Este relato difere dos demais reunidos nesta coletânea. Foi escrito de forma rápida, direta e quase apressada — não por descuido, mas porque assim parecia querer se manifestar. A experiência com a Salvia divinorum trouxe uma qualidade estranha e difícil de enquadrar, e a própria escrita carregou essa mesma estranheza: fragmentada, intensa, sem espaço para grandes elaborações.
Respeitei esse impulso. Deixei que o texto saísse como saiu, sem polir demais. Assim como a Salvia, que chega, desconstrói e se vai em questão de segundos, este relato é breve e abrupto, mas ainda assim verdadeiro no que pretende transmitir.
[2005-11-16] - MARIA PASTORA
Ninguém em casa. Só eu e ela.
– Vamos experimentar Maria Pastora? – Aqui? – É, agora! – Vamos!
Aprontei o cachimbo rapidinho, com um pouquinho do extrato 20x. Pedi a ela que me supervisionasse, porque a erva mazateca é bem imprevisível…
Ela ficou sentada na minha frente, eu na frente dela. Levei o cachimbo à boca e dei um trago forte. Bem forte. Um único trago forte.
Olhei para ela. Ela estava apreensiva.
No momento em que disse a palavra “bateu”, as colunas da realidade cederam, e tudo caiu. Impressionante! Absurdo! Uma velocidade incrível, e tudo ruindo, caindo, cedendo!
Me joguei no chão, como que num movimento compulsivo, e o êxtase e alegria me invadiram de uma maneira devastadora.
Ela me perguntava como eu estava me sentindo. Eu estava sentindo tudo!
Ela pediu detalhes. Falei que percebia e sabia de tudo!
Pediu mais detalhes. Falei que depois ela entenderia, quando fumasse.
A energia da erva mazateca se manifestava a partir das costas, bem diferente das sementes, que se concentravam no estômago. Ali, nas costas, era alegria e êxtase.
Foi tudo tão rápido e, ao mesmo tempo, eterno, que até agora não sei ao certo o que senti, isto é, não sei as palavras certas para dizer.
Não tive nenhuma visão ou encontro, mas me surpreendi com a intensidade do que estava sentindo. Nunca! Nem cogumelos, nem ayahuasca, nem sementes, nem nada havia me proporcionado uma percepção tão intensa de tudo! Aquela erva era extraterrena!
Pena que com ela, com Maria, é tudo tão rápido… Os efeitos foram diminuindo, diminuindo, e restou apenas uma vibração agradável e constante, e as cores brilhantes em tudo.
Preparei a dose dela.
Coloquei o cachimbo em sua boca (o efeito bate rápido, é bom supervisionar a viagem assim, com bastante cuidado), acendi e pedi que tragasse o mais forte que pudesse. Ela tragou. Tirei o cachimbo de perto dela e falei para ela segurar a fumaça. Ela segurou. Segurou muito até que falei que já podia soltar. Soltou… Olhou para mim.
Eu sentia segurança no que estava fazendo. Sabia que o que haveria de ocorrer em seguida seria intenso.
Olhei para ela. Como que se uma força estranha a tragasse, vi apenas sua cabeça tombando para trás, ela fechando os olhos e jogando os braços para os lados, como que se desmaiasse depois de um susto terrível.
Segurei sua cabeça, que havia tombado para trás, e falei que estava tudo bem, fazendo um cafuné.
Acendi um cigarro e fiquei esperando suas próximas reações.
Ela dizia:
– Não pode, não pode, meu Deus!
Depois dizia:
– Pode sim. Pode!
Eu fiquei calado. Eu sabia que não devia interferir naqueles sonhos. Ainda estava na compreensão mazateca, sabia o que fazer. Meu corpo ainda vibrava, ressonante e com vigor. Tinha vontade de me movimentar, mas ficar parado ainda estava bem. Sabia o que fazer.
Passei a mão em seu cabelo, acariciando. Isso é bom. Conforta o sonho, lá dentro, onde ela estava imersa. Depois peguei em sua mão e fiquei aguardando.
Depois de alguns minutos ela abriu os olhos novamente. Eufórica, começou a falar que fora tragada pela parede, e que uma mulher de verde e amarelo a chamava para ir lá com ela, fundir-se na consciência das coisas inanimadas. Dizia que me via como um enfermeiro que segura o paciente para aplicar a injeção, e que era a própria Maria Pastora a doutora.
Ri. Pedi que continuasse a falar.
Disse que não acreditava no que estava vivenciando, e por isso dizia: “não pode, meu Deus”. Mas que, ao perceber que sua consciência estava mesmo fundida com a consciência da parede, dizia: “pode sim”.
Achei engraçado.
Falou que me via ao lado dela a todo momento. Disse a ela que estava de olhos fechados desde o começo da trip. Ela me falou exatamente a posição em que eu estava e o que fiz, me causando algum assombro, já que sabia de tudo mesmo, apesar de estar de olhos fechados…
Maria Pastora faz essas coisas mesmo com alguns iniciados. Li isso em algum lugar — sobre essas coisas de ver de olhos fechados, só com o olho da mente. É uma consciência independente dos sentidos.
Achei aquilo tudo bem interessante e bizarro. A vibração mazateca persistia. Boas-vindas, ela me disse. Nos encontraremos novamente em breve.
Estou aguardando, Pastora!
16 de novembro de 2005