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Durante algum tempo, fiz um uso intenso de Salvia divinorum. Seus efeitos — bizarros, rápidos, muitas vezes desconcertantes — me levaram a um longo processo de tentativa e erro até começar a entender, ainda que parcialmente, sua natureza. Ou talvez melhor: a relação que pude desenvolver com essa natureza caótica.

O que se segue são registros fragmentados dessas primeiras investidas. Relatos picotados, sem grandes elaborações, como a própria Salvia parecia exigir: confusos, rápidos, e ainda assim, carregados de verdade.

Em um relato posterior, volto a esse tema para tentar organizar melhor o que descobri sobre o Salviaspace.

Spoiler: Spinoza estava certo — Conatus é mesmo a chave.

[2005-12-07] - SALVIA CAÓTICA

Olá pessoal, sou novo no grupo.

Desde 1998 estudo enteógenos, mas não posso dizer que sou um indivíduo muito experiente no assunto.

De qualquer maneira, espero poder aprender e compartilhar aí com todo mundo.

Vou contar uma experiência:

Esses dias acabei com a sálvia que arrumei, uma 20x.

Fizemos experiências com esse material eu, minha namorada e dois colegas.

O que notei é que as experiências foram bem diferentes para cada um.


Minha namorada teve algo mais espiritual: chegou a ver uma mulher a puxando para outra dimensão, mas ela resistiu e acabou ficando naquela vai-não-vai… ficou um pouco assustada. A mulher puxava ela para o lado direito. Falei que parecia ser boa coisa. Depois, ela acabou deixando a sálvia levá-la, e fundiu-se com a parede (em suas visões, já que seu corpo estava numa cadeira, enquanto eu a vigiava).


Na outra experiência que ela fez, a mulher a levou para um cenário cheio de imagens, e falou que cada um podia enxergar uma perspectiva de realidade.

Dessa vez, a onda veio de trás para frente, pendendo para o lado direito. Legal também.

Quando a devolveu para este mundo, os criados de Sálvia, seus funcionários, trataram de redesenhar tudo, segundo o que disse minha namorada. E eles enchiam seu corpo com muitas bugigangas: caranguejos, pedras, estrelas e tudo mais.


Em minha primeira experiência, apenas tive uma euforia e uma felicidade incríveis. Lembro de minha namorada à minha frente, me olhando. Quando terminei de tragar, falei “bateu” e de repente as coisas começaram a desmoronar pelo chão, e eu deitei, depois levantei, e apenas me sentia rejuvenescido, novo, feliz a valer.

Foi muito bom, mas nada comparado ao que já ouvi por aí, de dimensões paralelas e tudo mais…


Na segunda vez, estava num quarto. Quando fechei os olhos, senti a Sálvia vir da direita para a esquerda. Parecia ruim. Vi uma imensa roda preta e vermelha, girando e girando, cheia de detalhes — e cada detalhe era algum tipo de consciência.


Na terceira vez, também no mesmo quarto, fumei um pouco mais e, quando fechei os olhos, senti a presença de Sálvia. Ela estava brava, e seus criados vinham atrás dela.

Ela dizia para pintar logo aquela casa, com uma tinta rosa ou salmão, muito bonito. E os criados iam pintando e pintando. Eles usavam rodos, eram pequenos e atrapalhados. Eram muito engraçados! Eu ficava lá, sob a forma de um mato, balançando para lá e para cá… Os criados de Sálvia reclamavam porque eu estava na frente e eles não conseguiam pintar direito, e então iam passando por cima de mim, reclamando.

Voltei da visão rindo muito, sem conseguir parar, porque aqueles seres eram muito engraçados.

Fechei os olhos novamente e vi um autorama em meu corpo, com coisinhas apostando corrida.

Depois, Sálvia me transportou para uma trilha da floresta. Me falou que gostava daquilo. Vi uma criança andando pela trilha, sumindo na floresta.


Na quarta experiência fui ousado, talvez imprudente. Fumei sozinho, sem sitter. Minha família não estava em casa, e quando fumei, Sálvia novamente estava desesperada com mania de limpeza. Queria que eu arrumasse logo a bagunça, e fiquei lá, como um maníaco, dobrando cobertores e tudo…

Não tive visões porque não fechei os olhos, mas a presença dela foi bem forte. Depois fui ao quintal e tinha uns caras ouvindo samba. Fiquei prestando atenção na letra. Dizia algo profundo…


Na quinta e última experiência, fumei sozinho novamente, em minha cama.

Fumei e deitei com os olhos fechados. Os criados de Sálvia novamente: estavam correndo, com Sálvia sempre desesperada, para lavar umas roupas. Ela passava rápido, vinha da direita para a esquerda novamente — mau presságio.

Foi lavando, lavando, até ficar tudo limpo.

Depois abri os olhos, as visões passaram, fechei novamente.

Um velho índio me falava sobre algumas coisas.

Foi muito bom.


Quanto aos meus amigos, nenhum deles teve visões com entidades. Apenas um deles viu alguns fractais de olhos fechados e sentiu seu corpo se espalhando, como areia de uma ampulheta, segundo suas palavras.

Meu outro amigo ficou feliz, como fiquei em minha primeira experiência.


Enfim… Sálvia é uma planta enigmática, diferente de qualquer outra coisa. Ao mesmo tempo em que você tem a sensação de já conhecer aquilo que sente enquanto está sob os efeitos, tudo é completamente diferente.

Mas ainda não sei ao certo o que pensar sobre ela. Sei que é um erro comparar, mas os cogumelos ainda são mais enriquecedores.

A Sálvia é muito rápida, desesperada. Os cogumelos são mais duradouros, mais estáveis.

E parece que a Sálvia nos faz esquecer muito da experiência…

Ainda estudando essa planta…

7 de dezembro de 2005

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