Este foi um dos relatos mais difíceis de escrever. Não pela estranheza das experiências que a Salvia Divinorum proporciona, mas porque aos poucos percebi que havia uma espécie de coerência subjacente a todo aquele caos aparente e tentei de algum jeito trazer um pouco de ordem e razoabilidade para isso.
Durante anos mantive distância do chamado “Salviaspace”, mas ao retornar, reencontrei uma dimensão que parecia ao mesmo tempo absurdamente bizarra e profundamente familiar. Este texto tenta registrar não apenas o que vi e senti, mas também um entendimento que emergiu dessas visitas: a percepção de que existe, mesmo na matéria dita inanimada, um impulso para preservar sua existência — algo muito próximo do que Spinoza descreveu como Conatus.
Talvez seja uma ideia estranha — como são todas as ideias vindas da Pastora — mas é a ponte mais honesta que encontrei entre essas experiências e uma filosofia mais ampla da vida.
Este é o relato desse retorno. E por mais bizarro que tudo isso possa parecer, mudou completamente minha forma de ver e me relacionar com tudo, sejam os seres, sejam as coisas.
[2023–09–16] - RETORNO AO SALVIASPACE
Faz anos que não visito o Salviaspace. Mas talvez, fora de um pequeno círculo de psiconautas, a grande maioria das pessoas não faz ideia do que quero dizer com “Salviaspace”. Pois vou contar um pouco de história antes de falar sobre meu retorno a esse lugar tão estranho, bizarro e ao mesmo tempo familiar.
Poderia começar falando dos anos 50, e de Albert Hoffman e o LSD, Robert Gordon Wasson e a psilocibina, e esses grandes mitos que reintroduziram o conhecimento das substâncias mágicas ao ocidente. Mas acho que desses caras e desse tempo já se falou demais, e existem muitos livros que abordam este assunto. Acho melhor voltar apenas aos anos 90, quando a Internet se popularizava, e comunidades de conhecimento sobre substâncias psicoativas como o Lycaeum e Erowid se formavam.
Lycaeum e Erowid foram duas comunidades muito importantes que surgiram ali pela metade dos anos 90, e eram espaços onde se catalogava, organizava e produzia informações sobre substâncias psicoativas. Era um tempo diferente, quando não havia esse aspecto mais direcionado ao neo-xamanismo que vemos de uma ou duas décadas para cá, e que — talvez para parecer um pouco mais aceitável a uma sociedade essencialmente preconceituosa com o assunto — relaciona as experiências psicodélicas com espiritualidade e religiosidade. Essas comunidades não tinham pretensão de apresentar as substâncias psicoativas como caminhos para cura, ou para encontrar Deus ou coisas assim. Havia muitos relatos que iam para esse lado, é claro, mas esses relatos coexistiam com outros que simplesmente abordavam o uso recreativo de drogas. Então se falava de experiências místicas com ayahuasca, mas no link ao lado tinha receita de como sintetizar drogas químicas e perigosas, ou relatos de experiências bizarras de saída do corpo injetando ketamina via intra-muscular, ou de dissociação temporária ao cheirar cola ou algum outro solvente (pelo amor de Deus, leitor: não faça isso!)….
É quase como se fosse um espaço a-moral para a troca de ideias sobre substâncias psicoativas, altamente influenciado por gente como Terence McKenna, colocando os cogumelos como possíveis responsáveis pela evolução da consciência e linguagem humanas; ou John Lilly, relatando suas experiências de telepatia com golfinhos através do uso de ketamina em câmeras de privação sensorial.
Aquele espaço underground, científico e espiritual, coexistindo em um mesmo ambiente de troca de ideias, me parecia algo realmente interessante e bonito. Tinha tretas, é claro! Um cientista, um nóia e um religioso têm visões muito distintas da vida! Mas ainda assim tinha uma beleza peculiar, porque a busca pelos estados alterados de consciência unia essas pessoas em um tema central.
No Brasil tinha o Garagem Hermética, o “GH”. Ficava hospedado dentro do Lycaeum. Era o fórum brasileiro que tratava desses assuntos. Lembro dos títulos dos sub-fóruns “Paraísos Sintéticos” — falava sobre substâncias sintéticas (todas, inclusive as piores); “PsiloEspaço” (falava de cogumelos psilocibe); “O Agricultor Espacial” (falava sobre cultivo de plantas mágicas). Todos os participantes da comunidade utilizavam nicknames e colocavam avatares maneiros em seus nomes. O administrador do fórum era o “neuroglider”, os relatos mais incríveis e divertidos vinham de um sujeito com nickname “sydbarrett”, e tinha toda sorte de gente interessante falando de suas coisas por ali. E tudo isso acontecia às margens do conhecimento público. Fora as poucas pessoas envolvidas em tais comunidades, ninguém sabia muito bem da existência desse grupo efervescente de psiconautas do Brasil, conectados com o mundo através dessas redes do Lycaeum e Erowid.
E foram nesses anos 90 que um sujeito chamado Daniel Sieber, um botânico e pesquisador, resgatou e trouxe à tona importantes informações sobre uma planta mexicana chamada Salvia Divinorum. Uma planta que era utilizada por povos mazatecas, que também utilizavam os cogumelos psilocibe e as sementes das trepadeiras mágicas, mas que no curso do tempo, havia sido meio que esquecida pelos cientistas. Já se tinha ouvido falar de Salvia (La Pastora) desde os estudos dos anos 50 na Sierra Mazateca, mas por algum motivo a planta ficou meio que esquecida até esses anos 90.
Se a psilocibina dos cogumelos era quimicamente muito parecida com o LSD, e compartilhava a mesma família química do LSA das sementes, e do DMT da ayahuasca, isso é, se havia esse grupo de substâncias chamadas “triptaminas” que foram amplamente estudadas desde os anos 50, a salvinorina da Salvia era uma substância completamente diferente, que era processada por um conjunto de receptores neuroquimicos completamente distinto, e que produzia experiências absolutamente estranhas, para dizer o mínimo.
Acontece que existem basicamente quatro maneiras de utilizar uma droga:
1) Ingerindo — se o princípio ativo da substância não se degrada no processo digestivo, a droga pode ser ingerida, e provavelmente vai demorar mais tempo para fazer efeito, mas os efeitos serão mais duradouros;
2) Colocando a substância sobre mucosas do corpo — por exemplo mascando e absorvendo pela mucosa da boca, do nariz, ou dos genitais (como faziam as bruxas na idade média), ou mesmo no ânus (há alguns poucos anos atrás tinha uma moda entre adolescentes de tomar vodka pela bunda…);
3) Injetando — nesse caso a substância é colocada diretamente no sistema sanguíneo e seu efeito tende a ser instantâneo. É um método extremamente perigoso, já que envolve agulhas, e consequentemente contaminações, entre outras coisas;
4) Fumando — a substância vai direto para os pulmões, onde se mistura com o oxigênio e sobe rapidamente para o cérebro — o efeito tende a ser quase tão rápido quanto o uso injetável de uma droga.
Pois o uso tradicional de Salvia era mascando as folhas, pouco a pouco, o que é mais lento, mais controlável, mais estável e duradouro. Mas Daniel Siebert descobriu que a planta também teria efeitos através de seu uso fumado, quando preparada de maneira a concentrar seu princípio ativo em pequenas quantidades de folhas, isso é, fazendo um extrato. E então ali nos mesmos anos 90 surgiram esses extratos de Salvia Divinorum. Extrato 5x, 10x, 20x…
E acontece que o uso fumado da planta produz um efeito completamente bizarro, mas — de alguma maneira — consistente entre os usuários. É comum relatarem estar diante de uma cortina colorida que se move em padrões bizarros, ou de indivíduos que se fundem com objetos inanimados, ou relatos da presença de uma poderosa figura feminina, normalmente chamada carinhosa e respeitosamente de “Sally” pelos psiconautas.
E é aí que entra o Salviaspace. Esse lugar para onde se vai ao dar uma ou duas tragadas em um extrato de Salvia, que é um lugar familiar, mas ao mesmo tempo bizarro. É realmente difícil descrever o que é o Salviaspace. Existe algo de nostálgico nas visões, que são muito difíceis de explicar, por tratarem talvez de percepções e relações da mente anteriores à consciência. E existe essa figura feminina poderosa… às vezes penso que o Salviaspace tem alguma relação com a consciência primitiva, da primeira infância, o que inclusive explicaria essa figura feminina tão presente nos relatos (que poderia muito bem estar associado às mães dos psiconautas).
Bem, tudo isso para explicar o que quis dizer com o primeiro parágrafo, quando falei do retorno ao Salviaspace.
Há cerca de 10 anos atrás fiz uma série de experiências com Salvia nas quais, entre outras coisas, descobri a verdade sobre a matéria e da consciência que habita os muros e telhados (sim, isso mesmo, a consciência dos objetos inanimados!). Em linhas gerais minha experiência empírica me fez acreditar que as coisas, sejam elas “vivas” ou não, possuem um tipo de consciência, ou desejo, ou propósito: elas querem apenas continuar existindo. Existe uma coesão atômica para que as coisas continuem sendo o que elas são, servindo ao propósito a que vieram ao mundo, isso é: existe um tipo de “desejo” na matéria por se manter coesa em nível atômico, que faz com que o muro queira continuar sendo muro; o telhado queira continuar sendo telhado. Mas tudo bem se deixar de ser, porque outra coisa se tornará: uma outra coisa que desejará continuar sendo o que é, ou o que então se tornou ao deixar de ser.
Então tive essa conclusão a cerca da natureza das coisas, ainda que pessoal, subjetiva e sem pretensão de explicar a realidade de maneira objetiva — quero dizer, não pretendo convencer o querido leitor de nada, não tenho e nem pretendo “provar” qualquer coisa, porque não sou cientista e nem professor. Mas essa maneira de enxergar as coisas me afetou profundamente. Nunca mais vi uma mesa ou uma cadeira como antes. Vi que em essência tudo estava de alguma maneira “vivo”. Mesmo porque, em tais experiências os componentes essenciais da matéria não eram átomos “mortos”, mas algo como pequenos seres agitados, um pouco caóticos, subordinados a uma deusa, uma grande princesa & rainha linda e louca de cabelos esvoaçantes que os mandava para lá e para cá para construir tudo. Essa era a Pastora ou Sally. Não se trata da grande Mãe protetora e nutridora, como das visões de ayauhasca, mas a grande Maya, criadora do véu de ilusões que nos fazem ver o mundo como algo realmente sólido. Ela decidia a forma pela qual o mundo se manifesta, controlando sua infinidade de “trabalhadores”, que se juntam e fazem os muros serem muros e os telhados serem telhados.
Esses últimos dois parágrafos foram realmente difíceis de escrever, e espero ter conseguido expressar claramente as impressões que essas experiências me deixaram, e o aprendizado que obtive com isso. E espero ter conseguido deixar um pouco menos bizarro o que quero dizer quando afirmo que “os muros e telhados possuem consciência”.
E o Salviaspace trata então dessa dimensão, onde as coisas se tornam coisas, o lugar onde a matéria se forma, e isso é muito, mas muito mais interessante e bizarro do que se aprende nas aulas de física na escola.
E neste mês de setembro de 2023, depois de muito e muitos anos sem visitar esse lugar bizarro e familiar que é o Salviaspace, decidi dar mais uns tragos em um extrato supostamente 30x. Eu estava sozinho em casa e achei que seria interessante ver onde isso poderia dar. Diga-se de passagem que não é realmente recomendável estar sozinho nessas experiências. Quando se trata de fazer uso de extratos fumados sozinho é importante ter alguém confiável para acompanhar e servir de “sitter”. A realidade comum realmente se desfaz nessas experiências e podem ocorrer acidentes… mas não sou cientista, não sou professor, e também não tenho nenhuma pretensão de ser ou não ser responsável. De qualquer forma: fica o alerta. Seja como for, nessa experiência fiz o que queria fazer sem sitter e nem nada.
Sentei no sofá, em frente à lareira (que não estava acesa) e dei um trago. Segurei o máximo que pude. Dei um segundo trago, e um sabor familiar já estava em minha boca. É difícil explicar o sentimento de familiaridade que me ocorre nessas experiências. Desde a primeira vez, sempre parece que estou retornando a algo muito conhecido, muito familiar, onde sempre estive na realidade. Talvez porque o Salviaspace seja uma dimensão na qual estamos sempre inseridos, mas que não percebemos normalmente. Talvez seja isso. Seja como for, sei que só deu tempo de colocar o cachimbo em um suporte apropriado antes de me perder. Um dos motivos pelos quais é perigoso fazer experiências solo com Salvia é porque se pode simplesmente deixar o cachimbo cair o pegar fogo em alguma coisa. Então tentei segurar a consciência para pelo menos guardar o cachimbo em um lugar apropriado antes de ser puxado para o Salviaspace. E puxado é uma palavra realmente boa para descrever a sensação. Às vezes se é puxado para um lado, às vezes para outro. Eu fui puxado para o lado esquerdo, e não sei muito bem se isso deveria ter um significado. Mas fui sendo puxado e puxado, e as visões de um barranco de terra vermelha ondulando em formas graciosas surgiu. Era o barranco da casa do meu pai. Era para lá que fui puxado, e fiquei observando aquelas formas. Algo me fez pensar no formato da Nossa Senhora Aparecida. Não nela como algo sagrado ou divino. Apenas aquele formato triangular que ela tem nas estatuetas. Parece que dela vinham essas ondas vermelhas, cor de terra, de barranco. É tão bizarro tentar descrever algo como isso, que provavelmente as palavras aqui parecem soltas, porque é assim mesmo que é a experiência: mistura o passado, a casa do pai, o barranco, a nossa senhora, a terra, tudo meio que dançando, puxando, levando, e a consciência se perde nisso a ponto de não haver ego ou eu, ou clara noção do que ocorre por fora das visões. E ao mesmo tempo com aquele sabor familiar da salvia na boca.
Abri os olhos rapidamente, retornei ao “mundo normal”, mas sabia que se fechasse os olhos ainda teria coisas estranhas para ver.
Fechei e vi uma mulher, que produzia pequenas mulherzinhas negras, como bonecas, que saiam e saiam de um círculo. Seria Sally fazendo aquilo? Quem seriam as mulherzinhas negras saindo daquele círculo? De algum jeito ainda estava mais ou menos perto daquele barranco da casa do meu pai. E de algum jeito, do centro do barranco surgia essa produção infinita de mulherzinhas negras.
No meio dessas visões, sempre havia uma estranha — e um pouco desagradável — sensação de estar sendo observado. Talvez porque tenho muitas janelas de vidro aqui, mas tinha a sensação de que alguém poderia estar me observando. Poderia ser um vizinho? A sensação de que a qualquer momento alguém poderia chegar aqui em casa. Uma espécie de preocupação. Não uma grande preocupação, mas um constante sentimento de alerta.
As experiências com Salvia fumada são rápidas. Dez, quinze minutos. E se toda essa loucura surge nessas visões, quando somos devolvidos ao mundo de cá, voltamos com uma lucidez impecável, com as ideias organizadas, com os sentidos apurados. Há quem diga que Salvia faz algum reset neuroquímico. Já li isso em algum lugar. Dizem que pode ter muito potencial para tratar vícios em álcool e coisas assim. Parece que você volta realinhado em algum nível.
A experiência foi à noite, e depois que os efeitos cessaram completamente, fiquei na cama lendo um livro (Mahabaratha) antes de dormir. O sono depois foi tranquilo.
No dia seguinte decidi fazer outra experiência. Era umas 11h da manhã. Dessa vez fiquei na cama ao invés do sofá. Novamente duas tragadas, o cachimbo colocado cuidadosamente em um lugar seguro, e vraaaaaauuuuu! Lá vamos nós sendo puxados outra vez!
Tinha um monte de passarinho cantando nessa hora. As visões se conectaram com isso. E vi pneus de carro cortados ao meio se esticando e fazendo uma ponte de borracha até esses passarinhos. Uma visão estranhamente verde (da grama onde estavam os passarinhos) e preta (dos pneus). Brilhante de algum jeito. Feliz de algum jeito. Tranquila de algum jeito. Um sentimento de alegria, de êxtase. E então percebi um detalhe interessante: o cachimbo com a Salvia estava em frente a um porta retratos onde tem a foto do meu falecido pai. Essa foto está em frente à casa dele, perto do barranco e ao lado de um fusca. De algum jeito fui levado aos elementos básicos dessa foto. A cor avermelhada, o barranco, os pneus do fusca, a própria nossa senhora (em sua casa tinha esse tipo de coisa). Pois então fui levado mais ou menos àquela foto, de um jeito bizarro…
La Pastora nos leva para essas situações estranhas, bizarras, onde coisas sem importância se tornam realmente significativas. E perceber a relação dessas duas experiências com a fotografia ao qual o cachimbo estava exposto por uns dias foi outra dessas curiosidades que me fascinam nessa planta. Em outra experiência do passado lembro de ter visto a louca Pastora varrendo tudo, puxando tudo, com seus infinitos funcionários, e pintando um grande muro de rosa. Tudo rosa. Depois de uma ou duas semanas minha mãe decidiu pintar sua casa de rosa. Essas coincidências bizarras, que relacionam coisas comuns e ordinárias, com assuntos de família, me deixam cada vez mais curioso sobre a verdadeira natureza dessas experiências.
Ela de algum jeito nos manda para o passado, para a infância, mas ao mesmo tempo não trata de coisas significativas como traumas ou coisas emocionais. Nos levam para aqueles elementos insignificantes, secundários. Um pneu de carro, um barranco, a cor de uma parede. Como pode algo assim?
Pois este é mais um relato em meu diário de bordo de mais uma experiência com essa planta incrível, essa deusa, que maneja os detalhes intricados da matéria, que coloca um véu de graça sobre os bastidores da realidade, e que faz o mundo ser como parece ser.
Voltarei mais vezes ao Salviaspace. Quem sabe o que mais posso encontrar por ali?
[2023–09–16]