Kratom é uma árvore da Indonésia, tradicionalmente utilizada por seus efeitos estimulantes e analgésicos. Seus princípios ativos interagem com receptores opióides, e o uso contínuo pode levar a algum nível de dependência.
Durante mais de dois anos, usei o Kratom diariamente — não em busca de experiências espirituais, mas simplesmente como quem toma café para atravessar a rotina. Nunca vi nisso um problema. Afinal, somos dependentes de tantas coisas: da água que bebemos, da comida que comemos, dos confortos pequenos e banais que nos sustentam dia após dia. Criar deliberadamente uma dependência por uma planta, sabendo disso, nunca me causou culpa.
O único motivo pelo qual precisei enfrentar a abstinência foi prático: a impossibilidade súbita de acesso. E a abstinência, longe de ser apenas um desconforto físico, revelou-se também como uma forma peculiar de estado alterado de consciência — um território de transição, de desconstrução, onde corpo e mente negociam silenciosamente seus novos equilíbrios.
Este relato percorre essa travessia: a tentativa de aliviar a abstinência com pequenas doses de DMT extraído de Jurema, e a constatação de que, às vezes, mesmo sem grandes visões ou epifanias, é no esforço cotidiano da readaptação que residem experiências transformadoras.
[2015-09-12] - CRISTAIS DE DMT E ABSTINÊNCIA DE KRATOM
À noite, depois que minha esposa e minha filha já estavam dormindo, e após um dia de alguns desentendimentos e alguma irritação devido a suspensão do uso de kratom (sintomas de abstinência), decidi utilizar alguns cristais de dmt que extraí das raízes de Jurema.
O processo de extração ocorreu há cerca de seis meses atrás, e foi feita com nafta. O resultado foram cristais alaranjados, talvez com resíduos de nafta.
Em uma vaporizador coloquei alguns cristais (não sei precisar, porque minha balança mede no mínimo 100mg - então coloquei 100mg nesta balança e tirei mais da metade dos cristais, chegando um valor certamente inferior ao 50mg).
Minha expectativa era ter uma experiência bastante rápida e intensa, talvez algo semelhante a salvia fumada. Em meu coração procurava algo que fosse capaz de quebrar o hábito desenvolvido de uso diário de kratom e ajudar nos sintomas de abstnência dos próximos dias.
Coloquei os cristais no vaporizador e iniciei seu aquecimento em 80 graus celsius e fui aumentando gradualmente até chegar em 180 graus, sempre testando para sentir se sentia o vapor chegando aos pulmões. Pelo que percebi a partir dos 100 graus é que os cristais começaram efetivamente a serem vaporizados. Pude sentir o gosto plástico e pesado e segurei o máximo que pude. Primeira tragada, segunda tragada (quantidade maior de vapor captado)… rapidamente percebi que a parede estava cheia de pequenos fractais e que estava me dissolvendo naquilo.
Apesar do estado alterado, a consciência estava sempre presente, de modo que desliguei o vaporizador, me deitei e fechei os olhos para curtir a experiência.
De olhos fechados me senti como que flutuando. Imediatamente tive a sensação de estar em um tapete mágico. Também passei a ver algumas formas. Serpentes gordas, anacondas, se enrolando, passeando. Padrões pré-colombianos de cor violeta. Formas de linhas paralelas, sempre curvas, orgânicas.
Apesar de todos os visuais, eles não eram muito claros. Eram visões escuras. Acredito que a dose foi pequena.
No dia seguinte (domingo) não notei nenhuma diferença importante em nada. Apenas a intensificação dos sintomas de abstência, como resfriado (gripe), a inquietação nas pernas, irritação, fraqueza física… muito kava, hipérico, analgésico, rapé, numa tentativa desesperada de sentir-se melhor, mas com poucos resultados positivos.
A noite de domingo para segunda também foi bastante ruim, principalmente pela inquietação das pernas e sonhos irritantes em que uma coisa fica sendo coisada indefinidamente, algo como limpar coisas que logo a seguir ficam sujas novamente, e precisam ser limpadas, e assim infinitamente. Durante esse tipo de sonho, acordava, virava para um lado, para outro, enfim… o corpo se readaptando a uma nova realidade neuroquímica.
Na segunda feira acordei com dor de cabeça e os sintomas de gripe muito fortes, que me impediram de ir trabalhar. Fiquei em casa com os sintomas bastante parecidos com os do dia anterior. Em certo momento decidi fazer uma nova tentativa com os cristais. Dessa vez uma dose bem maior, e em uma temperatura já iniciada em 160 graus. Senti o vapor, segurei, com certeza foi muito maior do que a dosagem do sábado, mas mesmo assim senti apenas uma leve alteração, bem gostosa na verdade, mas nada de visuais, imersão, etc.
Não sei se foi tolerância, ou se tem a ver com o hipérico (que é um IMAO). Sei que outras pessoas relatam esse tipo de coisa: de não entrar no hiperespaço com dmt.
Foram raras as ocasiões em que tive uma experiência realmente significativa com ayahuasca. Talvez tenha alguma questão fisiológica nisso…
A noite da segunda foi novamente difícil, principalmente pela inquietação das pernas.
Terça-feira acordei um pouco mais disposto, e fui trabalhar normalmente. Durante o dia a inquietação nas pernas foi bastante intensa e o pensamento um pouco prejudicado. Mas o dia passou. Durante a noite o sono foi tranquilo, sem interrupções e com um sonho muito bonito, em que voava por entre árvores e lagos. Sensação de liberdade. Talvez devido a readaptação do corpo a nova realidade neuro-química, sem kratom.
12/09/2015