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Em agosto de 2013 participei de uma cerimônia andina que utilizava medicinas amazônicas como ayahuasca, tabaco, rapé e kambô. O propósito do trabalho era investigar nosso papel neste mundo — entender como podemos ser úteis à vontade divina — e, para mim, havia também um objetivo pessoal: compreender a natureza da ayahuasca, que até então me parecia um mistério.

Ao longo da experiência, entendi que nem sempre a medicina traz respostas claras. Às vezes, o verdadeiro ensinamento vem através do silêncio, da ausência de explicações, do simples fluir da força pelo corpo — como uma água viva, como uma serpente que se molda e percorre cada espaço interior.

Este é o relato de um encontro com essa força silenciosa, feminina, profunda, que ensina não tanto através de palavras, mas através do próprio movimento invisível da vida.

[2013-08-31] - A SERPENTE DE ÁGUA

Neste fim de semana participei novamente de uma cerimônia andina baseada na Chakana. Dessa vez o trabalho foi realizado com medicinas amazônicas: tabaco, ayahuasca, rapé, kambô.

O propósito da cerimônia era buscar entender nossa missão na vida. Buscar compreender o que estamos fazendo aqui neste planeta e como podemos ser uteis para a vontade divina.

Meu propósito, além disso, era compreender a ayahuasca, pois das outras poucas vezes que trabalhei com esta medicina não pude compreender ao certo o modo pela qual ela trabalha. Não conseguia entender ao certo quando estava dentro e fora da força e da luz. Ainda que tida por muitos como a maior das plantas de poder, sinto que nunca tive um contato realmente significativo e transformador com ela, em comparação com cogumelos, argyreia ou Salvia.

O trabalho com o tabaco costuma iniciar essa cerimônia. Ele vai limpando os caminhos, preparando o terreno para as outras medicinas. E o tabaco em pasta para mim é muito agradável. O sabor e o estado mental que ele me proporciona é bastante “aconchegante”. Pude sentir onde havia maior densidade em meu corpo e o tabaco vai trabalhando essa densidade, vai quebrando as pedras maiores, vai limando as arestas te deixando pronto para a medicina.

O trabalho com ayahuasca foi iniciado com silêncio. Deitado, quase dormindo, pude sentir a planta iniciando seu trabalho dentro do corpo. Não houve mirações, mas entendi a planta como uma serpente, como água, que passa pelo ser, que vai penetrando tudo, que vai possuindo, tomando forma em nosso corpo. A água não tem forma fixa, ela se molda no corpo. E é assim que entendi a força da planta chegando. Tratando de se moldar no corpo.

Houve algum diálogo interior com uma voz doce, feminina e jovem. Não sei se é a voz da planta ou a voz a alma. Mas me dizia que não havia nada para me responder. Que eu estava oco e não havia matéria para ela trabalhar. Dizia que não era de respostas que eu precisava, mas de abertura dos caminhos.

Esta foi a segunda vez que a bebida me diz que não tem nada para me responder. Há muitos anos atrás, a ultima vez em que comunguei ayahuasca, ela dizia que não tinha o que ensinar, que eu tinha era que praticar, que viver o pouco que aprendi por aí. Foi nessa época, acho que em 2006 ou antes, que tinha parado de trabalhar com plantas e fiquei mais dedicado em minha profissão, meus relacionamentos mundanos e essas coisas.

Dessa vez houve esse silêncio por parte da planta, mas pude entender melhor sua natureza, o processo também foi mais claro, para entender quando era a força agindo e quando era tregua.

A primeira mensagem da planta fora enviada com essa omissão.

Quando terminou o silêncio e começou a cantoria deram a segunda dose. Sentia um ar de tensão no ambiente. Estava acontecendo algumas tretas no astral. Eu tinha que me manter alerta e firme. E assim fiquei com o pensamento em favor da cerimônia e bastante consciente.

Tomei a segunda dose e quando veio a força houve mais diálogo com a moça. Entendi a idéia do “boiadero”, que conduz sem falar e sem explicar. Simplesmente conduz. E compreendi que este é um modo válido de viver no mundo e é de uma certa maneira um propósito. Conduzir o mundo sem dar explicações. Aceitei o entendimento do boiadero. Senti meu abdome com muita força. A força de um rinoceronte com aquele chifrão na cara.

O ensinamento da planta ficou nisso e aceitei este entendimento.

A cerimônia, com sua base na floresta, dava uma sensação de escuridão, umidade e mistério. Muito diferente do trabalho com wachuma e todo seu calor. Para mim ayahuasca se apresentou com uma força mais feminina que masculina e em geral acho mais difícil o trabalho com plantas com esse tipo de energia. Argyréia, Salvia, Ayahuasca, Mary Jane… todas elas se apresentam para mim como femininas. Muito entendimento, mas o corpo, durante a experiência, padece sem vigor. No entanto, San Pedro, Cubensis, Kratom, Kava, tem essa força mais masculina que me deixam cheio de energia e animado. É uma questão de equilibrio entre o sol e a água nas plantas.

A ayahuasca te transforma em água. Sua natureza de serpente flui pelo corpo, e é assim que ela trabalha, é assim que limpa, como água e como serpente. E eu não sei nadar direito, me sinto mais “em casa” com o sol.

Não quis uma terceira dose, apesar de ter condições de seguir. Acho que o entendimento fora suficiente. Continuei na força que ainda rolava para prestar atenção nos ícaros. Um convidado, acho que do México, conduzia canções incríveis que me faziam ver muitas coisas interessantes. Não muito coloridas, mas coisas interessantes do astral. Uma música falava sobre asas que fazem o mundo girar e eu via isso tudo com muita velocidade.

O ritual seguiu com aplicação de rapé e de kambô. Com o rapé consegui penetrar numa escuridão verdadeiramente negra e curativa. Senti que deu um “reboot” físico e mental. A escuridão e o vazio que enxerguei com o rapé se compara a uma luz brilhante que me levou a uma interessante clareza de sentidos. Com o kambô senti o sangue pulsando e a vida com calor e violência explodindo e queimando. Fiz uma limpeza. Estou agora prestando atenção nas horas e dias que sucedem a experiência para entender como isso tudo efetivamente me trabalhou.

Não tenho intenção de comungar com ayahuasca novamente nos próximos meses, talvez anos. Vou seguir o que entendi e se for trabalhar será com as medicinas com as quais me identifico melhor. Provavelmente Salvia, San Pedro, talvez cogumelos.

1 Setembro 2013.

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