Além das Experiências
A importância da integração e da escrita
Meu primeiro contato com as substâncias não veio de amizades duvidosas nem de más influências. Veio da leitura de relatos. Existe um tipo de literatura, pouco conhecida, que narra essas experiências — mas que existe, e é vasta. Entre os grandes nomes que escreveram sobre isso estão Albert Hofmann, o descobridor do LSD, com seu livro LSD, Minha Criança Problema; Terence McKenna, evangelista dos enteógenos, que mesclava relatos de viagens com teorias sobre praticamente tudo; e Aldous Huxley, que descreveu suas experiências com mescalina no ensaio As Portas da Percepção. Além deles, havia centenas de psiconautas anônimos espalhando seus relatos em fóruns obscuros pela internet, e os escritores da geração beatnik, como Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs, que, nos anos 1950, experimentavam tudo, preparando o terreno para a explosão cultural dos anos 60.
Ler esses relatos me causava o mesmo entusiasmo que uma criança sente ao se aventurar por histórias em quadrinhos ou contos épicos — com a diferença de que os mundos descritos não eram apenas ficção: eram reais, acessíveis, estavam a uma tragada ou a um copo de distância.
Pelo menos era isso que me parecia no começo. Com o tempo, caminhar entre essas experiências deixou de ser apenas a exploração de mundos desconhecidos e se tornou, acima de tudo, um processo de autoconhecimento — não aquele idealizado, de evolução espiritual contínua, mas um autoconhecimento mais bruto, errante, construído ao tropeçar pelas situações.
Escrever e relatar minhas próprias experiências foi uma forma de sentir que eu não era apenas um leitor, mas também um autor — e isso sempre me deu alegria: produzir aquilo que eu mesmo gostava de consumir. Mais do que isso, a escrita me ajudava a refletir, a dar significado aos fatos e a registrar cada etapa da jornada, atribuindo valor a momentos que, de outra forma, poderiam se perder como uma noite qualquer de bebedeira entre amigos.
Sem um esforço consciente de integração, essas viagens podem se apagar como sonhos não lembrados. Para mim, escrever foi o meio mais sólido de integrar as vivências: ao narrá-las, era como recolher fios dispersos e entrelaçá-los em um tecido compreensível, ainda que imperfeito e impreciso.
Cada relato consolidava a experiência — dava-lhe forma, sentido, permanência. Talvez mais do que um registro, a escrita era uma forma de dialogar com as próprias forças que encontrei: agradecer, compreender, seguir adiante, significar.
Professores, aliados e amigos imaginários
Como um ser humano bastante primitivo, sempre me foi natural simbolizar e personificar as qualidades das substâncias como se fossem tipos de pessoas. Por mais que fale em termos de compostos químicos, meu coração se conecta a essas presenças como se fossem seres — tão reais quanto eu ou você.
Os cogumelos se apresentavam como pequenos tricksters: agitados, coloridos, bondosos, engraçados, infantis. Tornavam o mundo divertido e seus ensinamentos pareciam vir diretamente da energia vital que anima os seres. Maria Sabina, a sábia mazateca, já os chamava de los niños, e é assim mesmo que eles se manifestam.
O cacto wachuma (San Pedro), por sua vez, sempre me apareceu como uma presença felina e forte. Não como um felino feminino, mas como um tigre, um jaguar, um leopardo: ágil, astuto, caçador, vigoroso, ensolarado. Tanto os cogumelos quanto os cactos trazem a energia solar em sua essência — um, florescendo com a chuva e o sol; o outro, firmando-se sob o sol todos os dias.
As três mulheres — Ayahuasca, Salvia e Argyréia — vêm de outros lugares.
A Ayahuasca é definitivamente feminina, aguada. Sua luz é aquela que surge em clareiras sombreadas no meio da floresta. Eu gostaria de gostar mais da Ayahuasca, mas sinceramente nossa afinidade nunca foi muito forte. Talvez seja o elemento água que ela carrega: a jibóia sagrada da floresta, sempre distante e silenciosa, permitindo apenas vislumbres breves de sua glória. E eu não sei nadar.
A Argyréia, por sua vez, tem a força e a sabedoria de uma professora misteriosa, daquelas que sabem o que seus alunos pensam. Como uma velha trepadeira, ela sobe por todos os cantos, conectando-se ao sol — e o sol lhe conta tudo o que acontece. Seu elemento é o vento, e é no ar que ela dança e se sustenta.
Já a Salvia é uma louca desvairada, indiferente aos mundos biológicos. Seu elemento são as pedras, o material inorgânico, as telhas & paredes & cadeiras & copos & plástico & pedaços de coisas jogadas. Matéria. Forma. Atrás desse caos aparente, ela é uma verdadeira princesa, a mais linda de todas: senhora de todas as formas que existem e que ainda podem existir. Ela age nos átomos, não nas células. É cósmica, indiferente, gigante. Não diferencia o orgânico do inorgânico. Constrói todos eles com ajuda de seus assistentes agitados.
O peiote? Ele se escondeu de mim. Tivemos a oportunidade de nos encontrar, mas ele preferiu o silêncio.
Cannabis é uma velha rouca. Meio caduca, meio safada. Uma velha bruxa, confusa e engraçada. Suas palavras flutuam e fazem eco. Ela não mente, mas confunde. Às vezes nos torna sensíveis e atentos às tensões e sutilezas corporais que, sem ela, passariam despercebidas. Já foi uma linda princesa; hoje, a sociedade a condena como meretriz.
Kratom é calmo e gentil. Seu abraço é fraterno. Não ensina nada, mas também não exige nada mais que a continuidade de sua amizade. Ele acolhe, acompanha e se mantém presente — como um amigo íntimo, com quem não precisamos trocar palavras para compreender a companhia.
Enfim, fim
Cada substância, cada presença, deixou sua marca.
Cada relato foi uma tentativa de honrar essas marcas — ainda que imperfeita, ainda que parcial.
E enquanto houver palavras, haverá um fio invisível conectando os mundos visitados com o mundo visível que, dia após dia, continuamos a atravessar.