Durante uma viagem a São Thomé das Letras, em novembro de 2011, planejei, junto com minha namorada, uma nova comunhão com os cogumelos cubensis. Mas, como tantas vezes acontece no caminho das medicinas, nossos planos foram redirecionados: diante da ausência dos cogumelos, recorremos às sementes de Argyréia nervosa — uma velha professora, tão exigente quanto generosa.
O que deveria ser apenas uma alternativa improvisada se revelou uma travessia difícil, física e emocionalmente intensa, mas também profundamente transformadora. Foi nessa experiência que senti, talvez pela primeira vez de forma consciente, que meu ciclo com a Argyréia estava se encerrando.
[2011-11-15] - MUITO OBRIGADO, DONA ARGYREIA 'NERVOSA'
Pois então fomos eu e minha namorada viajar para São Thomé das Letras agora no feriado do dia 15 de novembro.
Tínhamos a intenção de fazer novas experiências com os cubensis, e caso não fosse possível tinha levado algumas sementes de argyréia.
Estávamos mesmo precisando dar uma “renovada”.
Pela primeira vez fui dirigindo um carro, rodando com meu uninho os 400 km da minha cidade até a famosa cidade de pedras de Minas Gerais. Minha primeira viagem grande de carro, fiquei muito apreensivo com estradas, placas e essas coisas mais mundanas.
Pode parecer besteira, mas desde as últimas experiências com salvia tenho essa sensação de que coisas “supostamente” não vivas tem essa consciência primitiva, que desejam mesmo existirem como unidade e de certa forma havia esse vínculo com o carro. Como se fosse um terceiro ser, entre eu e minha namorada.
Seguimos pelas estradas rápidas da Fernão Dias, depois a belíssima estrada de Três Corações até São Thomé, e depois, finalmente, a estrada de terra, cheia de pedras, que vai até a cidadezinha de Sobradinho (17km de São Thomé), onde ficaríamos.
Fizemos caçadas aos cubensis todos os dias (sábado, domingo e segunda), mas não encontramos nada. Acho que faltou um sol mais ardido. Ou então eles simplesmente não quiseram se mostrar.
No entanto, nesses dias, senti uma grande comunhão com a natureza. Os vaga-lumes à noite. O cheiro dos pastos, as pedras, e principalmente os sons de pássaros, de cigarras, e todos os seres entoando suas canções hipnóticas e infinitas.
A natureza é mesmo muito linda e “enteógena” por si só, sem necessidade de nenhuma molécula mágica, apenas um pouco de abertura à magia da vida.
O uninho sempre ali valente nos levando aos lugares mais remotos da região. Como um objeto mágico, vivificado por magia.
Na segunda-feira, após mais uma caçada sem resultados, desistimos dos cubensis. Não fomos mesmo aceitos. Então resolvemos comungar com as sementes. Eu estava evitando, porque as sensações físicas são muito fortes e só de lembrar do cheiro, me zoa o estômago. A Argyréia exige muito do corpo para te ensinar. Causa muita náusea, parece que abaixa a pressão, tem aquela vasoconstrição.
Mas seus ensinamentos sempre me foram muito valiosos e tenho muito respeito com a planta. É uma mestra muito severa, mas eficiente.
E então fizemos nossa experiência. Tomamos poucas sementes, já que não sabia ao certo a procedência: três pra mim, três pra ela.
Havíamos tomado um café da manhã legal. Estávamos em São Thomé e não em Sobradinho (onde estávamos hospedados). Pretendíamos passar o dia na cidade de pedras em comunhão com a planta.
Uns dez minutos depois de mastigar e engolir as sementes, já senti um desconforto no estômago. Excesso de saliva, aquela vontade de cuspir toda hora. Uma sensação conhecida até.
Uns trinta minutos e já sentia que algo estava acontecendo. Não era uma sensação “espetacular”, mas era um certo bem estar. Sensação boa em todo corpo, exceto no estômago. Sem visões, talvez apenas uma qualidade melhor no sentido da visão, onde dava para enxergar as coisas mais destacadas umas das outras.
Lá de cima das pedras olhávamos a floresta lá embaixo, num canto sossegado com poucas pessoas por perto. As árvores pareciam brócolis e havia toda sorte de pássaros voando. Uma conexão muito boa com a natureza, mas que sinceramente não era muito diferente da conexão que tenho normalmente hoje em dia. Aquela coisa de ficar que nem tonto olhando as coisas, prestando atenção principalmente nos sons. Enxergo mal, acho que meus sentidos auditivos funcionam melhor.
E ficamos por ali. A sensação era de paz, uma clareza nos pensamentos, mas nada revelador nem “revolucionário”. Não havia nenhum ensinamento.
Pra dizer a verdade o que sentia é que a única coisa que estava agindo era a parte tóxica da planta: destruindo meu estômago e mexendo com minha circulação e fazendo eu existir em uma velocidade mais lenta do que o comum, o que dava aquela sensação de paz.
Minha namorada estava na mesma pegada que eu. Mas ela dizia sentir também dor de cabeça. Por isso decidimos sair lá das pedras e descer para a cidade, onde estava o carro.
Passamos em uma vendinha, comprei uma coca-cola pra ver se dava uma melhorada “arrotando”.
Sentia uma certa dificuldade em respirar. O estômago melhorou um pouco com a coca, mas ainda estava bem ruinzinho.
Não era difícil se comunicar com as pessoas. Não estava alterado, nem nada derretia. Estava mais passando mal do que “na luz” da planta.
Fomos para o carro e eu comentei que seria bom descermos para a cidade, e ficar deitado lá no quarto, porque estava muito ruim.
Minha namorada falou que não. Acho que ela estava preocupada porque estávamos na força da planta, e dirigir assim não é nada recomendável. Na verdade é feio, reprovável e pode inclusive prejudicar as plantas enteógenas caso aconteça um acidente nessa situação.
Ela também comentou que deveríamos ir comer, porque isso poderia melhorar os sintomas. Achei completamente absurdo. Comer qualquer coisa naquela situação era insano.
Ficar no carro também era muito desagradável. Dava uma certa falta de ar. E não dava pra ficar lá com os vidros abertos sem fazer nada no carro. Seria muito esquisito, porque pessoas passam por ali e ficariam olhando.
Olha, bad trip animal naquele ponto da experiência.
Saímos de lá, fomos para a praça de São Thomé, perto da igreja. Falei que poderíamos ficar ali um pouco e combinamos que depois tentaríamos comer alguma coisa.
Ficamos lá sentados. Às vezes a sensação de desconforto diminuía, às vezes aumentava. Vinha em ondas de mal-estar. Isso acho que fazia uma ou duas horas desde que ingerimos as sementes.
Ficamos ali conversando. Apesar do mal-estar, a conversa fluía de uma forma interessante, cheia de insights. Comentei que a sensação que eu tinha é que não tinha mais nada que aprender com as sementes. Essa linha de trip com ensinamentos mais “sólidos” e “lógicos” eu já conseguia incorporar de alguma forma na minha vida. Agora meu negócio seria partir para ensinamentos mais espaciais. Que agora seria legal explorar mais o salviaspace e suas coisas alienígenas. Ali ainda havia muito a conhecer, mas que definitivamente não queria mais comungar com Argyréia. Ela exige demais do corpo.
Lembrei das palavras de uma amiga, dizendo que os cubensis poderiam utilizar nossos corpos para experimentar o mundo, em uma simbiose maluca. Neste caso, se fosse o mesmo com a Argyréia, pode ser que ela simplesmente não tivesse mais interesse nesse indivíduo magrelo que está ficando cada dia mais velho.
Comentamos que o negócio mesmo é que estávamos envelhecendo, eu e minha namorada. E as Argyréias não são para os fracos. Elas exigem corpos fortes e corações valentes demais. Não tenho mais idade pra isso hein….
Chegamos mesmo em um consenso, que aquela seria a última experiência com essas sementes mágicas.
Então fomos tentar almoçar. No restaurante tudo era muito “doido”. A mesa tinha uns detalhes vermelhos bastante assustadores. As pessoas nos olhavam. Ficávamos em silêncio ou falando baixo. A comida parecia demorar uma eternidade. Uma música do pink floyd de fundo. Era tudo muito perturbador.
Quando a comida chegou, comi como remédio, porque o gosto e a textura não caiam bem. Comia para ver se melhorava mesmo e nem aguentei comer tudo.
Saímos de lá. Fomos para o carro. E estava chovendo.
Agora sim era uma bad-trip. Como ia descer pra Sobradinho, 17 km de terra, com chuva e na bad-trip da planta?
Bom. Pedi pra Deus proteção, bati na lataria do uno, como se bate em um cavalo quando precisa de sua ajuda e dei partida.
Fomos seguindo em meio a lama. Eu muito tenso, minha namorada muito preocupada. No dia anterior havia caído um uno lá no meio das árvores fazendo aquele percurso. E nem estava chovendo!
Fomos seguindo e durante o trajeto fomos conversando sobre a insanidade daquela experiência.
Graças a Deus chegamos a salvo. O carro cheio de lama. É como se aquela fosse uma prova de fogo, mas quando chegamos em nosso quarto já não havia nenhuma sensação ruim. Estômago estava zerado. Cabeça estava boa. Estávamos a salvo, sobrevivido a tudo aquilo. Fiquei a ouvir os pássaros, minha namorada deitou na cama. Fiquei lá fora observando uns bichinhos. Deitei na rede. Era uma paz indescritível. Uma felicidade intensa. É como o sol brilhando após uma tempestade, fazendo tudo ficar mais colorido, mais bonito.
A mágica estava em tudo. Desde que partimos de São Paulo, até aquele momento, era tudo a magia invisível do universo e das intenções divinas. A música do hippie ficava na cabeça “na força dos anjos, é na força dos anjos”. E tinha todos aqueles bichinhos voando.
Minha namorada veio deitar na rede comigo. Mostrei a ela os bichos voando. É como se fossem os anjos voando. Eles saiam da grama e subiam, subiam, levando todas as preces do mundo para os céus. E porque pensar que os seres espirituais, como anjos, tem mesmo que ser só de luz e invisíveis? Não poderiam ser aqueles insetos? Porque os elementais não poderiam ser seres que constam nos catálogos de biologia?
Bom, não sei se eram anjos, fadas ou insetos, mas ficava entretido olhando eles voando por ali. Parece que estavam abençoando tudo. Ficavam em cima do carro. Não eram agressivos, não picavam.
Aos poucos os olhos foram ficando pesados e havia aquele “mix” de sonho e visão. Cochilos cheios de visões sem cores. Uma delas eu ia até um castelo de ouro muito bonito, que curava tudo. Mas nem me esforcei em lembrar de todas as visões. Não fixava a mente nelas. Deixava que abençoassem, sem me preocupar em decodificar e entender. Você não precisa entender da chuva. Às vezes só precisa se beneficiar da água que vem dela.
E ali fomos ficando, conversando, uma felicidade muito boa, uma vibração muito boa, muita sincronicidade e magia simples acontecendo até o fim do dia.
Dona Argyréia foi uma ótima professora, mas não pretendo mais comungar com ela não. Pode ser que um dia eu mude de idéia. Mas acho que já aprendi o suficiente com ela. E ela também deve ter se enjoado de mim :)
Ela tem mesmo essa forma de primeiro te matar para depois te mostrar as coisas.
Hoje tenho me sentido muito bem. Em paz. Não renascido, mas renovado. Com muita gratidão a Deus, a planta, ao carro que nos levou e trouxe de volta no meio dessa chuva toda que peguei hoje na Fernão Dias. Não há nenhum sentimento melhor que o de estar grato ao universo. Gratidão significa aceitar as coisas como elas são.
15 Novembro 2011