Em julho de 2013 participei de uma cerimônia tradicional andina com Wachuma, o cacto San Pedro.
Já havia conhecido sua força em experiências solitárias, mas desta vez, em roda, pude sentir algo ainda mais profundo: uma força solar e terrosa, capaz de iluminar e organizar o espírito sem apagar sua individualidade.
No centro da cerimônia, a Chakana — o símbolo andino da integração — revelava, não só na mente, mas no coração, o entendimento das forças que estruturam o mundo: o triângulo da criação, o círculo da vida e o quadrado da comunidade.
Mais do que visões grandiosas, a medicina trouxe ensinamentos simples e vivos: sobre enraizamento, força de caráter, amor à família, e o valor da existência compartilhada sem perda da própria luz.
Este é o relato de uma travessia solar, onde San Pedro, como um lagarto atento sob o sol, me ensinou que também a construção silenciosa é sagrada.
[2013-07-31] - A FORÇA SOLAR DE SAN PEDRO
Neste fim de semana tive a oportunidade de participar de uma cerimônia muito bonita de trabalho com Wachuma.
Já havia trabalhado com San Pedro no ano passado há uns 9 meses, onde senti uma onda muito amigável, ensolarada, revigorante e gentil. Características que se mantiveram consistentes no trabalho desse fim de semana. Mas a experiência do ano passado foi sozinho, na minha casa, sem cerimônia.
As experiências em solidão, com qualquer planta, são muito boas para conhecer a planta intimamente e também trabalhar a si mesmo com a “mente social” desligada, o que é muito bom às vezes. Mas todo trabalho sozinho pode ser arriscado, porque no trabalho em grupo as turbulências da planta e do espírito são conduzidas em grupo, com consistência, enquanto sozinho é você que tem que fazer todo o trabalho. Tem que confiar muito em Deus, na planta e em si mesmo para fazer experiências solitárias.
Mas a cerimônia desse fim de semana foi uma das coisas mais bonita que já vi, com muita simplicidade, muito amor e muita honestidade. Não acreditava que participaria de algo assim nessa vida. Foi em cima da tradição Inca, conduzida por descendentes dos povos. Todo trabalho aconteceu em volta de uma Chakana, que hoje entendo como um dos símbolos mais mágicos e poderosos que já existiram desde sempre. Há muitos anos sou fascinado pelo poder do triângulo, especialmente aquele de Sierpinski, que até tenho tatuado no braço. Não é um objeto sagrado tradicional, sendo tido muito mais como uma curiosidade matemática, mas para mim, por vários motivos, é bastante sagrado. E também com o círculo e sua imprecisão, que tenho tatuado próximo ao coração. Mas em quanto ao quadrado, sobre esta forma eu não tinha pensado nada até hoje.
O triângulo te remete a criação, ao conhecimento, ao número três, a criação do tempo, tese-antitese-síntese. Karma. A causa e consequência, a dualidade que está codificada no triângulo é um assunto muito extenso, que tende ao infinito.
O círculo te remete a vida, a unidade, a eternidade. Nada é mais simples e ao mesmo tempo mais complexo que o círculo. O mistério do Tao, do caminho perfeito, os caminhos da água, os ciclos da natureza.
E o quadrado te remete a completude, a organização do tempo, a criação do espaço. Te remete também a comunidade, ao estabelecimento de um “eu” dentro de uma comunidade. É assim que é a bandeira Inca. Os montes de quadradinhos coloridos coexistindo num quadradão. Cada um em seu espaço. Armários e gavetas são quadrados, organizadores por excelência.
E nesse fim de semana, além de muitas coisas, cheguei em alguma compreensão sobre o quadrado e em especial da Chakana, que quando trabalhada revela o triângulo e o círculo. Assim como o triângulo revela o círculo e o quadrado e o círculo revela o quadrado e o triângulo. Só muda o ponto de origem do estudo. E faltava essa perna em meu entendimento sobre esse assunto, o entendimento do quadrado e seu poder.
Neste trabalho entendi que a verdadeira união acontece a partir de unidades distintas e bem definidas, que coexistem. A união que revela beleza não é aquela que vai para um liquidificador e homogeniza tudo, mas àquela que possui unidades e corações fortes e distintos, mas batendo em um mesmo ritmo. A união indistinta aniquila a beleza da individualidade, pois cada coração é uma estrela que deve brilhar ao seu próprio modo e confeccionar o tecido do universo e todos seus padrões loucos.
A situação toda, a oportunidade que tive, foi orquestrada por forças que desconheço, dias antes de acontecer.
Em um sonho eu deixava minha namorada e minha filhinha para fazer uma viagem de última hora ao Japão, que acontecia em um aviãozinho simplezinho com japoneses tradicionais.
(oriente, aonde nasce o sol, aonde há uma relação equilibrada com a espiritualidade, japoneses tradicionais, como a cerimônia tradicional)
Em outro sonho eu encontrava cobras e lagartos. Uma cobra verde me encarava e seu pescoço inchava e nele eu via padrões psicodélicos, tipo Windows Media Player. Uma mulher (Dionéia, mulher do meu pai, cujo nome remete a “dio”) dizia para pegar a cobra pelo pescoço. Ela era verde, gordinha e curta, como um cacto. E não era má e nem boa.
Entendo que esses sonhos e insights estavam me preparando para o trabalho.
Ao longo da cerimônia não tive visões coloridas, mas tive visões do coração. E vi o sol e o cacto muito gentil me abençoando. E então sulcos na terra, como uma labirinto com padrões quadráticos, com ângulos retos (quadrados). E o cacto se fazia água, se fazia cobra, e preenchia todo labirinto, serpenteando com sua cor verde. Ele estava preenchendo o coração. E via desertos sendo inundados por um ouro líquido, que era o sol. E de lá nasciam mais cactos e cactos.
Muitas cores amarelas e verdes durante a madrugada gelada, como um sol.
Também minha mente e meu coração foram até minha família, minha filhinha, minha namorada. E eu era um sol, minha namorada uma lua e nossa filhinha um pequeno planetinha. E isso formava nosso sistema. Pensei em muitas coisas nesse sentido. A relação entre o sol e a lua é complexa e primordial.
Agora escrevendo lembro das palavras do condutor do trabalho “no coração do gelo há o fogo e no coração do fogo há o gelo”. Ou alguma coisa assim.
Minha luta tem sido estabelecer meu quadrado. Minha família. Meu espaço no trabalho. E isso se consegue com um coração forte e um ego sadio. Os cactos e os quadrados não tem nada a ver com dissolução de ego e essas coisas. Tem a ver com trabalhar, não mentir e não roubar, que são os valores Incas. Tem a ver com força, honestidade, trabalho. O cacto suporta o sol todos os dias. Cria espinhos nas costas para se proteger. Mas nem por isso deixam de florescer grandiosamente quando chega seu tempo.
Em certos pontos da cerimônia eram feitas rezas. Elas partiam de um dos condutores do trabalho, que acendia um cachimbo, dizia sua reza, agradecendo a Pachamama, Mamacocha e depois ia passando de mão em mão, e cada um dos participantes ia dizendo sua própria oração e agradecendo ao seu próprio modo, enfim, dizendo o que havia em seu coração. E nisso muitas imagens mentais surgiam, pois muito falava-se sobre água, rios, cachoeiras, árvores, animais, minerais, e a cada palavra das orações, era como se estivessem falando uma poesia. Quando chegou minha vez eu não sabia o que dizer direito hehe, agradeci a Deus, ao sol (que povoava minhas imagens mentais e me aquecia na mente), a água… acho que sou um pouco tímido e tinha muita gente lá, então não foi uma coisa muito agradável se expor nesse sentido, mas também não foi uma coisa exatamente “desagradável”.
E foi uma cerimônia muito bonita, que começou a noite e foi até o sol nascer. E como parte da finalização da cerimônia as mulheres trazem alimentos, milho, mandioca, carne, melancia, e isso representa a generosidade de Pachamama com todos seus filhos. E da melancia comi até a casca, hehe.
Ao fim do trabalho falei com um dos condutores da cerimônia, e conversamos sobre a relação com o cacto. Ele me falou que durante o trabalho ele se torna lagarto. Falei sobre o sonho com cobras e lagartos. Falamos sobre isso. O lagarto vive muito próximo à terra. Seus pés firmes no chão. Não voa para longe. Fica imóvel e com a atenção sempre ativa. A visão capta tudo, 180 graus. Nada passa desapercebido pelo lagarto. Ele absorve a energia do sol e da pedra. Não se chega afobado para se comunicar com o lagarto, porque isso o afugenta. Os lagartos também conhecem os mistérios da escuridão e são telepatas. Falamos sobre isso. E também sobre as maneiras de se relacionar com San Pedro. Falei sobre as experiências solitárias que às vezes faço. Ele falou que aprendeu a medicina desse jeito, sozinho, que ninguém ensinou a se relacionar com a planta. Acho que houve alguma empatia e comunicação telepata de lagarto. Falamos também sobre o vigor que o cacto nos dá, que no ano passado havia tomado ao longo do dia e que não sentia fome nem sede, nem nada. Ele falou que é assim mesmo e que alguns trabalhos que ele faz com seu pessoal no Chile, é ao longo do dia, caminhando pela montanha, parando, cantando, tomando mais. Ele falou que os cristaizinhos da pasta do wachuma vão se acumulam no corpo e que você vai tomando e tomando e não tendo visões da mente, mas que um dia, vai ter cristais suficiente no corpo e aí as visões vão explodir e aí sim vai entender a mensagem do cacto para você. Guardei as palavras no coração e espero um dia ter uma oportunidade de outro trabalho com o Lagarto.
Umas nove ou dez horas da manhã peguei o carro, ainda com um pouco de força solar, sem nada de sono ou cansaço. Peguei estrada, voltei pra casa.
31 Julho 2013.
Hoje, quatro dias depois da cerimônia, me sinto em paz, com um senso de organização e sentidos sociais muito apurados. Nos meus sonhos muitas formas quadradas e vira e mexe vejo a Chakana em minha mente e mais uma vez agradeço a oportunidade de poder compreender o cacto e o sagrado símbolo andino.