Parte I
Primeiras Experiências: obsessão pelos estados alterados de consciência
Relatos de 2001–2002
Tem coisa que não tenho certeza se começa de maneira gradual, pouco a pouco, ou se começa com grandes saltos quânticos, do 0 ao 100 em 2 segundos. Só sei que em algum momento, sem muita cerimônia, a realidade me deu sinais de que poderia ser mais plástica, mais ampla, mais misteriosa do que parecia.
Meu interesse pelos estados alterados de consciência começou cedo.
Na infância, eu via minha mãe participando de cultos pentecostais, onde pessoas gritavam, falavam em línguas estranhas, profetizavam e relatavam visões e sonhos. Tudo aquilo fazia o mundo parecer carregado de mistério. Ao mesmo tempo, ouvia meu irmão mais velho e seus amigos contando histórias sobre noites de bebedeira em festas punk — relatos de excessos, risadas e caos.
Alterações da consciência, seja pelos caminhos da fé, seja pelas noites de festa, sempre pareceram algo curioso e atraente. Sem perceber, cresci cercado pela ideia de que a realidade podia ser algo mais elástica e interessante do que o normal sugeria.
Em algum ponto, perdi o encanto pelo cristianismo e me interessei pelas religiões orientais, pela filosofia e pela contracultura que absorvia das conversas sobre rock que aconteciam à minha volta. Foi nesse espírito que, pesquisando sobre Syd Barrett em um fórum na internet, ouvi pela primeira vez falar sobre a kava-kava — uma planta das ilhas Fiji usada para promover relaxamento e socialização.
Descobri que o extrato da planta era vendido como ansiolítico e que estava ao meu alcance.
Do kava-kava para o interesse por outras substâncias foi um pulo. Mas não foi um caminho de influência de “más companhias” ou rebeldia cega. Foi um processo espontâneo, movido pela curiosidade e pela busca do mistério — onde transgressão e religiosidade caminhavam, de algum modo, lado a lado.
Esses primeiros relatos foram escritos num tempo em que eu ainda viajava de forma leve e deslumbrada, meio sem saber aonde ia. Havia entusiasmo, alguma imprudência, e um encantamento genuíno com as primeiras pequenas revoluções interiores.