Este relato registra uma experiência casual, quase sem grandes pretensões, mas que se revelou carregada de significado.
Em um domingo de céu azul e pedaladas tranquilas, um punhado de cogumelos cubensis — velhos aliados de tantas jornadas — se expressou em mim de forma melancólica e suave.
Mais do que visões ou epifanias, emergiu um sentimento de despedida silenciosa. Um pressentimento de que a fase de trabalho com essas pequenas e sábias presenças estava chegando ao fim.
Curiosamente, foi pouco depois dessa experiência que minha então namorada ficou grávida — e a sensação de fim que pairava naquela tarde acabou se revelando, na verdade, como o prenúncio de um novo começo. Mais responsabilidade, menos tempo para lidar com estados alterados de consciência e mais foco e atenção no mundo comum e ordinário.
O tigre estava a espreita e eu provavelmente teria pouco tempo para apreciar suas listras pretas e alaranjadas.
Este é um relato de leveza, transição e gratidão: o momento em que, com serenidade, começamos a nos afastar de antigos mestres para abrir espaço para a vida que chega.
[2012-08-12] - TALVEZ UM ADEUS, TALVEZ UM ATÉ LOGO
Depois de muito tempo sem realizar nenhuma experiência enteógena, hoje, por acaso, decidi fazer uma viagem. Tinha uns seis cogumelos secos, guardados há alguns meses — foi a primeira vez que eu mesmo os cultivei. Depois da colheita e da desidratação, ficaram armazenados na geladeira com sílica gel. O domingo estava bonito, com um céu azulzão; minha namorada precisava estudar em casa, e eu não tinha muito mais o que fazer.
Decidi tomar os cogumelos e ir de bicicleta até o Parque Ecológico, que fica há uns 10 km daqui.
Comi os cogumelos com sal, que é o método que gostei mais até hoje. Isso era 11h50.
Comi, dei um beijo na namorada, peguei a bike e saí. Fui pedalando até lá e quando chegou em frente ao parque notei que o lugar estava bastante cheio. Resolvi andar mais um pouco de bicicleta antes de entrar, indo mais adiante da entrada do parque, em lugares desinteressantes para as pessoas no geral. Ainda não sentia nenhum efeito.
Quando cheguei no fim da estradinha notei que alguma coisa estava acontecendo. O silêncio humano e som dos pássaros cantando era muito agradável. Era uma estradinha deserta que beira o rio e o parque. Andar de bicicleta estava muito bom, equilíbrio e atenção acima do comum, como o que acontece em geral nas trips que faço com cubensis.
Voltei para a estradinha, deixei a bike na entrada do parque ecológico e fui andar por lá. Tinha muita gente. Havia aquele ar de egos inchados e rede globo. Muita gente, senso comum, som alto, churrasco, camiseta do corinthians, funk, adolescentes, enfim… um ambiente hostil. Mas não fiquei intimidado nem nada. Passei por entre a gente segurando minha atenção em mim mesmo.
Subi por uma trilha e enquanto ia me distanciando das pessoas entrava naquela sintonia mais fina com a natureza. Sentindo o cheiro da trilha, o vento, a umidade passando pelo corpo, enfim, toda aquele contato com a natureza que faz a gente se sentir o índiozinho no mato, cheio de vigor e alegria.
Saindo da trilha fiquei deitado sob uma árvore. Tive insights muito bons. Gosto tanto dos cogumelinhos porque eles são como eu. A Salvia, a Argyréia, as outras plantas não são como eu. Elas têm um ar diferente, mas com os cogumelos tenho essa empatia. No entanto, a energia desses cogumelos, desse meu cultivo, era uma energia “sonolenta”. Esses cogumelos estavam sonolentos, não tinham descansado direito, porque meu cultivo não foi como deveria. Acho que estressei muito eles, porque estava muito impaciente. E eles não descansaram direito e por isso tinham sono.
Com esse entendimento o cogumelo me mostrou lá na essência, um garoto melancólico, porque lá na essência tenho algo meio melancólico, algo de “outono”, como aquelas árvores secas. E ali encontrei empatia com a energia daqueles cogumelos. Éramos amigos sonolentos, meio melancólicos, olhando aquele céu azul, bonito, com um sorriso discreto, feliz e ao mesmo tempo melancólico, como uma música do Nick Drake.
Vez ou outra via algum sujeito dos churrasco por ali, com seus óculos escuros, suas gingas de maloqueiro, olhavam ali pra mim, eu olhava de volta, eles disfarçavam e saíam. A comunicação não-verbal era muito facilitada e havia aquele “campo” anti-curioso a minha volta. Em nenhum momento me senti inseguro ou preocupado com as pessoas. Tenho notado que desde que tenho feito exercícios, consigo olhar mais as pessoas nos olhos, não fico muito de cabeça baixa. Toda preocupação, insegurança vai pra barriga, pro Tan Tien, que é pra onde vão também todos os pensamentos quando em meditação.
Fiquei um bom tempo por ali. Tive alguns insights muito bons a respeito do vento e tudo que ele trás. Toda vida que ele trás quando sopra e se respiramos aquele vento, se estivermos bem, aquela vida toda vem pra gente e te deixa mais forte. Mas se estiver fraco, aquela vida toda te adoece. A árvore que fazia sombra virou uma velha amiga. Quando saí de lá me despedi dela, andei mais um pouco pelo parque ecológico. Tinha passado mais de uma hora desde que tomei, era umas 13h e pouco.
Quando saí, peguei a bicicleta lá na frente e fiquei andando por ali na estradinha sem movimento. Vários passarinhos por ali. Capivaras, essas coisas. Sentia um cheiro doce de alguma flor misturado com o cheiro dos eucaliptos. E o som do vento batendo lá no alto desses eucaliptos fazendo as árvores dançarem pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. Fiquei um bom tempo andando sem as mãos de bike e havia muito equilibrio, sem problemas.
Depois fiquei mais centrado e fui pedalando de volta pra casa.
Em casa tomei um banho, tomei um copo de água e fui para o quarto, na janela que dá de cara para o sol. Fiquei ali e foi uma parte meio ruim da trip. Queria dormir e ao mesmo tempo não queria. Provavelmente o que fiz os cogumelos sentirem em meu cultivo meio desastrado. Muito pensamento, muita imagem mental. Um desassossego geral. Tinha começado a ouvir música clássica (Beethoven), mas percebi o som de uns passarinhos ao fundo. Desliguei a música e fiquei só com os passarinhos tretando e cantando “bem te viiii”.
Em alguns momentos foi meio ruim. Visões ruins, não uma bad-trip, mas é como se estivesse lidando com alguns cogumelos “deformados”. Como se eles estivessem doentes e precisassem tomar expressão no meu corpo. Tinha que deixar eles se expressarem e segurar a onda. Essa era a impressão que dava. Até que teve alguns seres meio feios, esquisitos, que eles me enfiaram guela abaixo. Como se eu tivesse que digerir aquilo, manifestar, expressar. Possivelmente porque coletei alguns “abortos” (cogumelos que não frutificaram apropriadamente no cultivo) e desidratei junto…
Entendi que damos vida aos cogumelos com nosso corpo, que é o nosso veículo. Deixamos eles se expressarem através de nós. Por isso que eles são como nós, são mestres, mas também são simples como nós mesmos. Desde o tempo de Maria Sabina muita coisa aconteceu no reino dos cogumelos. É preciso ter discernimento ao trabalhar com eles. Como amigos e aliados, mas não como mestres com os quais seguimos tudo cegamente.
No instante em que botaram aqueles seres “guela abaixo” em mim, minha namorada foi lá para o quarto. Ela ficou lendo não sei o quê e eu fiquei ali. Abri os olhos, fiquei olhando o céu azul. Os efeitos foram passando, passando… muita calma, tranquilidade.
Depois fui na minha mãe, conversar com ela, conversa muito boa com risos e choros e tudo mais, porque ela está numa fase muito importante da vida dela, com páginas velhas virando. Depois falei com meu pai pelo telefone. Depois fui correr os 8km. Acho que os cogumelos são meio energéticos, porque pedalei bastante durante o dia e ainda tive pique pra correr a noite… aí vim pra casa, comecei a ler as coisas aqui e relatar essa experiência.
Não pretendo fazer uma nova experiência com los niños tão cedo. Enquanto estava no parque, senti mesmo que pouco a pouco estou me despedindo dos meus aliados. Primeiro foi a Argyréia no fim do ano passado, agora os cubensis meio que “deixaram a entender” que devo seguir outro caminho… sei lá. Deixar as coisas irem assentando e depois vejo como vai ser. É isso aí.
12 Agosto 2012.