenham, mas o fato é que por trás daqueles sorrisos amarelo-melância existem histórias e alguns sonhos (por mais medíocres que possam ser). E têm pessoas amadas, amigos, pessoas odiadas. Têm família, têm filhos. Sim filhos! Tudo bem que esse povo às vezes não dá a atenção necessária para sua prole, mas, de uma forma muito irônica eles só levam essa vida sem magia pelos pirralhos. Visam dar um futuro para as crianças e essas coisas… fazemos muita idiotice e desgraçamos nossa vida por amor. É quase bonito pensar nisso.
Bom… enfim… o fato é que cheguei a conclusão de que por trás da mediocridade corporativa existem pessoas e histórias… sim… cá estou eu me redimindo dos meus pecados e julgamentos.
Bom. Seja como for, o fato é que ontem fui numa festa do departamento da empresa onde trabalho. Foi numa fazenda de uma funcionária.
Se liga: F-A-Z-E-N-D-A - que lembra vaca!
Sacou? V-A-C-A - que quando caga, e faz chuva e faz sol, faz nascer cogumelo.
Sacou? COGUMELO!!
Vamos por partes:
Às oito horas da manhã cheguei até a empresa onde trabalho e lá tinha um ônibus que levaria todo mundo para a tal da fazenda. Seriam aproximadamente quatro horas de viagem. O que mais me assustava era o fato de ter que ficar todo esse tempo sem fumar, já que não fumo na frente dos meus colegas de trabalho. Até uns meses atrás eu era um jovem aprendiz menor de idade. Agora sou maior, trabalho a sério mas acho que sou visto como alguém que não tem idade para fumar.
Durante a viagem todo mundo ia falando alto e cantando. Eu não estava com esse pique e resolvi ficar isolado no fundo, quieto. Não tava com muito saco para me relacionar, sabe? Aí o Sérgio, um chegado, sentou-se ao meu lado e pelo que vi ele também não estava num clima muito festivo. Nós fomos conversando um pouco sobre coisas sem importância. Depois de aproximadamente duas ou três horas de viagem via-se grandes pastos ao longo da estrada. Fiquei imaginando onde era aquele lugar, pois não sabia nem mesmo onde era a cidade que a tal da fazenda se localizava.
O fato mesmo é que eu não tava afins de participar de festinha nenhuma. Tava meio de saco cheio e ter que fingir durante uma fase de saco-cheísmo é muito foda. Então me passaram um violão dizendo:
- Toca aí, rapaz! Eu sei que você sabe tocar!
- Pow… nem sei tocar coisas legais… – falei, hesitante.
- Toca qualquer coisa – eles insistiram.
- Mas vocês não vão conhecer o que eu toco, além de que toco muito mal…
- Toca aí e deixa de frescura.
Pois é… pensei “foda-se” e toquei Syd Barrett. “honey love ya honey little honey funny sunday morning love you more funny love in the sky line baby”. Depois mandei “I’ll Be Your Mirror” do Velvet Underground. Não sabia tocar mais nada, senão fragmentos de músicas. Toquei um pedacinho de “Polly”, depois outro de “Come As You Are” e essas coisas. Minha falta de talento foi suficiente para fazer as pessoas deixarem de prestar atenção no violão e ficarem conversando entre si. Foi a hora que entreguei o violão para um outro cara que tocava e fingi estar meio que dormindo…
Quando o ônibus pegou uma estradinha de terra comecei a imaginar se haveriam cogumelinhos, afinal, era uma fazenda e em fazendas geralmente têm pastos. Claro que era só um sonho, pois sem chance de conseguir cogumelos junto dos meus colegas de trabalho… mas fiquei sonhando lá.
Chegando na porteira da fazenda eu fiquei olhando pela janelinha do ônibus. Percebi umas vaquinhas pastando ao fundo. Um azul bonito no céu. Uma árvore florida. Era verão. Estava quente. Fiquei olhando a cerca. Muita merda de vaca. Fiquei divagando e olhando os detalhes da fazenda até que olhei pertinho de uma cerca de arame farpado e…
…TINHA UM COGUMELO LÁ NA MERDA!!!
Fiquei ansioso. Queria pular daquele ônibus naquela hora mesmo! Queria comer aquele cogumelo com merda e tudo! Aquele cogumelo tinha que ser colhido! Ele havia me visto! Eu havia o visto. Foi amor a primeira vista! Eu sei que foi!!
Mas graças as regras e bom costumes fingi nem perceber a existência do fungo lá na cerca. O ônibus então continuou seguindo mais um pouco e depois parou há uns trinta metros depois de onde eu vi o cogumelo. Estávamos tão próximos um do outro! Ambos na merda. O cogumelo na merda da vaca e eu ali perto de um monte de colega de trabalho elogiando a fazenda e fazendo um social com os pais da funcionária proprietária. Não tô dizendo que a merda eram as pessoas, mas eu me sentia na merda por não poder me relacionar direito. Desencanei daquilo. Eu tava com fome e sede, aí fui tomar uma cerveja e comer vaca morta no espeto. Aí uma menina que trabalha comigo sentou do meu lado num banco e suas pernas encostando nas minhas me deixaram um tanto quanto… bem… você sabe. Acontece que eu estava de calça de moleton. E todo mundo dizia:
- Ei, levanta aí, vem pegar um churrasco!
- É… er… hmmm… daqui a pouco eu pego.
Aí a menina saiu e foi cantar no karaokê. Cantou Raul Seixas de um jeito bem desafinado e divertido. “Não planto capim guinéeeeeh, pra boi amarrá rabo, tô virado no diabo, tô arretado é com você!”. Gostei. Depois de um tempo eu fui pegar mais cerveja e descobri que seria uma droga ficar naquela situação. Não tenho muito saco para fazer social, não sei cantar no karaokê, não podia fumar e iria ficar pelo menos seis horas naquela festa. O que fazer? Descobri que beber era uma boa opção, mesmo eu não sendo muito chegado em álcool.
Fiquei bebendo e enquanto já me sentia levemente alcolizado descobri uma máquina fotográfica digital. Ótimo! Gosto muito de fotografia! Peguei a máquina e fui tirando foto de tudo que via pela frente. Até de umas vaquinhas lá no horizonte.
Aí depois veio a hora dumas premiações dos “++” do RH. Tinha o prêmio ++ stressado, ++ aéreo, ++ on-line, etc… logo depois das premiações viria o tão esperado amigo-secreto. Então eu fiquei incubido de filmar toda a brincadeira. Que ótimo!! Poderia ficar longe de tudo sem parecer anti-social. Se alguém viesse pedir para eu me expor de alguma maneira eu tinha a desculpa: “agora não dá, estou filmando e tal…”
E então filmei as tais premiações. Até que foi engraçado. Depois teve o amigo secreto. A pessoa que me tirou me deu um CD do Gorky’s Zygotic Mynci / Spanish Dance Troupe. Eu havia dito que gostaria de ganhar esse CD. Até que a banda é legal e tem uma dosagem certa de insanidade e harmonia.
Na minha vez de entregar o presente eu falei bobagem graças a um acesso de sinceridade causado pela cerveja. Antes deixe eu explicar que a festa era de Recursos Humanos, e a pessoa que eu tirei de amigo secreto não trabalha totalmente em Recursos Humanos, mas sim no departamento de Consultoria da empresa. Então, na hora de dizer quem eu havia tirado eu falei:
- Bom… quem eu tirei nem trabalha no RH, aí… mas eu tirei tal pessoa.
Aí a muié pegou o CD, me deu um abraço e depois falou:
- Quero protestar! Eu sou de RH sim! Não de corpo, mas de alma!
Aí todo mundo bateu palmas e eu fiquei vermelho. Que bosta. Alma, alma… que mané alma! Aquela muié nem sabe o que é uma alma! Fiquei quieto e continuei a filmar.
Aí acabou isso tudo. Eu tinha uma vontade intensa de fumar. Vi um cara, o Luiz, que não fuma na empresa, mas lá estava fumando um cigarro de menta e tomando whisky. Como o Luiz é gente boa, estava bêbado e não sairia por aí dizendo pra todo mundo que tô fumando eu pedi para dar um gole no whisky e uns dois tragos no cigarro. Fumei rapidinho e ninguém, além dele, percebeu.
E aí acabou isso tudo e o Sérgio falou:
- Ô! Vamos dar uma olhada ali nas vacas!
É claro que eu queria ver vaquinhas!! Existem cogumelos em pastos! Mas o fato é que daria muito na cara eu me enfiar no meio das vacas e sair caçando cogumelos. O problema não era o Sérgio, pois este sempre soube que eu gostava de alterar a cabeça. O que eu temia eram os outros funcionários…
Mas de qualquer forma eu fui com ele como quem não quer nada. Passando pela cerca eu vi meu chegado!! O cogumelinho do começo da entrada! Sabia que nossos destinos era acabarmos juntos!! Numa sutil incorporação do Mininu Du Matu eu o peguei em três movimentos de apenas um segundo:
1 - passei por baixo da cerca
2 - tirei o cogu da bosta
3 - guardei no bolso e saí por baixo da cerca
Andamos mais um pouco e o Sérgio decidiu que gostaria de caçar cogumelos. Ele achou um outro cogumelo e me deu. Também foi pro bolso em rápidos movimentos. Aí ele achou mais dois, mas meus bolsos estavam cheios demais com os anteriores e então eu guardei… er… na cueca.
Ah… eu sei! É escroto. Primeiro porque o cogu fica na bosta e deixar dentro da cueca é nojento, segundo porque depois eu preciso ingerir os cogumelos e já pensou se eu estou comendo um cogumelo e vejo um pêlo de saco enroscado no dente? É escroto, mas eu não via outra solução…
O fato é que eu levei os cogumelos escondidos até o banheiro e enquanto o diretor do departamento falava alguma coisa sobre a festa e o futuro do departamento, lá estava eu trancado num banheiro fedido e guardando uns cogumelos na caixinha em que veio um brinde que ganhamos na confraternização. Coloquei a caixinha dentro da minha estimada mochila e saí. Nem soube o que o diretor falou. Só sei que já era hora de irmos embora.
Foi entrarmos no ônibus e começou a cair uma forte chuva, o que me obrigou a dar um sorriso para São Pedro. Notei que enquanto todo mundo havia ido animado para a festa e voltava cansado, calado ou alcolizado, comigo ocorria o inverso: havia ido mal e voltado muuuuuuito feliz! O pessoal do violão voltou a dizer:
- Toca aí!
- Putz… eu não sei tocar nada legal.
- Toca aí o que você sabe.
- Ah não…
- Toca aê!
Aí eu novamente toquei “I’ll Be Your Mirror” do Velvet e “Love You” do Syd Barrett. Foi o suficiente para aceitarem o violão de volta e me deixarem em paz. Fiquei sozinho no último banco do ônibus. Uns cogumelos na mochila. Um sorriso nos lábios. E enquanto isso a chuva ia caindo nos pastos das estradas por aí. Ah! São Pedro… o mundo é cão, mas a vida é bela!
PARTE II
Então, na sexta-feira, após sair do trabalho, eu fui para a casa de um colega com os já comentados cogumelos. Eu os havia colocado com mel num pote de vidro logo na quinta-feira após voltar da festa. Meu colega estava arrumando seu quarto e seu aquário.
- E aí Gersão!
- Ô… e aí irmão!
- Só… arrumando o aquário?
- É.
Ficamos quietos. Falei:
- Ô Gerson, tenho três novidades pra contar. Uma boa, uma ruim e uma pior ainda.
- Vixe… tô até com medo. Conta aí!
- Começar pela “ruim”. Seguinte: amanhã não vai dar pra eu tocar com vocês - no dia seguinte estava combinado de a gente tocar uma guitarra e fazer um barulho na casa de um outro colega. Continuei - o motivo é a novidade “pior ainda”: minha vó tá internada. Mó foda. Corre até o risco de ter que amputar as pernas cara…
- Putz… que foda!
Falamos sobre os problemas da minha vó. Falei:
- Se Deus quiser vai dar tudo certo - e acho que Deus quis, pois hoje a véia tá feliz, contente e inteirona. Continuei - tô procurando manter a calma. Amanhã vou lá ver ela e tal…
- Certo… vai sim! Mas e a novidade boa, qual é?
Não falei nada. Tirei o pote de cogumelos e mel e mostrei pra ele. O Gerson nunca tinha tomado cogumelos antes. Ele tinha uma grande curiosidade, pois sempre falei muito empolgado de algumas experiências que fiz. Ele pegou dois copos e dividimos a poção. Antes do Gerson tomar ele me perguntou:
- Quanto tempo demora para bater os efeitos?
- Coisa de meia hora.
- Então dá para eu tomar e ainda terminar de limpar o quarto e o aquário né?
- Tranquilão… pode tomar e continuar a limpar numa boa.
E tomamos, mas acho que por aquilo estar no mel o negócio veio bem rápido e então o mundo já era de plástico, o horizonte de massinha e as pessoas de borracha. Bem vindo ao mundo de Cubensis [musiquinha do Marlboro].
O Gerson, já começando a sentir os efeitos dos cogumelos ficou meio confuso enquanto terminava de limpar seu quarto. Pelo que eu o observava ele não sabia direito o que estava fazendo. Achei aquilo engraçado e enquanto sentia como a alma fungi vinha me tocando fiquei ouvindo Belle & Sebastian. Caía bem aos ouvidos. Tranquilo, suave. Um som calmo após um cansativo dia de trabalho…
O Gerson terminou de limpar seu quarto. O quarto do Gerson merece um parágrafo a parte: imagine você que o quarto do maluco tem CDs colados nas quatro paredes e no teto, e que várias obras de arte estão distribuídas pelo quarto, fazendo com que em cada lugar em que se olhe tenha algum detalhe colorido pra ficar pirando. E sob a óptica fungi, toda a vida daquele quarto ficava potencializada. Eu via suas paredes respirando. Tudo mudando de tamanho. O quarto parecia vir diretamente de um desenho animado, sem nenhuma forma pontiaguda, mas apenas formas arredondadas que não agrediam os olhos. E no teto via meu reflexo sendo formado por vários CDs. Desfocado, irregular, disforme, confuso, colorido. Parei em frente ao espelho e me olhei. Minhas pupilas extremamente dilatadas. Achei aquilo meio assustador, mas magnífico. Eu parecia perspicaz, vivo. Muito vivo. E então, em meio a conversas bizarras com o Gerson e a euforia típica de uma trip bem sucedida de cogumelos eu resolvi fechar os olhos para ouvir a música. E a música ganhava formas e cores. Era uma música ainda do Belle & Sebastian. Era uma cantada pela Isobel. E em minhas visões eu notava passeatas de cores, carros quadrados e formatos geográficos fazendo um desfile numa rua cheia de gente. E passavam cores, anuncios e cifras. Um carnaval psicodélico e visionário num dia de dezembro. E ainda com os olhos fechados tive a sinestesia com o som. Umas ondas roxas e negras pulsavam junto da música formando as imagens fantásticas e fluídas.
Ao abrir os olhos eu me sentia engolido pelo quarto do Gerson que tinha muita vida e muitas cores. Era tudo lindo e confortador. E eu voltava a fechar os olhos e via novamente a música cheia de ondas e cores. Era tudo muito belo e com aparência muito real e intensa. Elas iam me envolvendo, me engolindo e me fazendo esquecer do mundo lá fora. Agora eu entrava num ambiente colorido e musical. Era lá que eu via as coisas que estavam escondidas num baú da minha cabeça. Era o baú mais cheio de tesouros que qualquer doido poderia encontrar. Um baú de imagens abstratas, porém belas e coloridas.
Continuamos a conversar sobre a experiência. Falávamos das cores, do novo mundo, dos rastro deixados pela mão ao movê-las diante da luz, e as visões malucas que se podia ver de olhos fechados. Aí ele pegou uma câmera e começou a fotografar o quarto dele. Tirou fotos da minha cara com pupilas dilatadas. Tirou fotos de si mesmo. Tirou fotos de tudo o que via pela frente. Depois ele falou:
- Ei… vamos comprar umas esfihas?
- Putz… cara a gente não tá muito bom para ir a lugares cheios de gente. A gente tá muito louco.
Aí pensei um pouco mais e acabei dizendo:
- Ah… num fode! eu tô de boa de esfihas mas vamos lá porque eu quero dar uma volta.
Aí foi a vez dele de dizer:
- Mas a gente tá muito louco… é melhor não…
- Gersão, Gersão, vamu comê isfirra!!! Vamu sim!! - falei zoando, e continuei - vamu dá um rolê por esse admirável mundo novo!!
- Podiscrê.
Enquanto ele foi no banheiro eu peguei a máquina fotográfica e coloquei no bolso sem na verdade saber o porquê. Ele nem percebeu. E fomos. Andando pela rua ele me dizia:
- Vamos manter o controle irmão. O mundo real é uma coisa, o dos cogumelos é outra.
- Mas em qual mundo você está vivendo agora? - falei provocando.
A gente foi andando na calçada se deliciando por viver num mundo tão cheio de vida. Eu ía com as mãos no bolso comentando sobre tudo. Olhando as pessoas com cara de borracha. Era aproximadamente umas oito ou nove horas de uma noite quente de uma bonita sexta-feira. Havia muitas pessoas em todo canto.
Quando chegamos na Casa das Esfihas eu comecei a me “coçar” todo, quero dizer, sem estar sob efeito de nada eu já me sinto mal ao estar exposto a gente estranha, mas durante a trip estava muito mais sensível às coisas, e isso potencializava também o mal estar. Parecia um bicho me coçando todo. O Gerson pegou apenas duas coca-colas enquanto algumas pessoas estranhavam o nosso comportamento e, acredito eu, o tamanho das nossas pupilas.
Pegamos, acendemos um cigarro (engraçado como me lembro de algumas fumadas estratégicas durante as trips por aí). A gente foi andando na rua e ficamos conversamos sobre liberdade, regras e algumas filosofices de buteco. Falávamos sobre valores que a sociedade leva em consideração e outras coisas mais. O papo fluía de maneira suave e peculiar. É como se o mundo tivesse se tornando simples e a solução dos problemas da humanidade estivessem na cabeça de dois manés andando na rua. E falávamos alto. Todos podiam ouvir. E que ouvissem! Não importava o que pensassem de nós naquele momento. Estávamos em contato com o infinito e o infinito transcende de longe o julgamento míope e careta.
Seguimos em direção a casa de um colega - o Bira. Na verdade eu não sei o que faríamos lá, pois estávamos alterados demais e passar pela família dele seria um problema. Falei:
- Gerson… acho que a gente tá louco demais para ir lá. A gente vai ter que passar pelo pessoal da família do Bira e aí vai ser foda.
- Qualquer coisa a gente fala que tá bêbado.
- Hmmm. Boa idéia!
Quando o Gerson do lado de fora do portão chamou o Bira me bateu um desespero, pois vi sua irmã vindo em direção à nós. Fui correndo ao orelhão e fingi estar telefonando para minha casa. Fiquei lá falando sozinho enquanto o Gerson improvisava um social. A irmã dele falou para nós entrarmos que o Bira estava em seu quarto com sua namorada.
O quarto do Bira fica separado da casa de sua família, de maneira que é possível chegar até ele sem passar pelos seus pais. Então fomos rapidinho e batemos na porta do quarto. Alguém lá de dentro perguntou:
- Quem é?
- Ô Birão. Sou eu e o irmão. Era só pra saber se você tava aí. Já estamos indo embora. Tchau - disse o Gerson ao perceber que a luz do quarto estava apagada e que provavelmente o Bira estava transando com a namorada.
Saímos correndo e dando risada, o que acabou por fazer algum barulho. A mãe do Bira perguntou:
- O que tá acontecendo aí? Que barulho é esse?
O Gerson falou num tom de voz alto, como que falando mais para a mãe do Bira ouvir do que pra mim:
- Ô irmão… nunca mais bebo com você. Tu toma uma cerveja e já fica loucão assim! - Depois respondeu - ô Martinha… a gente tá esperando o Bira aqui, tá?
- Ah… tudo bem…
O bom é que o Gerson parece que consegue fazer um social em qualquer estado de consciência. Ficamos no portão do lado de fora da casa do Bira, e este chegou até nós e falou:
- Que vocês querem seus porras?
- Ô Birão… a gente só veio aqui pra ver se você estava aqui.
- Ô Gersão, não fode! Eu estava transando, cacete!
O Gerson pegou um pedaço da pizza que o Bira segurava e voltou a falar:
- Depois aparece lá em casa pra gente fumar um.
- Se der certo eu apareço lá…
Fomos indo embora, mas aí o Gerson correu novamente até ao Bira e disse:
- Ah… detalhe: a gente tá bem louco de cogumelo!
- Seus filhos da puta!
Seguindo a rua decidimos que ao invés de irmos pela avenida principal caminharíamos através de uma estrada velha. Fomos seguindo. Depois mostrei a câmera para o Gerson. Ele falou:
- Por que você trouxe a máquina?
- Sei lá…
- Ah… então vamos tirar fotos!
Ele começou a tirar umas fotos noturnas da estrada. Também tirava fotos de algumas pedras jogadas em qualquer canto por aí. Segundo ele “tudo estava perfeito para ficar numa foto”. Aí a gente conversou sobre várias coisas que só mesmo os cogumelos para trazerem ao limiar do verbo.
Estávamos andando e num determinado momento o Gerson apontou a máquina fotográfica para mim e falou:
- Pow irmão vou tirar uma foto tua!
Mas eu olhei aquela lente em minha frente e me assustei. De um estado calmo e sereno agora eu passava a ficar tenso e incomodado. O fato era que aquela máquina me eternizaria! Era com aquela roupa e aquela cara que eu gostaria de ser lembrado para sempre? Ora, eu nem queria ser lembrado pelas fotos! E aquela lente continuava me secando enquanto o Gerson dizia:
- Ah! Estragou a foto! Fica normal! Você tá com cara de assustado!
- Mas não dá pra ficar normal Gerson. Essa lente me olhando é foda!
- Quê isso! É só uma foto! Só uma imagem.
- O problema é que é só uma imagem!
O Gerson foi tentando me convencer a ficar calmo, mas isso era quase impossível e ele acabou tirando uma foto em que eu estava assustado mesmo.
Talvez aquele tenha sido o meu momento mais instrospectivo da viagem. Pensei sobre o que na verdade eu representava para os outros. Me perguntava: “afinal, quem eu sou?”. Ora, eu não sabia dizer. Na verdade tinha uma idéia do que era e do que representava para os outros, mas provavelmente era uma idéia falsa, porque era a MINHA idéia de mim mesmo. E a foto então? Me guardaria num pedaço de papel, mas eu mesmo não podia ser aquela imagem no papel! Eu tenho movimentos, respiro, converso, etc. A foto captura apenas uma imagem morta da grandeza que é viver. A foto é um momento, mas não explica a origem, isso é, o que aconteceu para se chegar àquele momento, e o pior: às vezes explica incorretamente onde esse momento levará! Incorretamente porque uma imagem estática pode apenas mostrar probabilidades de determinadas coisas acontecerem, mas nunca certezas. E era uma lente. Pronta a capturar uma imagem. Enigmática. Estática. Fixa. Parada. Morta.
Fomos voltando. Sentia que o pico da viagem já havia se passado. Depois começou a chover. Como eu estava com a roupa que usaria para ir na casa da minha vó no dia seguinte, peguei a chave com o Gerson e fui correndo para lá, enquanto ele preferiu tomar banho de chuva. Aí cheguei em sua casa. Já estava passando a onda. Fiquei escutando Belle & Sebastian de novo.
Quando ele chegou a gente ficou conversando. Ele disse que aquele era seu “ano novo”, pois no reveillon do calendário ele teria que trabalhar (ele trabalha de vigilante noturno em um condomínio) e aquilo que vivenciava era seu verdadeiro ano novo. Até alguns rojões ou trovões o saudaram. A chuva lavou sua alma e o Gerson depois daquele dia nunca mais foi o mesmo (mesmo nos dias posteriores à trip). Ele deve ter sido iluminado naquele dia. Juro pra você.
Enquanto isso eu estava muito feliz. Não ao ponto de ter mudado minha vida, como aconteceu com ele, mas estava contente. Estava recarregado de energia para suportar o mundo. Meu olhar dilatado, sombrancelhas firmes, o corpo se esquivando de cada hostilidade do Mundo Cão. EU SOU MININU DU MATU!!
O Gerson foi ao banheiro, e enquanto eu estava sentindo a brisa ir embora pensei nos efeitos como se fossem uma presença. Falei para essa presença:
- Não vai embora agora não! Fica mais um instante e me apresenta mais uma visão.
Mas aquela presença dizia no meu coração:
- O que tu precisava aprender comigo tu aprendeu. O resto fica para a próxima.
Me deitei no chão e dormi ouvindo Velvet Undergound.