Em junho de 2016, num dia comum de trabalho em home office, decidi fazer uma microdose de San Pedro para dar um leve impulso no corpo e na mente. A intenção era simples: mais energia, mais foco, nada além disso.
No entanto, o que parecia ser apenas uma microdose revelou, de forma sutil mas poderosa, a profundidade espiritual do cacto. A experiência me levou por caminhos inesperados — visões de povos antigos, sacrifícios e renascimentos — para, ao final, devolver-me a uma paz silenciosa e renovadora.
Este é o relato de uma experiência discreta, mas que me ensinou, mais uma vez, o quanto as plantas sagradas pedem respeito e o quanto podem ser imprevisíveis.
[2016-06-17] - HOMEOFFICE
No último dia 17/06/16 estava fazendo homeoffice. Decidi fazer uma microdose de san pedro. Comi cerca de dez pedaços inteiros e secos de cacto. Havia inclusive o miolo, casca e alguns poucos espinhos no material.
Na noite anterior não havia jantado e estava em relativo jejum até às 11h, horário que ingeri os espinhudos. Mastiguei calmamente, e engoli aos poucos com suco de laranja.
Meu objetivo era apenas dar uma energizada, um up no corpo e mente para trabalhar.
Depois de aproximadamente meia hora ou mais, percebi que a dose não tinha sido assim tão micro. Havia uma desconexão ou fragmentação de sentimentos físicos e disposição, e também uma tendência a imersão no “nada”. Mas sobretudo havia muita fraqueza. Provavelmente devido à condição de estar há muito tempo sem comer.
O cacto gosta de corpos fortes e saudáveis para se expressar.
Decidi fazer um rango. Apesar de não ser acostumado a cozinhar, o processo acontecia muito naturalmente, sem travas psicológicas de “não sei fazer isso ou aquilo”. Mas a fraqueza física estava sempre constante.
Comi muita comida enquanto liguei a tv no canal do senado. Estava a maior treta ainda relacionada ao impeachment da Dilma. Era um pouco engraçado.
Depois de comer deu uma preguiça nervosa. Desliguei a TV e fiquei sentado de olhos fechados. Havia uma imersão em um nada infinito, onde o tempo se perdia. O corpo ficava imóvel sem esforço. A única coisa que incomodava às vezes era um frio que ia e vinha, se alternando com calor. O dia estava frio de verdade.
Em algum momento decidi ir me deitar embaixo das cobertas, para lá ficar com os olhos fechados mirando o que o cacto queria me mostrar. E me vi dentro de um cacto, que parecia um prédio, cheio de cômodos e pessoas, como se fossem apartamentos. Vi ainda um interior de uma serpente vermelha e uma luz que vinha de fora dela, mas atravessava sua pele e iluminava meu caminho por dentro dela, que se tornava uma espécie de túnel vivo. Fui ainda em uma caverna, onde havia grupos de pessoas, principalmente mulheres, e fogueiras. Eles estavam lá reunidos. E saindo um pouco dessa caverna via outras mulheres, dessa vez loiras, talvez européias, em lugares que pareciam o cerrado brasileiro, com pedras e vegetação rasteira. Essas mulheres estavam procurando cactos na região. Também via sangue e sacrifícios. E havia uma presença de um espírito gigantesco.
Acho que era o cacto mostrando como eram os povos antigos, e sua relação com eles, na qual os devorava, aceitava seus sacrifícios e reinava como uma divindade.
Foi um pouco pesado, não muito agradável, mas quando saí dessa onda de visões cheias de sangue, terror, sacrifício, fogo e morte, me senti renovado, tranquilo, confiante, em paz.
Falei com alguns amigos no whatsapp, a respeito da minha experiência, e tentei trabalhar um pouco, em um app que tenho codificado.
O trabalho fluiu bem, a concentração estava ok. A visão um pouco ruim. Parece que a mescalina me prejudica bastante nesse ponto. Em uma experiência passada, do meio para o final dos efeitos, senti os olhos bem prejudicados, como se estivessem dilatados.
E os efeitos mais intensos foram diminuindo pela noite, até sobrar apenas uma tranquilidade e sentimento de gratidão para com os espinhudos.
Me impressionou a força do que deveria ser apenas uma microdose, e me fez respeitar ainda mais essa medicina incrível!