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Se tem algo que aprendi cedo é que nem toda transgressão nasce do desejo de romper regras; às vezes, ela nasce da simples tentativa de viver de forma mais autêntica.

Na primavera de 2001, tirei alguns dias para viajar sozinho até São Thomé das Letras, em Minas Gerais. Eu ainda era um garoto que, armado apenas com uma mochila (que tinha até nome!) - e uma sede imensa de mundo, acreditava que a liberdade estava logo depois da próxima curva da estrada.

Este relato é o retrato fiel de uma dessas pequenas aventuras: um misto de ingenuidade, busca espiritual e um choque inesperado com a estrutura repressiva da sociedade. Mais do que uma história sobre cogumelos e policiais, é uma história sobre descobertas — internas e externas — e sobre como, às vezes, a leveza diante das adversidades pode ser a maior conquista.

Ao reler este texto hoje, sorrio com certa ternura pelo garoto que eu fui: meio inconsequente, meio filósofo, e ainda acreditando que um pouco de música e gentileza poderiam mudar o clima até dentro de uma delegacia. Acho até que mudou mesmo haha.

[2001-10-14] - XIII... TÔ FICHADO

Então era a primavera de 2001. Eu havia saído de férias do meu trabalho e separei três dias para ir viajar para Minas Gerais, em São Thomé das Letras. Fui sozinho acompanhado apenas de Michelle – minha mochila – e os mais diversos pensamentos. Também levava comigo um pouco de maconha. Coisa mínima mesmo. Não chegava a 10 gramas.

Peguei o ônibus e fui embora. A viagem foi bem tranqüila e cheguei em São Thomé pela manhã. Arrumei um quarto para ficar, andei um pouco sozinho, tirei algumas fotos, ouvi um pouco de música, fumei um baseadinho e essas coisas que a gente faz quando vai viajar…

No dia seguinte estava a fim de procurar uns cogumelos. Segui o caminho rumo a Três Corações onde tem um pasto que já achei muitos cogumelos numa experiência anterior. Fui até este pasto mas não achei nada. Andei mais até outro pasto. Andei muito. Muito mesmo! Cheguei até aquela gruta que vai para Machu Pichu, na Ladeira do Amendoim. Estava sozinho, sem água, sob o sol do meio-dia e SEM TER ACHADO UM ÚNICO COGUMELO!!!

Fiquei um tempo lá perto da gruta recompondo as energias para voltar. Comi umas folhas que me pareciam suculentas (tu não sabe o que se faz quando se está morrendo de sede e longe de tudo!) até que as folhinhas caíram bem… Pelo menos eu continuei vivo. Agora precisava voltar. Segui pela pedreira. Foi cansativo mas no final deu tudo certo. Fui à pousada em que estava ficando e tomei um banho. Parecia que ficaria o resto do dia descansando depois do “passeiozinho” que havia dado, mas não sei de onde me surgiram forças para dar mais uma volta. Resolvi fazer uma caminhada até a cachoeira da Eubiose. Na estrada resolvi fumar um baseadinho de nada. Só para ficar mais sossegado.

Fui andando. Chegando perto da cachoeira da Eubiose notei um pontinho branco num pasto. Pulei a cerca e… BINGO! Era um cogumelinho. Procurei mais cogumelos, mas tudo que achei foi um outro cogumelo já meio seco. Tudo bem… Tinha achado cogumelos! Irônico o fato de eu ter andado mais de 10 km durante o dia todo procurando cogumelos para não achar nenhum, sendo que no pasto da Eubiose (que não dava nem 2 km de caminhada) estavam rolando alguns! Eram apenas dois. Tsc… Ah! Mas era melhor que nada! Nem fiquei revoltado nem nada. Fiquei muito contente. Eram apenas dois, mas pelo menos estavam lá na minha mão. Fui com eles até a cachoeira, dei uma lavada lá mesmo e não demorei em comê-los. Não queria nada de chás… queria algo energizado pelas forças naturais do local. Imaginei que bem lavadinhos não haveria problemas. De fato não houve.

Após ter ingerido os dois pequenos fiquei andando pelas trilhas e tirando fotos da cachoeira da Eubiose. Não sentia nada de diferente até então. Inclusive me indagava se teria mesmo algum efeito com apenas os dois funguinhos. O sol no céu já estava com cara de apontar quatro e trinta da tarde e como estava sozinho e sem lanterna resolvi ir subindo de volta pela estrada em direção a cidade. Quem já andou a pé da Eubiose para São Thomé sabe que é uma caminhada razoavelmente cansativa e longa, pois é subida que não acaba mais…

No meio da estradinha eu já sentia alguma alteração de consciência. As coisas estavam um pouco mais nítidas e coloridas. Alguma coisa no som estava diferente. Abri os braços como espreguiçando e olhei para o céu. Era uma velha sensação de sempre! Os fungos estavam brincando comigo novamente!

Segui muito contente e chegando na cidade eu já estava razoavelmente alterado. Passei numa padaria e pedi uma coca-cola e um pão com manteiga. A mulher deve ter notado o tamanho das minhas pupilas, porque olhava com um aspecto assustado para mim e deve ter ficado mais assustada ainda ao perceber o jeito com que eu comia o pão. Eram dentadas nada sutis ou “etiquetadas”. Eram dentadas vorazes. Migalhas de pão voando para todo lado!

Não tive dificuldades em pagar o pão e a coca-cola. Me sentia bem. Sem medo de nada. Acendi um cigarro e fui caminhando em direção às pedras. Fui sozinho com o vento no rosto e a máquina fotográfica nas mãos. Fiquei observando a beleza do local. Me sentei numa pedra, olhei para os lados, não havia ninguém! Me deu vontade de ficar repetindo: “…uma onda leve me leva pra cima uma onda leve me leva pra cima uma onda leve me leva pra cima…” aquilo soava bem aos ouvidos. Era um som plástico, emborrachado, envolvente! Eu não estava alterado a ponto de ver as coisas derreterem e tal… era apenas uma acentuação na qualidade das cores, uma forma diferente de ouvir, um grande contentamento e a sensação de estar inserido em uma onda muito boa de pensamentos e sensações. É como se a mente estivesse com acesso livre ao mundo dos cogumelos e o mundinho de sempre. Era uma viagem totalmente controlável certamente devido a dose baixíssima de cogumelos que tomei.

Talvez por estar sozinho e não ver nenhuma alma viva (não era nenhum feriado ou temporada) me dava vontade de falar sozinho. E falava… sabia que estava falando sozinho e nem me importava. Não era qualquer espécie de diálogo filosófico DE mim PARA mim mesmo. Era apenas um pensamento alto. Cantarolava coisas malucas e balbuciava coisas inteligíveis.

Depois resolvi tirar algumas fotos. Fiquei um tempão tentando focalizar uma árvore para uma foto. Passava por entre uns pássaros nas pedras. Fiquei um tempo num Mirante. Tirei muitas fotos. Fumei muitos cigarros. Eles tinham um sabor muito especial naqueles estados de consciência. Lembro-me de ter visto uma casinha que tem um hippie que trabalha com reciclagem. A casinha parecia toda de massinha. Tava tudo colorido. Tudo parecia de massinha. Tudo me parecia perfeito para uma foto!

Uns cachorros começaram a latir e comecei a pensar se eles tentariam me atacar. Me escondi no meio do mato e os latidos cessaram. Depois, quando voltei para as pedras os latidos voltaram a me pentelhar. Desencanei daquilo e fui para o pico de uma pedra. Lá eu olhei as florestas e imensos campos verdes. Notei em especial uma árvore que se destacava das outras. Parecia meio amarelada. Percebi que de longe aquelas árvores pareciam quase todas iguais, mas eu bem sabia que de perto cada uma tinha algo em especial. Comecei a pensar sobre a caminhada que havia feito durante o dia. Na caminhada tudo parecia tão mais grandioso que eu! E agora eu estava lá em cima da pedra, e tudo parecia tão pequenino! Mas na verdade éramos do mesmo tamanho, e as árvores eram como pessoas! Estatísticas não são reais, mas as pessoas são todas loucas e tentam representar papéis normais! Ser normal? Ora essa! Ser normal é ser você mesmo. Que se foda se isso te faz parecer louco perante o resto do mundo! Ser normal é não representar um papel, um mito ou coisa parecida. Os modelos perfeitos do mundo das idéias de Platão não são normais porque eles na verdade não existem! Podem até ser utilizados como modelo do que pretendemos ser, mas nunca podemos pensar que somos eles de fato. Uma estrela te guia, mas é sempre inalcançável. O normal é o imperfeito. É a folha furada e comida por insetos almejando ser a folha brilhante na foto da embalagem do fertilizante! Mas antes ser imperfeito e real que ser uma bela foto colada numa embalagem plástica! O perfeito e belo é o imaginário! E percebi que os cogumelos haviam aberto uma ponte entre eu e o mundo imaginário. Conseguia sentir a perfeição nas coisas imperfeitas. E então o sol me brindou fazendo um espetáculo que acontece todo dia e nem por isso se torna vulgar: o crepúsculo.

Fui seguindo pelas pedras e cheguei até a Pirâmide. Lá fiquei fumando e olhando as pessoas. Observei um casal e senti falta de uma companhia feminina. Saí andando e me lembrei da minha família. Puxa, pela primeira vez na minha vida eu senti saudade da minha família durante uma viagem! Pensava em minha irmã, meu irmão, mãe… essas coisas. Não era qualquer necessidade de voltar para casa, era apenas uma lembrança. Tinha vontade de vê-los. Eu estava numa enorme afinidade com a idéia de família.

Sabia que quando voltasse para casa voltaria a ser o indivíduo quieto como sempre, mas percebi que não precisava participar da idéia para achá-la bacana. Podia ver poesia na cena “Velvet Underground” com aqueles manés se escondendo em quartos escuros e se entupindo de heroína, mas nem por isso eu precisava participar daquilo! Podia achar legal a filosofia raulseixista de botecos, mas também não precisava freqüentar botecos ou coisa parecida. As idéias estavam em todo lugar e eu não precisava participar de nenhuma delas. Era melhor eu criar a minha própria “idéia”. E a minha “idéia” consistia em apenas contemplar todas as outras sem julgamento. Era o observar atento e curioso de uma criança feliz e idiota.

Após o pôr-do-sol e mais um monte de pensamento maluco eu fui caminhando até a Pousadinha da Inês onde estava “hospedado”. Chegando lá eu tomei um banho. A sensação da água limpando o corpo era muito boa. Sentia uma força muito estranha nos ombros. Era como se eu estivesse usando uma armadura ou coisa parecida. Minha coluna ficava sempre totalmente ereta, bem diferente do jeito tortão que costumo ficar…

Saindo do banho eu fiz um copão de Nescafé. Huaaa!!! Café! Meu vício preferido! Fiquei ouvindo música, fumando, tomando café e olhando o contraste entre as cores do Marlboro, uma xícara branca e vermelha, as caixinhas de som e o disk-man. Aquilo me parecia tão bacana que resolvi tirar fotos. Eram fotos do quarto, fotos de caixinhas de som, Nescafé e tal… eram todas fotos absurdas!! Mas aquele contraste de cores me parecia tão perfeito para fotografias!! Uma pena que nenhuma dessas fotos tenha saído (já que eu havia esquecido de usar o flash da máquina)…

Sentia a falta de alguém para conversar. Nada desesperador, mas parecia que seria positivo conversar com algum conhecido. Às vezes me pegava fazendo gestos com as mãos para ilustrar algum pensamento que passava pela minha cabeça. Achava aquilo engraçado. Por que precisaria ilustrar um pensamento com gestos se não tinha ninguém ali para me ouvir? Lembrei do pessoal da minha banda. Pow, no dia seguinte eu poderia ver todo mundo e seria muito legal!

Deitei na cama e fiquei observando a iluminação do quarto. Pow! Aquele quarto tinha uma iluminação muito bem projetada! As cores amarelas das paredes contrastavam com o marrom das portas e janela. Observando a parede com atenção comecei a notar alguns poucos visuais. Coisas se mexiam. Olhando o teto de madeira também via alguns visuais quando parava para observar com calma. As coisas respiravam e borbulhavam me deixando maravilhado.

Mesmo sem fome resolvi fazer um sopão. Não foi difícil preparar a coisa. O difícil foi comer aquilo! Ficou muito ruim! Saí para andar pela cidade. As pessoas pareciam ter medo de mim. Eu não entendia bem o porquê, mas quando voltei para o quarto e me olhei no espelho eu entendi e eu mesmo fiquei assustado com meu aspecto: as pupilas estavam muito dilatadas! Definitivamente eu tinha um aspecto assustador. Parecia um monstro. Dei risada de mim mesmo e ao rir minha imagem ficava quase demoníaca. Era uma ironia aquele visual assustador, levando-se em consideração a paz que eu sentia.

Os efeitos do cogumelo já estavam diminuindo. O pico da viagem já havia passado e então resolvi fumar um baseado. Um outro pessoal havia chegado ao camping e eles montavam suas barracas enquanto eu fumava meu baseado. Notei um sapo no quintal e fiquei fumando meu baseado e brincando com o anfíbio. Depois tentei dormir… custou para eu conseguir pois havia tomado café demais… mas dormi.

Pela quantidade tão pequena de cogumelos até que tive uma experiência intensa.


No dia seguinte eu voltaria para casa. Ia arrumando as minhas coisas quando notei que havia sobrado muita maconha, pois não havia fumado quase nada. Para não jogar aquilo fora resolvi guardar e levar de volta comigo. Tinha uma paranguinha e uns baseadinhos já prontos e enrolados em folhas de uva.

Naquele dia eu me sentia muito bem, o que é muito normal, pois o dia posterior a uma trip de cogumelos geralmente nasce muito bonito. Tu fica com um puta ânimo para aceitar as coisas e seguir a tua vida com paz e amor no coração… e foi com esse contentamento todo que segui com as minhas coisas em direção ao ônibus para Três Corações, de onde sairia um ônibus para São Paulo.

Cheguei em Três Corações mais ou menos nove horas da manhã. Revelei umas fotos nesses “Kodak Express” de uma hora e enquanto esperava o ônibus fiquei olhando as fotos, comendo um salgadinho, tomando uma coca-cola e fumando meu cigarro. De repente me aparecem dois homens com uniforme bege. Era o uniforme da Polícia Militar de Minas Gerais. Um deles tinha os olhos claros, rosto fino e cabelo castanho. O outro tinha cabelo enrolado, bigode e era um pouco mais gordo. O mais magro disse:

Estranhei, mas logo entendi que teria problemas. Guardei minhas coisas com calma e até com um breve sorriso nos lábios. Era engraçado me ver numa situação dessas. Acompanhei os policiais descendo umas escadas até o banheiro da rodoviária. Chegando lá o magrinho novamente me dirigiu a voz dizendo:

Pedi para o policial gordo segurar minha coca-cola, abri minha mochila e dei a paranguinha miserável que encontrei.

Que droga! Eu acho que tinha! Eram aqueles baseadinhos enrolados em folhas de uva! O magrinho começou a revistar minhas coisas enquanto o gordo ficou olhando as fotos. Ofereci salgadinho e coca-cola para o gordo e fiquei comentando sobre as fotografias que havia tirado. O gordo tinha jeito de ser uma pessoa bacana. Conversava normalmente não como autoridade e condenado, mas como ser humano. Sem me tratar mal como o magrinho – filho duma puta – me tratava. Perguntava coisas como “quando chegou aqui?”, “de onde você é?” e essas coisas…

Achei que o cara queria me assustar falando daquele jeito, mas eu estava feliz demais para ficar assustado com esse tipo de coisa. No dia anterior havia sentido coisas infinitamente superiores para me importar com essas coisas mesquinhas de humanos… não que eu havia deixado de ser um humano mesquinho como tantos outros, mas estava feliz demais para me importar com esses joguinhos de adultos e nem fiquei apavorado nem nada… só sabia que ia me ferrar.

Subimos as escadas e voltamos à rodoviária. Enquanto outros policiais verificavam um carro que parecia estar sem documentação, o gordo e o magro ligaram para a delegacia para enviar um carro para me pegar enquanto revistavam outros garotos em busca de drogas. Pedi emprestado o violão de um dos garotos que estava sendo enquadrado, me sentei em meio aquele caos, acendi um cigarro e fiquei tocando uma música. Era uma música da minha banda. Chama-se Hubble II. Ela foi escrita por um amigo meu. Era o seguinte:

Já faz três noites que eu não durmo,

Só para ver o sol nascer,

Estou esperando o fim do mundo,

Com um sorriso o anoitecer.

Os teus óculos escuros,

Te libertam da virtude,

Perdidos no deserto,

Em plena luz do meio dia.

Do meu telescópio mágico,

Consigo ver todos os teus sonhos,

A deriva sobre um mar de tirania.

Do meu telescópio mágico,

Consigo ver todos os teus sonhos,

Procurando um final feliz pra nossa história.

Você se lembra quando não tinha perigo,

De viver sozinho na cidade,

Areia e neve te fazendo companhia,

Contemplando a essência da verdade.

Por causa disso é que eu vou morar no céu…

Mas vou guardar um lugar para você,

Eu quero ficar velho o bastante,

Todos os dias junto com você.

Ver o mundo pelas lentes mágicas,

E saber por que a vida é assim,

Na solidão do espaço escuro e frio.

Ver o mundo pelas lentes mágicas,

E saber por que a vida é assim,

Estou tranqüilo, pois aqui não tem maldade.

Os garotos estavam limpos. Pediram o violão de volta. Uma pena. Ficaria horas me divertindo com aquele violão Del Vecchio afinadinho e macio!

Depois veio um outro carro da polícia. Entrei nele e seguimos em direção a delegacia. Estava meio confuso com aquilo, mas estava achando o máximo a sensação de poder viver o que um bandido vive. Aquele banco de plástico. Aqueles policiais com óculos escuros empinando o peito e pensando ter alguma autoridade. Armas. Grades. Era tudo tão novo! Não era bom ou ruim, era apenas uma situação que ainda eu não havia vivido. Achava meio ridículo aqueles policiais orgulhosos e decadentes, mas não levei aquilo para o lado pessoal. Parecia apenas um teatro no qual um bando de gente representava alguma autoridade digna de respeito, mas que no fundo no fundo eram pessoas que tinham suas vidas, suas famílias, seus defeitos, virtudes, sonhos, histórias, estórias e essas coisas… enfim…

Chegamos na delegacia. Fumei mais um cigarro. Por fora da delegacia havia um canteiro com plantas murchas, entrava-se e via-se uma espécie de balcão onde ficava o delegado e sua televisãozinha. Haviam alguns bancos e atrás do balcão uma espécie de cela. Um chiqueirinho pra dizer a verdade.

Começava a me preocupar com o ônibus, pois já havia comprado as passagens para às 13h30 e já era mais ou menos 12h30. Perguntei para o policial magrinho se daria tempo de eu pegar meu ônibus. Num olhar que expressava um misto de ódio e orgulho ele falou:

Mas o tom de voz e o jeito que ele falou “SE depender de mim” me fez saber que ele estava mentindo. Seu olhar não era bom. Um tempo depois fiz a mesma pergunta para o policial de bigode. Ele falou:

Achei graça da afirmação do policial mas não respondi nada. O magrinho me pediu para assinar umas coisas. Os outros policiais pareciam não gostar muito dele. Ele tinha jeito de ser novato na profissão e isso fazia dele um cara extremamente “caxias”. Os policiais foram saindo. O delegado falou para eu entrar na cela mas antes disso perguntou:

Nem respondi nada. O silêncio é uma virtude diante de frases estúpidas como esta. Que faria eu com um canivete cego na mão dentro de uma delegacia? Entrei na cela e perguntei se podia fumar lá dentro. Ele disse:

Fiquei lá dentro fumando. Era um lugar meio escuro. Tinha uns armários velhos e enferrujados, uma tábua de barraco no chão e uma janelinha pequenininha que dava vista para um canteiro bem mal cuidado. Fiquei olhando o que havia sido registrado nas paredes por outras pessoas que passaram por aquela cela. Lia-se coisa de todo tipo.

“…estou arrependido nunca mais farei isso”
“São Paulo Zona Sul”
“Nóis na Fita!”
“Gambé fiadaputa!”
“…fui pego mas sou inocente!”
“São Thomé nunca mais!”

E mais um monte de outras frases de ódio, medo, arrependimento ou simplesmente um registro de alguém que gostaria de ser lembrado ou conhecido. Fui até a portícula da cela e falei para o delegado:

O cara pediu para ver minha passagem e tentou ligar no telefone que estava nela.

Aí apareceu um maluco para pedir informações ao delegado sobre um suposto concurso para entrar na polícia. O delegado falou:

Pow! O cara foi meu salvador!! Me ofereci a fazer um café solúvel, já que tinha pó, fogareiro e açúcar nas minhas coisas. Fiz o café na cela mesmo e ficamos tomando e eu fumando feito um condenado. Literalmente. Aí apareceu o cara da passagem. Havia conseguido trocar para as 18:00 horas mais ou menos… fiquei contente pra caramba!

Depois de um tempo apareceu um velho. Devia ser algum amigo do delegado. Olhou para eu e a minha cara de bom cidadão e falou:

Os dois riram e eu, apesar de não ver muita diferença entre a cervejinha e a maconhinha do fim-de-semana disse:

Na verdade nunca me condenei no ato de fumar maconha. Sempre me foi uma coisa positiva, me proporcionou uma boa percepção e contato com a natureza e pensamento. Descobri coisas e a mim mesmo sob efeito da tão discriminada erva… mas… fazer o quê? Sempre soube que era uma coisa proibida. Não adiantaria de nada falar “quê isso meu! é uma erva natural e não pode te prejudicar!” Eu tinha que concordar. Sempre soube que estava desrespeitando as leis de uma sociedade que, querendo ou não, estava inserido… por isso concordei com o velho, pois sabia que ele tinha apenas boas intenções e que seu conselho era, do ponto de vista dele, benéfico para mim…

Quando o velho saiu, o delegado abriu a portícula e me deixou ficar sentado num banco. Falou que eu não precisava ficar lá na cela. Ficamos fumando. Ele me perguntou se eu estava com fome… de fato estava.

Então esquentamos a marmita dele no meu fogareiro e ele dividiu o marmitex comigo. Depois peguei o disk-man e colocamos numa caixa amplificada. Ficamos ouvindo Tom Zé e Mutantes. Batendo papo descobri que o delegado era baterista. Ficamos falando sobre música até aparecer dois policiais com um cara bêbado.

O cara se dizia promotor, mas ninguém acreditava nele. Os policias (não era nem o gordo nem o magro) o trataram mal e ele estava bem bêbado. Me pediu um cigarro e insistia em dizer que era um promotor de justiça de uma certa cidade vizinha. O delegado tentava ligar para um telefone que o tal promotor dizia para confirmar se ele era mesmo promotor… não entendi direito pra quê isso… quer dizer que se ele fosse promotor não precisava assinar nada? Achei meio estranho mas fiquei quieto…

Enquanto não conseguia ligar para o tal número, o delegado acabou fazendo amizade com o tal do promotor. Fiquei apenas observando o diálogo dos dois que às vezes era interrompido por algum indivíduo que estava cumprindo pena condicional e era obrigado a todo dia ir até a delegacia e assinar uns papéis. O delegado parecia ter amizade com todos eles. Tratava todos muito bem.

Enquanto eu tava lá só ouvindo os caras conversarem comecei a sentir sono. Me lembrei que quase não havia dormido noite passada porque durante a trip de cogumelos tinha tomado café demais… sentia um pouco de dor de cabeça também… mas o pior foi quando me lembrei que um primo meu trabalha na polícia. Caralho! Foi a única coisa que me tirou a paz. E se o cara me visse fichado e comentasse com meu pai:

Fiquei preocupado rezando pra tudo quanto é santo. Até falei:

Aí toda vez que eu via alguém passando em frente a delegacia eu pensava: “tá lá! aquele é um anjo de Deus enviado pra me salvar”!

Mas não era não…

Mesmo Deus não tendo me livrado a cara naquela hora eu prometi:

Ele não respondeu nada, mas acho que quem cala consente e a promessa estava feita.

Num determinado momento o delegado conseguiu ligar para um certo número e confirmou que o bebum era promotor… então liberou o cara assim sem mais nem menos. Pensei: “pow! agora acho que também vou ser liberado”.

Mas nem fui. Continuei lá com sono e dor de cabeça…

Até que já era umas cinco horas da tarde e o delegado falou que a gente ia ter que ir à casa de um cara para ele fazer os papéis para eu assinar. Fechou a delegacia, abriu as portas do camburão, falou que eu podia ir na parte da frente.

E o delegado pisava com vontade. O carro corria! Ligou sirenes e derrapou em curvas apenas para se divertir. Foi tudo bem rápido, mas chegando em frente a casa do cara que tinha que assinar a papelada eu tive que ir no banco de trás e ele foi com mais calma no camburão.

O cara tinha cara de mau. Me ignorava. Perguntava dados técnicos meus para o delegado como se eu fosse um bicho que não podia falar. Eu nem liguei. Só mais um babaca representando uma autoridade escondida por uns óculos escuros comprado em qualquer camelô por aí. Filho da puta. Mas contra a minha própria vontade até senti um certo respeito pela figura. O cara representava muito bem. Era meio assustador o jeito sério que olhava. Não estava pra brincadeira não.

Chegamos novamente na delegacia, mas desta vez não fomos para o lugar onde tinha o balcão e a celinha. Fomos para uma espécie de casarão. É como se a celinha que eu estava fosse um boteco vendendo ovos coloridos enquanto o casarão fosse um restaurante de luxo. O delegado não entrou lá. Fomos eu e o cara sério. Sentei numa cadeira qualquer e o cara me perguntou um monte de bobeira e ficou digitando lá num computador. Depois imprimiu o negócio, assinou, me deu para assinar e falou que precisaria de um “curador”, seja lá o que isso queira dizer. O delegado assinou como esse tal de curador e eu fui liberado. Nem me despedi do cara sério, mas agradeci muito o delegado e, irônico, falei:

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