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[2023–09–09] - PEQUENOS VELHOS AMIGOS

Há alguns anos atrás ganhei um presente de um amigo muito querido. Ele andava cultivando cogumelos psilocibe, e me deu uma grande quantidade deles secos e desidratados. Éramos colegas de um grupo de estudos de “plantas enteógenas”, que particularmente me parece um nome tão equivocado quanto “plantas alucinógenas”.

Eu sairia demais do tema que gostaria de tratar se fosse falar sobre os detalhes semânticos e etimológicos dessas palavras, e do porquê acho que ambas expressões “plantas enteógenas” e “plantas alucinógenas” me parecem erradas, quando a expressão “plantas psicoativas” me parece bem mais simples de entender, e também mais honesta e neutra para se referir ao tema central dos estudos em que estava envolvido quando conheci esse colega.

Seja como for, havia ganhado esse grande pacote de psilocibes desidratados. Para quem não sabe, psilocybe cubensis é uma espécie de fungo que contém uma substância chamada “psilocibina”, que é classificada como uma triptamina, isso é, uma substância da mesma família da “serotonina”, que é esse neurotransmissor tão falado por aí quando se aborda o tema de depressão, humor e esse tipo de coisa.

Mas também acho que não devo entrar no assunto de neurotransmissores, porque reduziria meu humilde relato em um punhado de bobagens científicas, ou quase científicas, ditas por um cara que não é cientista e que provavelmente diria um monte de asneira com ares de doutor, como as muitas asneiras que vemos por aí em canais de youtube desses supostos especialistas do assunto, que sabem tudo sobre dopamina, serotonina, endorfinas e oxitocinas, como que contando histórias de uma mitologia neuroquímica, com os super-poderes dos neurotransmissores, que substituem as qualidades divinas de uma inteligência de Hermes, do amor de Afrodite, da fúria de Ares ou dos sonhos de Morfeu.

Se for para ficar na mitologia, prefiro me manter nos clássicos em lugar de colocar qualidades divinas nessas moléculas invisíveis e de nomes esquisitos.

Enfim. O fato é que ganhei um grande presente, de um amigo muito querido, de uma substância mais que especial: uma substância mágica.

Cogumelo não é planta e nem bicho! É fungo! Tem carne, mas não é bicho; frutifica mas não é planta. Os cogumelos psilocybe, como dizem nas gringas, é “mágico”. É também origem de lendas urbanas, de histórias de gente que ficou “doida” depois de tomar o tal do “chá de cogumelo” e coisas do tipo. Falam também do chá de lírio, mas isso é outro assunto, trata das solanáceas e com essas aí eu não sou doido de me meter. Elas realmente podem te matar e te causar problemas realmente permanentes.

Os psilocybes são sempre bondosos, mesmo quando enlouquecem. Buscam sempre promover a vida, a abundância e a alegria, mesmo quando apresentam cenas aterrorizantes e perturbadoras.

Não sou principiante no uso e amizade com esses seres, os cogumelos. Eles tiveram papel fundamental em várias etapas e fases de minha vida, e ja fiz algumas dezenas de experiências com eles e com outras plantas, em especial os cactos, as trepadeiras, salvia, kratom… apesar de sempre ter sido prudente, sem abusar muito das plantas, tenho um certo orgulho de meu currículo como psiconauta, onde já pude navegar por diversas dimensões psíquicas e espirituais com meus queridos (e às vezes temíveis) aliados do reino vegetal e fungi.

E desse pacote que ganhei, fiz uso três vezes ao longo dos cinco anos em que o presente esteve guardado no congelador da minha geladeira. Antes tinha dúvidas, mas hoje posso confirmar com certeza que armazenar cogumelos perfeitamente desidratados no congelador pode preservar seus efeitos por anos. Isso tem um custo: o espírito deles sente frio. Se você não acredita nisso, tudo bem, e é até o esperado. Mas este é um relato subjetivo, de uma relação humano-fungo altamente pessoal, que compõe uma maneira muito particular de enxergar a vida. E estive tempo o suficiente ligado nas ciências da mente para saber que o que temos de conhecimento não é capaz de descrever precisa e completamente nossa experiência humana, sem deixar espaço para o espiritual, o mágico e o mistério, de maneira que me sinto totalmente confortável em dizer: existe algo como um espírito que habita esses pequenos e poderosos seres, os psilocybes. Los niños (meninos), como diria a querida Maria Sabina em sua comovente história de relação com essas entidades mágicas.

E esses anos em que estiveram guardados no congelador da minha geladeira afetou profundamente o espírito desses que ganhei de presente. Nas três experiências que tive com esse lote, senti um frio e sonolência incomuns para experiências desse tipo. Esse frio me levou e forçou a ter experiências mais introspectivas: deitado, de olhos fechados, em um cobertor quentinho.

Sempre gostei de experiências ao ar livre. Tomar cogumelos e andar pela praia. Tomar cactos e subir montanhas. Andar em trilhas com a atenção afetada por essas substâncias que expandem nossos sentidos, que fazem as cores se tornarem mais brilhantes, os sons mais nítidos. É um crime chamar tais experiências de “alucinógenas”, quando elas expandem absurdamente nossa capacidade de apreensão da realidade. Perceber a alma do vento, o espírito da árvore, o coração da floresta… os sons e formatos mais sutis. Isso não é alucinação! Isso é conexão com a vida, conexão que foi perdida na marcha da razão, e que — devido a doença do nosso tempo — parece um tipo de loucura, quando a verdadeira loucura é estar alienado de tais forças.

E sempre gostei dessas experiências ao ar livre. Mas com esse lote — esse presente -, as coisas foram diferentes. O frio e a sensação de um fluxo vivo, mas gelado, marchando em direção ao progresso, às máquinas, se preparando para alguma coisa importante e tecnológica. Ou pequenos soldadinhos siberianos, seguindo em direção a uma base militar nas geleiras russas. Esse tipo de visão foi o que deu o tom das experiências com esse presente.

A primeira experiência em específico, foi em 2017, quando ia tentar fazer microdoses, mas que errei a mão, e a microdose se tornou uma dose cheia.

Isso de microdose é um conceito que foi se estabelecendo nos últimos anos, onde se busca fazer uso de uma dose pequena, um quinto, um sexto de uma dose normal, de maneira que não se fica sob os efeitos mais intensos da substância, mas que se obtém apenas seus efeitos terapêuticos, como se fosse uma medicação psiquiátrica para dar uma melhorada geral na criatividade e no humor. Teve um tempo em que havia muita gente no Vale do Silício fazendo microdoses. Programadores, engenheiros de empresas como Google, Apple, Microsoft, andavam em uma hype de usar psilocibina em microdoses. E eu tentei fazer isso nessa vez, mas errei a mão e a microdose foi uma dose cheia.

Se a ideia de uma microdose é fazer uso de uma substância psicodélica, mas se manter funcional, ou seja, trabalhar normalmente e fazer suas coisas comuns e ordinárias, nessa tentativa frustrada de microdose, o frio absurdo eliminou toda a possibilidade de se manter funcional e ativo, de maneira que tive que ir para debaixo das cobertas e lá ver e ouvir tudo o que os pequenos tinham a dizer.

Essa experiência definitivamente não foi agradável. Essas visões geladas e escuras deram o tom de toda a experiência, inclusive trazendo imagens perturbadoras, relacionadas à morte. Eu inclusive andava ouvindo muito o álbum Black Star do David Bowie naquela época, e depois da experiência o álbum fez ainda mais sentido. Sua atmosfera sombria e o relacionamento íntimo com a morte ficaram muito evidentes (para quem não é fã de Bowie, o álbum foi claramente uma despedida e existe algo de mórbido — mas lindo — nesse álbum). Foi depois de um ou dois anos que percebi o valor dessa experiência: as visões daquela tarde me prepararam para uma perda terrível que veio a acometer minha família em 2019. Porque o que eu temia havia surgido naquelas visões perturbadoras, e de algum jeito aquilo me preparou para o fato em si quando ocorreu. Mas isso é assunto pessoal, familiar e acho que não vem ao caso.

A segunda experiência com esse lote foi menos intensa, e foi ao ar livre, apesar de ter sentido frio. Foi uma experiência animadora, alegre, divertida, que deixou o coração mais leve, destravado. Só tive que usar uma blusa. Mas não quero falar dessa experiência. Comecei a escrever esse relato para falar sobre a ultima experiência que tive com esse lote, que está mais fresco na memória e que ocorreu esses dias, em uma das últimas semanas do inverno de 2023.

Era um sábado que começou como geralmente começam os meus sábados: acordando cedo, dando milho para as galinhas, ração para os gatos, fazendo faxina na casa e cuidando das plantas. Ainda pela manhã, cerca de 10h tomei um latão de energético, desses com um monte de taurina, cafeína e inusitol. Me sinto super bem com esse tipo de coisa, e tomar para faxinar a chácara costuma ser bastante interessante. Pois arrumei tudo, lavei roupas, estendi roupas, organizei tudo que tinha que organizar em um dia que o tempo estava rendendo.

Separei 4,2 gramas dos psilocybes que estavam no congelador, deixei em um pote perto de um incensário e acendi um incenso, só para dar uma despertada no material. Enquanto o incenso queimava eu continuava na faxina, e quando era 12h30 eu já tinha praticamente terminado tudo que tinha que terminar. Tomei um banho, troquei a roupa, fiz a barba. Fiquei bonitão para me encontrar com os seres mágicos.

A maneira de ingerir os cogumelos foi uma das melhores que encontrei até hoje: comi umas duas maças antes, piquei os cogumelos com gengibre, fiz um suco de limão, e fui comendo muito lentamente os cogumelos picados às vezes, depois uns pedaços de gengibre, depois um gole do suco de limão… alternando entre esses elementos.

A maçã forra e segura o estômago. O gengibre elimina uma possível náusea. O limão favorece os efeitos. Os cogumelos trazem a força dos pequenos. Todo mundo trabalhando junto, pouco a pouco.

Fiquei comendo muito lentamente tudo entre 13h15 até 13h30. O dia estava agradável, os ipês floridos, cheirando bem, a casa limpinha. Um ambiente perfeito. Comi tudo no lado de fora do quintal, e depois de terminar entrei para a casa, liguei um som e fiquei deitado no sofá. Logo minha gata veio no meu colo e ficamos ali ouvindo o Pet Sounds do Beach Boys ecoando pelo alto falante do celular.

Pouco a pouco fui sentindo frio e ficando sonolento. Fechei os olhos e percebi que a energia vinha chegando, que os pequenos estavam agindo. Já tive experiências muito visuais, de ver cores muito nítidas e brilhantes. Não foi o caso nesse começo. As cores e formas surgiam nos olhos fechados, mas não eram tão brilhantes e nítidas. Inicialmente surgiu uma forma de um ser, um pouco sinistro, obscuro, poderoso. E ele era nutrido de muitos seres, que o faziam crescer, mais ou menos como algum personagem de jogo ou desenho animado, onde um ser das trevas passa a existir a partir da energia vital de muitos outros seres, que vão sendo drenados e alimentam esse ser maior. Essa visão pode parecer um pouco tenebrosa quando coloco no texto deste relato, mas parecia algo bastante natural, dentro do equilibrio do cosmo. Essa figura de poder parecia fazer parte das muitas figuras de poder que surgem de tempos em tempos, com seus aspectos sombrios, mas necessários para coisas grandiosas. Neste momento já havia esse aspecto de “fluxo” nas visões, isso é: havia essa energia em movimento, composta de muitas entidades independentes, mas que seguiam sempre uma mesma direção, e com um mesmo propósito. Esse tema, esse fluxo, foi constante ao longo de todas as visões subsequentes da experiência.

Em algum momento o frio ficou mais intenso, e fui para meu quarto deitar com um cobertor quentinho. Minha gata me seguiu e ficou lá em meu colo. O celular com o som ficou na sala, onde estava antes. A música que tocava na sala e eu ouvia do quarto parecia estranha, ecoada, como se estivesse em um lugar fechado, abafado, distante. Não me incomodava, mas ali eu percebia que já estava com a consciência bastante alterada. Fechava os olhos e surgiam visões. E seres que dirigiam essas visões. Lembro de uma figura feminina, indiferente às questões humanas, que de algum jeito me dizia estar envolvida em coisas muito maiores que os pequenos assuntos humanos. Me fazia lembrar do quão indiferente uma estrela estaria ao ver todo o drama de uma pequena vida humana. O que são os meus problemas ou os meus dilemas diante da eternidade e distância do espaço, das estrelas? Ou mesmo as guerras, uma explosão nuclear? O que é isso diante da imensidão de tempo e espaço na visão de uma estrela olhando para nós aqui embaixo? Esse tipo de raciocínio, que nos coloca em nosso verdadeiro tamanho diante do cosmos, era muito presente durante as visões desse ser feminino. Ela às vezes me parecia quase maligna, mas percebi que ela apenas não tinha tempo à perder: estava envolvida com os processos da vida. Diante desse processo, nossas individualidades não passam de sacos de carne, tão importantes quanto a grama, o mato, um cão, um gato, uma bactéria. O fluir da vida, em algumas dimensões, é indiferente às suas manifestações. Esse fluxo que aparecia nesse conjunto de visões é como se fosse um fluxo de energia elétrica, que não se importa com o aparelho ela vai alimentar. Ela apenas segue fluindo pelos cabos.

Em algum momento também surgiram umas visões curiosas, parecidas com a primeira experiência de 2017: se lá havia esse pequeno exército de seres siberianos em bases militares com artefatos de ferro, agora havia esse pequeno exército que misturava aspectos orgânicos com aspectos robóticos. A sensação que tinha neste momento é que havia um engajamento das forças da vida nos assuntos tecnológicos. Pode parecer muito, — muito louco mesmo —, mas nesse momento percebi que a vida pode estar encontrando seus caminhos dentro das possibilidades tecnológicas. Depois do que vi (e também a partir do que estudo, afinal sou um profissional de tecnologia), não me parece tão impossível assim uma máquina em algum ponto adquirir consciência, e aspectos de vida. Ou a vida encontrar seus meios para animar as máquinas, interagir com elas. Se os pequenos estão relacionados aos processos de vida e consciência da terra, eles poderiam também estar se movimentando dentro das possibilidades tecnológicas? Parece um papo bem Terence McKenna (esse velho mago doido), mas sinceramente, sei bem que o universo e a natureza da realidade é bizarra o suficiente para tornar essa hipótese factível. Pelo menos em algum nível estranho.

Seja como for, o fato é que dentro das visões surgiram essas imagens onde os fluxos de vida interagiam com máquinas e coisas tecnológicas. Esse é o fato. Se foi simplesmente uma fantasia da mente, ou se foi a consciência de um processo profundo ocorrendo nas entranhas da realidade compartilhada, da civilização e da história da vida na terra, isso eu não posso saber, ainda que tenha a agradável tendência de acreditar na possibilidade mais bonita e mágica. E talvez improvável, quando vista sob a ótica comum e ordinária da razão científica.

Os fluxos das visões vinham junto com as músicas que ainda tocavam do meu celular, em ondas. E cada fluxo vinha com uma cor, com um humor. Tinha essas mais indiferentes e decididas, tinha essas mais frias, e tinha outras verdes, ou vermelhas. Em algum ponto o fluxo era tão bonito, tão verde, tão relacionados aos processos naturais, da seiva, da nutrição, do florescimento, que quase explodi em alegria e maravilhamento. Essas sequências de imagens foram muito profundas, muito significativas, e parece que o fluxo vital que surgia nas visões, também preenchia todo meu coração, e meu corpo, e minhas veias, e tudo aquilo também estava me nutrindo. O rio da vida estava fluindo por todo lado, e havia ali vários sub-fluxos naquele rio, como se fossem vários barcos navegando por uma grande corredeira, cada qual com seu jeito, com sua forma, mas todos seguindo o mesmo rio. E nesse momento eu custei para saber quem eu sou, porque não havia um eu, não havia alguém, um humano embaixo das cobertas. Eu não tinha nome, não tinha família, não era nada senão parte do fluxo, e isso era um pouco assustador, mas também maravilhoso. Acho que ocorreu isso de que diziam os psiconautas mais antigos, de perder o ego. Não havia ego nenhum durante algum tempo, mas apenas esse fluxo de vida e alegria. E entendi ali o propósito disso: era justamente vida e alegria. Expansão e abundância. Eles seguiam sempre em frente, como uma manada, sem se preocupar com o que fica para trás. Em um certo momento surgiu a visão de um pequeno velho. E quando falo pequeno, é porque eles se apresentavam de alguma maneira como seres pequenos, algo como um gnomo ou coisa parecida. E esse velho era um velho, mas um velho espiritozinho desses não é um velho qualquer, porque não há decadência e morte. E as rugas desse velho começavam a derreter, e das rugas derretidas, surgia uma pele verde, como um broto, que envelhecia e se regenerava de tempo em tempo. E ele dizia feliz e engraçado: “o que fica para trás, deixa para os fungos comerem”. E nós rimos disso, porque afinal de contas, ele seria supostamente um fungo, e isso parecia algo engraçado de algum jeito que só nós podíamos entender o suficiente para rir.

Surgiram ainda outros seres. Um espírito muito alegre, feliz, amigo, surgiu ali e me explicou tudo, como aquilo funcionava. Ele me dizia desse propósito de fluir seguindo o sol, que é assim a natureza dos cogumelos: eles vão sempre em direção ao sol. Colonizam a terra nas sombras, mas seu movimento é ascendente. E me fez lembrar de uma experiência muito antiga que tive com cogumelos onde vinha a frase ecoando em minha mente “uma onda leve me leva pra cima, uma onda leve me leva pra cima”, e aquela frase, que havia ouvido em uma experiência de umas duas décadas atrás, e ainda ecoa na minha mente, fez todo o sentido do mundo quando falando com esse ser alegre, feliz e amigo. Porque é assim que eles são: pra cima, para a vida, para a luz, para a alegria, para a expansão. Existem plantas que estão mais ligadas às sombras e às profundezas do mistério, mas não os cogumelos. Eles eram, como dizia Maria Sabina, Los niños, as crianças, com todo potencial, vitalidade e alegria que tudo aquilo que é jovem possui. E esse espírito tão alegre, feliz e amigo, apesar da alegria e euforia, podia ser calmo e gentil, como um pequeno protetor, capaz de me dizer coisas que esperaria ouvir de um irmão mais velho ou de um pai. Uma gentileza tão profunda, tão verdadeira, que me fez chorar sozinho, e que forço agora para não chorar de novo enquanto me lembro e escrevo essas linhas. E ele dizia que errar, tropeçar, fazer merda, faz parte do processo, mas que o caminho é sempre pra frente e pra cima, em direção ao sol. E eu sei que tropeçar e fazer merda faz parte do processo. Todo mundo sabe disso. Os coaches e palavras de auto-ajuda na internet nunca nos deixam esquecer esse tipo de pensamento. Mas uma coisa é você ler isso, compreender mais ou menos com as capacidades intelectuais, enquanto desce na timeline da rede social ou pula para o próximo story. E outra coisa totalmente diferente é receber essa mensagem diretamente no coração.

Claro que o comportamento normal de alguém lendo este meu relato é de diminuir a experiência e rotulá-la como uma viagem alucinógena de um drogado. E talvez seja apenas isso mesmo. Assim como o amor pode ser explicado em termos de níveis x ou y de oxitocina no sangue, e que a felicidade possa ser explicada pelos níveis de serotonina ou dopamina, adrenalina ou endorfinas no sistema. Podemos reduzir tudo que é maravilhoso em uma explicação sem graça, e isso é válido e eu até gosto na verdade, porque é como construímos a ciência. Mas me sinto totalmente confortável e no direito de tomar o valor simbólico e subjetivo de uma experiência como essa, e tratar tudo aquilo como real, literalmente real (foda-se), porque foi uma vida real e pulsante que me tocou nessa experiência. Porque não trata-se de estar doidão e fora das minhas faculdades mentais. Eu poderia fazer uma conta de matemática ou pensar em um algoritmo de computação enquanto estava naquele estado. Não estava incapacitado, muito pelo contrário. No entanto podia perceber também a realidade em outros níveis, outras dimensões, que sejam elas fantasiosas ou não, produziam um efeito importante em minha psique e no meu coração.

E estive cerca de três ou quatro horas com essas visões e contato com essas energias e inteligências, com a certeza de que aqueles diálogos não eram uma coisa simplesmente artificial e construída, mas que em algum nível aqueles seres possuíam (e possuem) identidade e autonomia, e que além disso, me aceitavam e me diziam que um dia eu também estaria ali fluindo com eles, construindo a vida nos níveis mais loucos e sutis da realidade. Rindo de tudo que fica pra trás, deixando o que fica pra trás para os fungos comerem, como falou o velhinho sempre jovem. Sei que depois de um processo muito emocionante, foi como se estabelecêssemos um contrato. Eles seriam meus protetores. E eu nunca me esqueceria deles. E o dia que não estivesse mais por aqui, seguiria jornada com eles, construindo a vida e a alegria nessas dimensões ocultas da realidade.

Nos despedimos. Ainda estava com a consciência um pouco alterada, mas depois de se despedir, já não havia mais diálogo. Apenas a consciência alterada mesmo. Fui fazer um arroz, sem tempero, sem sal, porque parece que condimentos não iam cair bem. Comi e às 19h já não sentia mais nenhum efeito, exceto a alegria e encantamento de ter tido o contato mais profundo que já tive com os pequenos, os velhos jovens amigos.

Se eu vi gnomos? Sei lá. Mas talvez eles existam, hein…?

[2023–09–09]

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