[2001-07-02] - OUTRO DESSES FINS DE SEMANA ORDINÁRIOS
(Julho de 2001)
Então, no sábado, deixei o relógio para despertar às 9:00 da manhã, pois teria um grande dia pela frente.
Bah… grande merda deixar o relógio para as nove. Foi ele gritar no meu ouvido e eu dei um tapão nele e voltei a dormir até às 13:00 horas. Lá se foi metade do meu dia! Mas tudo bem: agora estava descansado de uma semana de muito trabalho…
Acordei, escovei os dentes, tomei um café preto para tirar o cheiro de sono da boca e, do jeito que acordei, fui para uma loja de produtos para bichos e plantas. Esses pet shops por aí…
Comprei terra, um vaso, roubei areia de um lugar que estava em construção e voltei para casa.
Misturei a terra com a areia conforme havia sido alertado pelo Pitângoras (meu pé de pitanga) em um sonho uns dias atrás. Replantei a planta no novo solo, que agora drenaria melhor a água e melhoraria a formação das folhas.
Com o outro vaso que comprei, separei a Maria da Joana, minhas outras plantinhas… especiais.
Tudo isso me pareceu um movimento positivo para elas.
Depois tomei um banho e resolvi andar. Era um daqueles sábados de sol em que você não tem muito o que fazer e resolve sair andando… Fui até o centro de Barueri, tomei tintura de kava-kava e fiquei “legalzinho”. Aí vi uns cartazes de um tal de “Universo em Desencanto” e uma tal de “Cultura Racional”. Os seguidores dessa cultura ficavam todos vestidos de branco. Pensei:
“Podiscrê! Quero ver qual é desses racionais aí. Vou bater papo furado!”
Enquanto olhava os cartazes, fumava um cigarro e sentia o efeito da kava-kava relaxando meu corpo e limpando meus pensamentos. Foi quando apareceu um cara de branco:
– Pode ler isso aí que desenvolve o raciocínio. – Podiscrê – respondi, e perguntei: – Ei… por que é “universo em desencanto”? – Porque se descobre de onde vem e pra onde vai.
Ele foi até um cartaz e começou a explicar sobre um tal de “supermundo de origem”, falou da evolução e de mais um monte de coisas… Enquanto ele falava, mostrei uns textos que eu tinha escrito sob efeito de maconha:
– Esses textos eu escrevi sob uma inspiração externa a mim…
Fui lendo o texto e o cara foi ouvindo com cuidado. Pediu para tirar uma cópia. Não sei se achava que podia ser alguma mensagem que o racional superior mandou pra mim, já que o texto tinha lá um tom meio religioso e profético. Enquanto uma mulher foi copiar o texto numa papelaria, ele me disse:
– Isso é um chamado! Você tem que comprar o livro da Cultura Racional.
Expliquei que, na verdade, o texto fazia uma crítica ao racionalismo puro:
Deus não seria apenas conhecimento. Para mantermos a cabeça em equilíbrio, a razão e a emoção deveriam coexistir, pois a razão sem encantamento destrói, e a emoção sem razão conduz à tolice.
O cara não gostou muito, mas eu também não insistiria. Falei:
– Você conhece o Tim Maia Racional? Ele participou dessa cultura, né?
Ele confirmou, mas comentou:
– O Tim Maia bitolou. Antes da cultura ele fumava maconha em todo lugar… as drogas são um problema.
Aí precisei intervir:
– Existem drogas e drogas, né?
– Ah, sim… falo desses ácidos, cocaína e tal… já usei muito disso. São problema.
– O problema são os excessos. Ou você acha que um baseadinho ou um chazinho de cogumelo de vez em quando vai matar alguém? Existem pessoas e pessoas. Para mim, só serve para adicionar.
Ele me perguntou se eu já tinha lido Carlos Castañeda.
– Podiscrê! “A Erva do Diabo” e tal…
Naquele momento, tudo parecia se encaixar: a espiritualidade, as plantas, a busca.
Então, após o papo furado, a crítica à razão pura e a cópia do textículo, fui embora. No horizonte, o sol ia descendo… mas ainda dava tempo de fazer algo interessante.
Resolvi ir até a Madeirit, uma fábrica abandonada aqui perto. Era o lugar onde via a beleza da vida revidando contra a degradação humana: concreto e ferro sendo dominados lentamente por plantas e fungos. Ali, sozinho, fumei um baseado, subi na caixa d’água e tirei fotos do pôr do sol.
Ah… o vento na cara… aquilo não tinha nada a ver com razão. Era pura sensação.
Se alguém me visse, provavelmente pensaria: “o que esse idiota está fazendo aí em cima?”. Mas eu não ligava. Era só pena deles, que talvez não soubessem como era boa a sensação de estar ali.
O sol foi embora. Um cara lá embaixo gritou alguma coisa. Fui ver:
– Ô, pode tirar suas fotos sossegado, mas a polícia está passando de helicóptero. Fica esperto.
Agradeci e resolvi sair. Segui por ruas vazias, fotografando flores ao lado de garrafas de refrigerante jogadas no chão, vendo a beleza desfigurada da cidade.
E acima de tudo, o céu: azul, vermelho, roxo. Meus olhos vermelhos. E a certeza de que o sol nasceria de novo, amanhã, depois, e depois, e depois…
E depois eu morreria. E o carbono do meu corpo alimentaria um pé de pitanga. E a vida continuaria.
Voltei para casa. Fumei, toquei violão, li a Bíblia.
E dormi. Sonhando.