Parte II
Fronteiras Perigosas: quando tudo é levado a sério demais
Relatos de 2002
O ano de 2002 foi estranho.
Pulei da infância para a vida adulta com 14 anos, quando comecei a trabalhar. Em 2002 eu já tinha 20 anos, mas, como uma árvore que cresceu em condições desfavoráveis e que vai subindo toda torta enquanto busca o sol, eu acho que eu era também assim meio torto.
Fazia coisas que exigiam responsabilidades no meu trabalho, e acho que fazia bem (fiquei mais de 10 anos na mesma firma em que comecei!). Mas minha adolescência ficou meio comprometida. Se de um lado eu era um rapaz muito ajustado, profissional, responsável, independente financeiramente da família desde criança; do outro eu tinha essa vida secreta de psiconauta, buscando oportunidades de fazer uso de substâncias, não deixando esse deslumbramento infantil ir embora.
Além disso, eu participava de uma comunidade de Internet, um grupo de e-mails. Não existiam redes sociais, nem Orkut, Facebook, nem nada assim. O mais próximo a uma rede social eram esses grupos, onde as pessoas escreviam, liam umas às outras e discutiam sobre tudo. Eu fundei um deles e nele escrevia, organizava o que outros mandavam, e montava uma espécie de revista semanal, uma e-zine. Foi ali que comecei a publicar meus relatos, minhas experiências, e outros textos também. Escrevi muita coisa, em muitos formatos, durante esse tempo.
Mas acho que eu levava tudo muito a sério. As conversas, as coisas dos grupos, e também as experiências com as plantas. E nesse tempo tive acesso a muitas plantas diferentes, e fiz diversas experiências em espaços de tempo muito curtos. Ainda que no começo as coisas tenham transcorrido razoavelmente bem — como nas experiências de Argyreia e Salvia com o Lucas —, vivi mais adiante situações que, olhando hoje com mais maturidade, sinalizavam alguns riscos.
Em algum ponto eu sentia mesmo ter atingido algum tipo de iluminação, e acreditei mesmo em umas coisas bastante duvidosas a respeito de tudo. Os hospícios estão cheios de Jesus Cristo. E a verdade é que, com ideias tortas sobre iluminação, nirvana e essas coisas, às vezes estive mais perto da loucura do que da sabedoria. Na verdade acho que sigo sempre estando mais perto da loucura do que da sabedoria, haha.