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Em junho de 2013 participei de uma cerimônia tradicional de peiote, inspirada na Igreja Nativa Americana.

Dessa vez, fui acompanhado de minha irmã, que pela primeira vez se aventurava no universo das medicinas sagradas.

Tinha expectativas de uma jornada intensa e reveladora, mas a experiência seguiu outro caminho: sob chuva, frio e cansaço, encontrei uma lição de humildade e de desapego às idealizações. Percebi também, de forma silenciosa e tocante, a inversão de papéis com minha irmã — ela, mais jovem, assumindo a postura protetora.

Este é o relato de uma cerimônia dura, fragmentada, mas profundamente honesta, onde o aprendizado maior veio de aceitar que nem sempre os espíritos se manifestam com força e glória — às vezes vêm apenas como a chuva e o fogo tentando se manter aceso.

[2013-06-20] - MESCALITO, FOGO E CHUVA

Neste fim de semana participei de uma nova cerimônia de plantas de poder, neste caso o peiote, e desta vez baseada na tradição da américa do norte, da igreja nativa americana.

Minha irmã, que nunca alterou o estado de consciência com nenhuma planta ou substância, vinha falando comigo sobre o interesse em participar de alguma coisa desse tipo e resolvi convidá-la para ir comigo neste trabalho.

As últimas cerimônias que tenho participado tem sido antecedidas por sonhos e dessa vez ocorreu o mesmo… uma semana antes do trabalho sonhei com um mescalito caricatural, alto e com cabeça de cebola. Eu dormia e ele ficava por ali velando o sono.

No dia da cerimônia fomos lá e estava muito cheia. Muita gente participando.

O peiote se apresentou como uma planta muito interessante, me lembrou um pouco os cogumelos, mas de uma forma mais constante. Achei bastante diferente do wachuma. Tive algumas visões e insights muito positivos. Só acho que a experiência foi muito prejudicada por fatores externos. O rigor da cerimônia e os vários momentos em que ela se “quebrou” me afetaram. E houve muito cansaço, igual no sonho, em que mescalito estava lá mas eu dormia. O sonho me veio em mente na hora e entendi que então era assim que devia ser. Uma cerimônia difícil, ao ar livre com fogueira e chuva durante a madrugada.

Me senti bastante fraco. E apesar do sol, do calor e do vigor do cacto, me senti incomodado contando o tempo para que aquilo acabasse logo. Foi uma lição de humildade em certo sentido. Através de sonhos e acontecimentos tenho notado uma inflação em mim mesmo nas últimas semanas e aí vem o universo a compensar, me detonando. É o que chamam de peia, talvez. Nada mais que uma compensação do universo para conter a inflação do indivíduo. Tenho treinado duro o corpo, a mente, o espírito e ainda assim me vi fraquinho ali com o peiote.

Minha irmã, por outro lado, que é bem mais nova que eu e nunca tinha tomado nada, se apresentava com uma força descomunal. E eu via ali minha relação com ela. Não era ela minha irmãzinha, mas era eu seu “irmãozinho”. Ela é grandona. E sentia como se ela me protegesse. Nossa relação sempre foi assim. Ela cuidando de mim. E o propósito da cerimônia era exatamente “melhorar as relações”. Um propósito muito profundo, que envolve muitos tipos de relacionamento: relacionamento com si próprio, relacionamento social, relacionamento com família, relacionamento com a vida, enfim… se o propósito da cerimônia era “melhorar as relações”, então, muito disso estava sendo trabalhado em mim, de um jeito cansativo, mas consistente.

A cerimônia ao meu modo de ver ficou quebrada e incompleta. Na minha forma de ver muitas coisas “minaram” o poder centralizador da cerimônia: a quantidade de pessoas fez com que o círculo tivesse que se afastar da fogueira, saindo do “ponto ideal”. Um cara sumiu no meio do trabalho, a chuva, que apesar de sagrada e agradável, acabava indo “contra” o fogo. Quando vi isso lembrei da parte da manhã, enquanto ainda estava em casa e estava pegando fogo novamente em uma mata perto da minha casa. Foi um rapaz lá com uma mangueira apagar e na hora pensei se aquilo não era algum tipo de agouro… talvez tenha sido. Também havia a barreira da linguagem, onde o condutor da cerimônia não falava português e prejudicava a fluidez.

Mas era assim que tinha que ser dessa vez. E era bonito de ver as pessoas lá firmes aguentado o frio, o cansaço e a chuva. Eu é que tava fraco e deixando essas coisas externas me afetarem.

Quando finalizou a cerimônia, conversei com algumas pessoas. Em geral me sinto meio estranho com o pós-cerimônia, todo mundo se abraçando e tudo mais, mas houve muita empatia com algumas pessoas e foi muito bom estreitar algumas relações. Conversei bastante com minha irmã e fiquei muito feliz em perceber que ela aproveitou bem a cerimônia e que encontrou o que estava buscando.

Para mim ficaram muitos aprendizados. E também o desejo de fazer um novo trabalho mais intenso com mescalina, mas desvinculado de grupos, para conseguir entender melhor a planta em si, com a mente social mais afastada. Experiências em grupo e solitárias (ou em grupos pequenos e íntimos) são muito diferentes em cada uma se aprende de uma forma. Nas experiências em grupo não é só a planta que ensina, mas o formato da cerimônia tem muito ensinamento codificado em seu desenho. E também é necessário um esforço pessoal para se encaixar neste desenho. A experiência pessoal é mais difícil em alguns pontos, porque você precisa lidar sozinho com as turbulências do espírito, e também, se não tiver um propósito e intenção sincera, pode degradar a experiência e não aprender nada, se é que realmente é possível alguma coisa assim… mas por outro lado não há fatores externos. Apenas fatores internos.

Nestes últimos meses do ano tenho aprendido muita coisa e sou muito grato a Deus, o universo, o cosmo ou seja lá o que for, que tem me proporcionado essas oportunidades.

Segunda-Feira às 10:27.

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