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Em 2002 o mundo era outro: sem internet móvel, sem GPS, sem redes sociais. E eu também era outro. Jovem, inquieto e faminto por respostas, decidido a conhecer o Santo Daime — mesmo sem carro, sem conhecidos no meio, e sem ideia clara de onde estava me metendo.

Hoje, relendo este relato antigo, vejo o quanto eu era corajoso e ingênuo com aquela mochila nas costas, perdido no meio do mato à noite, sem meios de me comunicar com ninguém, atrás de uma experiência que prometia revelar mistérios profundos.

Esta é a história da minha primeira vivência com a ayahuasca, através do Santo Daime no Céu de Maria, aos pés do Pico do Jaraguá.

[2002-08-31] - UMA EXPERIÊNCIA COM O SANTO DAIME

Avenida Paulista, 31 de agosto de 2002 - mais ou menos três horas da manhã.

Dois mendigos dormem,
em frente a um edifício de luxo.
Parece até uma forma de protesto.

Agora aqui estou eu sentado em frente a estação do metrô. Deve ser umas três da manhã e parece que São Paulo está sempre acordada. Agora pouco fui numa lanchonete tomar um café e pedi um lanche que estava terrivelmente ruim. Dei uma mordida e joguei o resto no lixo. Foram uns três reais jogados assim para o nada. Quem me conhece sabe que não sou fresco para comida e estou em jejum desde meu último almoço. O lanche é que era ruim mesmo, pode acreditar…

Sabe, é engraçado andar assim sem rumo na Avenida Paulista. É tarde. Madrugada. Não tenho nada a perder. Me sinto um espírito livre. Não tenho dinheiro, estou mal vestido, com sono, fome. Me sinto estranho. Mas me sinto livre.

Tudo ainda é um pouco confuso. Busquei tantas respostas objetivas para meus dilemas. Fui bombardeado com zilhões de peças de um quebra-cabeças. Tento construir esse quebra-cabeças. Tento me reconstruir das migalhas que há pouco me tornei. O que eu estou fazendo aqui a essa hora? Bem… acho que vou ter tempo de relatar minha experiência desde o início, afinal de contas, acabei de saber que a estação do metrô só vai abrir 4h45 e, segundo um cara ali, agora é 2h55 da manhã.

Fumo um cigarro e contribuo com o lixo dessa sociedade em que vivo. Me sinto um verme, mas até os vermes tem sua centelha divina. Até eles são parte da vida. Vamos lá…

Sexta-feira foi um dia como quase todos os dias de agosto foram: confuso. Estava com várias dúvidas quanto a tudo. Amores, projetos, problemas no trabalho, estudo, pessoas… enfim… essas coisas. Eu me sentia imerso num caos. Estava afogado em dilemas e dilemas e dilemas. Acontece que esta sexta-feira tinha algo de diferente: seria o dia que eu ia experimentar o ayahuasca pela primeira vez. Já havia ouvido falar muito sobre a bebida alucinógena e tinha uma curiosidade imensa quanto aos seus efeitos. Li um monte de coisa, perguntei para um monte de gente, criei diversas expectativas… mas eis que então chegou o Grande Dia.

Saí do meu trabalho às 17h e não teria aula hoje. Como já havia passado numa entrevista para participar de uma sessão do daime eu resolvi aproveitar a preciosa sexta-feira livre.

Peguei o trem, desci em Osasco, peguei um ônibus… que droga!! O trânsito estava parado! Comecei a divagar na possibilidade de não chegar a tempo na sessão, pois esta começaria às 20h e já era mais de 18h…

Quando o ônibus chegou no lugar onde eu ia descer já eram sete e pouco. Fiquei ainda mais desesperado, pois não fazia idéia de como chegar ao local (bem escondido, diga-se de passagem) onde são realizadas as sessões. Então, como um louco, saí correndo sem rumo perguntando se as pessoas sabiam como chegar até o Céu de Maria (o nome do local das sessões) e cada pessoa que eu perguntava me parecia indicar um lugar diferente e eu, bobo que sou, seguia os vários conselhos parecendo uma barata tonta.

Vale uma pausa para dizer sobre o local onde eu estava naquele momento: imagine você que estava tudo escuro e haviam várias estradinhas de terra. O que eu sabia é onde devia descer do ônibus, e que o caminho que devia seguir era por uma longa estrada de terra. O que eu não sabia é que ali então haviam várias estradinhas de terra! Me perdi nas trilhas escuras, me assustei com latidos de cães bravos e por fim me dei por vencido. Sim, o Grande Dia não existiria. Eu teria que me contentar com o que os livros e pessoas me dizem… eu não experimentaria o ayahuasca…

Mas então algo em mim me fez ir falar com o segurança de um galpão que ficava lá perto. Comecei a falar e o cara já me respondeu:

Então fui correndo. Pelos meus cálculos eram mais ou menos 19h50…

Fui andando rápido. O peito doía. Fumante correndo é uma porcaria. Estava cansado e comecei a andar mais devagar. Foda-se. Se eu não chegasse a tempo… foda-se… estava cansado demais. Então, para minha salvação vi uma luz de farol… não hesitei em pedir carona e… o carro parou!!

Então, ainda ofegante, entrei no carro.

E fomos conversando. Eles eram de Minas Gerais e estavam passando um tempo em São Paulo. Ricardo e Drica.

O Ricardo foi dirigindo e cantando uma canção sobre um cara que tava sem dinheiro e que foi parar num pasto com sol, vacas e cogumelos…

Dei risada.

Após uns minutos pela estrada de terra nós chegamos ao tão esperado local. Céu de Maria. Lá no pico do Jaraguá.

Chegando lá me senti mal. Tava cheio de gente que era estranha para mim. Me sinto mal em multidões onde sou percebido. Tinha umas muié com cara de bruxa, uns malucos com cara de hippie, capoeirista, uns outros com cara de playboy. Lá estava eu cheio de preconceitos…

O Ricardo me recomendou guardar a mochila num quarto e depois disso ficamos fumando e conversando. Ele tava procurando uma seda para fumar um antes de iniciar o trabalho e então me lembrei que tinha um baseadinho pronto dentro do meu maço de cigarros. Sabe como é… caso desse tudo errado e eu dormisse no meio do mato era melhor já estar preparado…

Entreguei o baseado e a gente subiu lá no alto para fumar. Na verdade para eles fumarem, porque eu não queria. Estava afins de ver como o daime por si só me alteraria.

Ficamos lá em cima os três e mais um outro maluco que falava sobre capoeira. Era legal ficar lá em cima olhando as estrelas, as nuvens e o pico do Jaraguá piscando eternamente. O Ricardo falava umas coisas bacanas. Tinha uma natureza muito boa e calma.

Então fomos para frente da igreja. A Drica foi acender uma vela e aí comecei a ver alguns pontos negativos que determinaram boa parte da minha experiência: as imposições liturgicas. Umas mulheres repreenderam a Drica por ela ter acendido aquela vela para seu “anjo da guarda”, como ela disse, pois diziam que era necessário antes de acender aquele altar acender umas outras velas nuns outros altares. Ela ficou puta da vida e o Ricardo falava:

Então entrei na igreja. O teto era todo colorido com bandeirinhas (tipo de festa junina) azuis, brancas e acho que algumas verdes também. No centro havia um pilar e um altar cheio de imagens de santos, fotos do fundador da doutrina do daime e também algumas velas. O altar tinha a forma de uma estrela de seis pontas. Num canto havia duas portículas onde era servido o daime e também notei uns quadros com uma cruz de dois braços pendurada no teto.

Os visitantes/novatos deveriam sentar-se em círculo numas cadeiras para receberem as instruções. Ali naquela roda eu percebi que eu estava muito cheio de coisas ruins. Ficava julgando as pessoas com olhares. O clima tenso entre os novatos também me envolvia. Ninguém sabia ao certo o que haveria de acontecer naquela noite. Havia todo tipo de gente: do meu lado direito uma véia com cara de intelectual, do lado esquerdo uma véia doente e na minha frente uma menina de pernas abertas. Pensei eu:

Deste grupo, além da menina, notei algumas outras pessoas que mesmo sem querer fizeram parte da minha experiência: havia um cara de um jeito muito tímido mas que parecia ser uma boa pessoa. Um gordão metaleiro com cara de mau que olhava tudo aquilo como uma palhaçada. Um garoto de cabelos compridos que parecia curioso até a morte. Toda essa diversidade de gente me chamava atenção.

Depois das instruções, foi desfeita a roda de novatos e as cadeiras foram colocadas em seus devidos locais. Um cara foi para o centro e falou algumas coisas. Aqui outro problema para mim: notei que havia uma nítida hierarquia entre os “fardados” (membros) e os novatos. O que me parecia “errado”, pois na minha concepção, os fardados não deveriam “mandar” nos novatos, mas sim apoiá-los em suas dificuldades. Mas então eu não sabia se podia me sentar ou se deveria ficar em pé. Talvez sentar-se era privilégio dos fardados, pois todos os novatos estavam em pé. Mas como estava cansado e não sabia exatamente o certo e errado fui me sentar. E ainda movido pela ansiedade me sentei pertinho da portícula que serviriam o daime.

Rezaram três pai nosso e três aves maria intercalados e depois disso formou-se uma fila para as pessoas irem beber o chá.

Novamente a hierarquia dominou. Os fardados iam entrando na frente dos novatos, como se eles nem existissem ou fossem irrelevantes… chato, mas foi indo assim até que chegou minha vez. Fui até a portícula e o cara que servia me olhou bem nos olhos. Ele era meio velho e seus olhos azuis e fixos parece que me diziam:

Encheu um copo da bebida marrom que estava numa espécie de filtro. Tomei de um gole só. Era ruim, mas para quem já tomou tintura de kava kava e sementes de argyreia, não era totalmente intragável…

Certo. Tomei. E aí?

Me sentei enquanto os outros da fila iam tomando a bebida. Fiquei meio que meditando. Via algumas luzinhas. Estaria eu sentindo os efeitos mágicos da bebida? Pura ilusão… estava absolutamente sóbrio. Aqui, antes de sentir os efeitos da bebida, percebi que estava entrando em conflito com meu ego. Meus julgamentos, meus pensamentos sobre mim mesmo, uma astúcia maldita que eu tinha dentro de mim, minha não aceitação de regras. “Não aceitar as coisas é falta de humildade. Mas se eu aceitar as coisas estaria me submetendo ao erro. Mas quem sou eu para avaliar algo como errado ou não?” enfim… comecei a ver mais nitidamente problemas meus… não era nenhum efeito do chá. Não havia passado nem 15 minutos que eu havia tomado. Estava absolutamente sóbrio, mas esses pensamentos rondavam minha cabeça e provavelmente foram eles os responsáveis pelos rumos da minha experiência.

O que eu esperava do chá? Ah… eu esperava ter mirações, ver cores como as imagens que via sob os efeitos dos cogumelos. A sensação de união com o todo. Respostas para os meus dilemas… esperava várias coisas boas, mas até então nada sentia.

Já devia ter passado uns 20 minutos ou uma meia hora desde a hora em que bebi o chá. Um cara foi ao centro e falou:

Ai que bosta! Eu tinha ficado em jejum um tempão, o negócio não batia e agora ia ter que dançar!!

Então começou. Os músicos tocavam algo e o pessoal começava a “bailar”.

Na floresta eu encontro forças para trabalhar
Na floresta eu encontro forças para trabalhar

A dança consistia em dois passos pra lá e dois passos pra cá. Um negócio meio indígena, meio brega. Tudo ficava organizado em um grande círculo que chamavam de corrente. Homens de um lado e mulheres de outro. Os fiscais ficavam olhando se tudo estava em ordem.

Agora percebo que a dança tinha um significado muito especial. Aliás, vários significados especiais. A idéia de união com o próximo, a mentalização/corporização da música, a ordem necessária para bailar apenas dentro de seu espaço (um retângulo desenhado no chão). Tudo passava uma idéia de união e ordem entre as pessoas. O problema era eu: estava cansado, não sabia manter o “tempo” da música, era totalmente travado no que diz respeito a expressão corporal e o pior de tudo: o máximo que sentia dos efeitos do daime era uma “bobonificação”, isso é, só me sentia dopado e concordando com tudo por uma incrível incapacidade de raciocinar. Um cara do meu lado parecia já estar bem alterado e me atrapalhava me empurrando. Me parecia que todos os novatos estavam tendo essa sensação de estarem perdidos e “bobonificados”.

Resolvi sair daquilo, pois naquele momento me parecia uma grande palhaçada. Fui ao banheiro, lavei o rosto e fiquei fumando um cigarro. Enquanto eu fumava sozinho as coisas começavam a fazer sentido. Percebia algumas pequenas alucinações. As sombras se moviam e a luz, a iluminação das coisas, tinha um aspecto diferente. Mas eram alucinações mínimas. Nada muito fantástico. Pensei que pudessem ser apenas coisas de mim mesmo e não os efeitos da bebida. O que não notei naquele embarque de viagem eu percebo agora: acontece que o daime, diferente dos cogumelos, começava a me transformar internamente, no sutil, e não no aspecto mais visual e óbvio. Enquanto os cogumelos sempre me levaram de forma clara e transparente para um novo mundo, o daime ia me transformando de maneira sutil. Eu pensava estar sóbrio, mas no entanto já era o daime agindo desde o começo onde eu entrava em conflito com meu ego.

Terminando meu cigarro eu me sentia melhor. Não era nada de espetacular, mas pelo menos não ficava naquela paranóia que eu estava enquanto estava dentro da igreja a bailar.

Mas eis que para cortar meu barato me aparece um fardado dizendo que não é bom ficar lá fora e nem fumar durante a sessão. Mas ora essa, não é a doutrina da floresta? Não é o auto-conhecimento que tanto se prega? Como posso utilizar o poder da planta se sob seus efeitos eu preciso seguir rituais nos quais não me encaixo e me desconectam dos ensinamentos que a planta quer me oferecer? Então subi até a igreja meio ressentido, mas não entrei. Fiquei lá fora apreciando uma plantinha. Ora, não havia nem como comparar a percepção da plantinha sob o efeito do daime com a percepção sob efeito dos cogumelos ou mesmo das sementes havaianas. A plantinha me parecia tão ordinária ali. Acho que mesmo careta eu podia ver mais magia na planta. Estava decepcionado e então, pelo respeito, voltei à igreja. Fui novamente tentar bailar. Era difícil. Os pensamentos não estavam na dança. Podia perceber que existiam outras pessoas viajando na dança. Algumas pareciam estar em transe. Será que o problema era eu? Será que por algum motivo o daime não surtia seus efeitos fantásticos em mim? Não sei, mas então o cara falou que teria a segunda dose do chá. Uma fila menor que a primeira e lá estava eu novamente na portícula. Tomei num gole só de novo. Agora aquilo tinha que se manifestar!

Fiquei um tempo no canto da igreja olhando as pessoas bailarem e do meu lado via um cara num transe muito profundo. O que aquele cara devia estar vendo com seus olhos fechados? Cores? Porque eu não as via?

Insatisfeito eu fui escondido (!?) dos fiscais e tomei uma terceira dose. Que se foda. E então o estômago ficou bravo. Uma pequena ânsia começava a se manifestar e eu já sentia uma alteração mais intensa. Nada de cores ou visões, mas a “bobonificação” estava crescendo e cada vez mais forte.

Os fiscais eram chatos. Ficavam falando para ir lá bailar, mas não tinham o amor e tato necessário. Quando alguém estava lá bailando, às vezes do nada, o fiscal ia e falava para o cara trocar de lugar com fulano. Não entendia o porquê daquilo.

Às vezes um cara lá no centro gritava:

E as pessoas respondiam em alta voz:

E falava uma pá de nome de santo.

Então fui novamente para fora. A alteração ia crescendo em mim. Sentei num certo lugar e veio um fiscal dizendo:

Aí sentei num outro canto e ele disse:

Fui para outro canto e ele não falou nada. Deitei na grama e fiquei olhando o céu. Poucas estrelas, muitas nuvens. Elas bailavam para mim. Formavam coisas inusitadas. Formou nitidamente a imagem de um husky siberiano adulto. Eu me divertia com aquilo! Era tudo tão fantástico no céu!! Mas quando eu olhava as pessoas e toda aquela bitolação tudo perdia a magia. O problema eram as imposições e regras. Nada pior do que sentir-se preso num estado de consciência onde a mente quer estar livre para divagar.

Um fardado me disse para entrar. Mas ok, agora eu já sentia que estava bem alterado. Agora seria interessante ver as coisas acontecerem lá dentro no bailado psicodélico.

Tentei bailar.

Impossível.

Fiquei lá parado com os olhos fechados vendo um ambiente magnífico de cores me engolir. Não eram simplesmente cores, mas cores em movimento. Nunca paravam, sempre estavam para se envolverem umas nas outras ou então envolverem a mim. Notava meus dedos inchados. Vasoconstrição. Já experimentei a sensação sob efeito de outras coisas. Nada ruim ou desagradável. Aquele foi o momento em que a força do ayahuasca estava chegando em seu ápice. As cores das visões de olhos fechados ficavam cada vez mais nítidas. Fui novamente ao canto da igreja e lá fiquei de olhos fechados. Figuras e formas sensuais e coloridas me impressionavam. Então depois veio uma visão fantástica de pedras preciosas. Eram verdes. Eram esmeraldas. Elas brincavam em minhas visões. Me pareciam um trabalho de algum povo pré-colombiano. Detalhado, brilhante, espalhafatoso. Me parecia uma forma feminina, mas não era uma forma humana. Era uma espécie de armadura lindamente verde e brilhante. Era cheia de luz. Suas pedras preciosas não eram estáticas, mas dotadas de contínuo movimento. Mudavam o tempo todo e as visões não eram do todo dessa imagem, mas sim uma espécie de câmera/filmadora que ia seguindo e me mostrando por partes como num filme. Ia descendo. Na barriga ou nos pés. Nunca capturando a figura completo, mas sim os frames, como se estivesse vendo por uma janela um ser gigante e sobrenatural.

Abri os olhos e via muita luz em tudo. Agora sentia a máxima intensidade do daime. Queria ficar com os olhos abertos, mas as visões queriam se manifestar e forçadamente me faziam fechar os olhos. Estava frio e eu tremia muito. Tive outra visão de algo roxo. Era desagradável, mas lindamente detalhado. A força da planta era incontrolável. Não era possível dominá-la. Perto de um filtro de água tinha um plástico. Fui pegar água e esse plástico me proporcionava diversos visuais. Fechei novamente os olhos e vi um caminho vermelho e brilhante. Vez ou outra algumas entidades invadiam essa visão e me faziam me perder nesse caminho. Perguntava quem eram aquelas formas que me apareciam e eu me respondia. Eram meus próprio demônios que me impediam de ver o caminho. As luzes das visões eram estranhas. Nunca dava para ver seu ponto de origem, mesmo quando eu me esforçava. As luzes eram reais. Às vezes sombras entravam no meio do campo visual das visões internas e me davam a impressão de que alguém estava na minha frente ou ao meu lado. As sombras atrapalhavam as visões. Eu abria os olhos e não havia ninguém na frente da minha luz. Percebi que o mundo de olhos abertos tinhas suas leis e o de olhos fechados outras leis. Eram duas dimensões paralelas. Místicos diriam que as sombras eram entidades me atrapalhando a ver a luz, mas eu não sei o que era aquilo. Abri meus olhos novamente para tentar assimilar, mas tudo era forte demais para mim.

Depois senti meu ego se fragmentar. Fechei os olhos e tive uma miração que significou muito para mim. Várias figuras geométricas iam se despedaçando. A noção de profundidade da visão era muito forte e as figuras iam se afastando umas das outras em todas direções. Aquilo que eu via era o que sentia. Sem direção. Confuso. Sem controle. Se desfazendo, perdendo a individualidade. Meu ego se desfazia, mas não era a união que eu alcançava, mas a solidão. Sentia frio. Sentia falta de alguém ali do meu lado. Pobre de mim ali. Até há pouco tempo tão seguro de si! Agora ali se despedaçando. Toda aquela segurança de si não passava de orgulho e vaidade. O daime esmiuçava o orgulho, a vaidade. Me mostrava ali se diluindo no nada. No vazio. Não aguentei aquilo tudo e abri os olhos.

Então achei uma cadeira para me sentar. Um rapaz ao meu lado parecia estar numa viagem bem intensa. Vale notar que durante toda a experiência eu fiquei observando os caras que haviam me chamado atenção no começo de tudo. Era possível entender o que cada um sentia sem ninguém dizer nada. No começo era julgamento, depois passou a ser reverência, então compaixão. Existia uma roda de sentimentos pelas pessoas. Ia girando, mudando… um caleidoscópio de sentimentos. Na verdade o que via nas pessoas era eu mesmo. O exterior era o interior. Tudo o que via era reflexo de mim mesmo. Por isso via o mundo tão obscuro. Era como eu estava internamente. As pessoas eram eu. Tudo era eu. E tudo parecia tão entediante, tudo tão ruim, cheio de regras, preso. Era eu que estava assim. O mundo estava girando como sempre.

Tive várias outras visões, mas não me lembro de todas elas… a última visão que me lembro foi a “limão”. Era um ambiente tropical de um outro mundo. Um mundo que era feito apenas de energia e não matéria. Várias abstrações. Coqueiros, triângulos verde claro (limão) com bolinhas. Eu descia num escorregador verde psicodélico. Me fazia pensar em cura. O limão e sua acidez me faziam pensar em cura. Queimava a doença da alma. Então senti cheiro de merda e abri os olhos.

Não sabia se aquele cheiro era alucinação ou real. Pensei: ou eu pisei na merda enquanto estava lá fora, ou alguém se borrou aqui dentro. Espero que não tenha sido eu. Ou será que eu estou tendo uma alucinação de olfato - coisa inédita para mim? O mundo exterior se confundia com o mundo interior. Os fiscais falavam coisas e eu acho que entedia outras coisas. Muitas luzes. Alucinações auditivas também se manifestavam. Ao bocejar ouvia barulho de pessoas vomitando. Não sabia se era um som exterior ou interior. O fato é que meu estômago se rebelou e me obrigou ir lá para fora para tomar ar fresco.

Fora da igreja estava um caos. Ou todo mundo estava louco, vomitando pra todo lado, ou era eu que via minha loucura em todo mundo. O estômago estava embrulhado. Fui segurando para não vomitar. Um cara estava sentado do meu lado e parecia me observar. Era um dos novatos…

Vi um cara lá na frente vomitar. Olhei para meu observador e então foi minha vez de fazer a limpeza. Quase ajoelhado eu procurava vomitar, mas como estava em jejum, nada saia. Eu ficava naquela ânsia e algo de muito ruim parecia estar se esforçando para sair de mim. Se eu fechava os olhos via uma espécie de serpente podre querendo sair. Me esgoelei até dar umas cuspidas… me senti mais leve. Me levantei e fiquei respirando em pé. Veio novamente a ânsia e dessa vez finalmente vomitei numa moita. Sentia-me finalmente limpo! Era um alívio! Um cara me deu um papel higiênico para limpar a boca. Meus olhos lacrimejaram. Não sei se eu chorava ou se era apenas porque eu tinha me esgoelado para vomitar. Era estranho. Eu não sabia se estava chorando ou não. O cara cabeludo estava sentado no gramado e me olhava. Eu sentia que tinha vomitado algo que de certa forma eu gostava e no entanto me prejudicava. Enquanto eu estava ali vomitando eu me sentia um nada. Meu ego havia se fragmentado e ali eu estava vomitando suas migalhas. Foi através da humilhação que esse algo se foi… era vaidade? Não sei o que era.

O cabeludo me olhava. Nós não trocamos nenhuma palavra, mas estávamos unidos naquele momento. Ele me “dizia”:

Ele parecia me entender e eu parecia o entender. Me sentei no gramado e o cabeludo e eu vimos um vaga lume e o seguimos com os olhos sem trocar uma palavra. Nós nunca nos falamos (mesmo depois da sessão), no entanto naquele momento ele era meu melhor amigo e eu era seu melhor amigo. O ato de vomitar foi essencial para uma limpeza e libertação. Meus preconceitos, meus julgamentos, meu orgulho. Nada mais havia. Eu era o cara vomitando. Apenas um menino confuso.

Vi o Ricardo voltando para igreja e por livre e espontânea vontade voltei lá para dentro. Notava uma enorme aura em minhas mãos e em outras pessoas. Era multicolorida, mas não como essas que se imagina das imagens que vemos por aí. Eram como fios finos. Chicotes no ar. Era visível e invisível ao mesmo tempo, mas isso não significa que ela era transparente… difícil explicá-la.

Fui bailar. Estava mais fácil agora. Me sentia apenas cansado, mas podia me concentrar naquilo. Então depois de mais umas cinco canções acabou tudo. Terminou o trabalho. Todos se cumprimentavam e era algo sincero. O cara do meu lado tocou na minha mão, mas de uma forma sincera mesmo. Ele parecia ter enfrentado momentos difíceis, assim como eu. Surgia uma empatia e compreensão mútua entre nós.

Fui lá fora. Então a lua sorria para mim. Enorme. Avermelhada. Perto do pico do Jaraguá que piscava o tempo todo.

O Ricardo apareceu com a Drica. Ele estava muito feliz, mas ainda bem alterado. A Drica estava ainda mais louca. Tivemos uma conversa todos alterados. A Drica foi para o carro pois dizia estar cansada. Eu e o Ricardo ficamos conversando. Ele procurava um amigo para o qual daria alguma coisa. Enquanto nós procurávamos esse seu amigo ele me dizia com seu sotaque mineiro:

Ele falava de um jeito calmo. Mesmo antes da sessão eu percebi que ele era uma pessoa muito boa. Por algum motivo eu associava a sua figura com a figura do Tom Hanks. Ele tinha um jeito calmo e ao mesmo tempo meio “perdido” a lá Forest Gump.

Ele dizia que já frequentava o daime há cinco anos. Parecia ser uma pessoa esclarecida, lúcida e tranquila.

O fato é que não achamos seu amigo em meio a multidão que ainda falava sobre as experiências daquela noite. Ele deixou o que tinha que entregar no limpador de vidro do carro de seu amigo e nós fomos, ainda alterados, para o seu carro. A Drica estava viajando e dando risada sozinha. Eu e o Ricardo estávamos bem alterados e ele colocou Raul Seixas (o primeiro álbum) e a gente foi ouvindo. Ele não sabia até onde me dar carona, pois minha cidade era muito fora de mão. Eu disse que em qualquer metrô que ele me deixasse estaria ok.

Fomos seguindo e eu notei que estava num outro estágio da trip. Via luzes. O carro estava cheio delas. Pareciam chicotes coloridos no ar. Saia de pessoas e faróis de carros. Era uma espécie de aura em tudo. Era bonito, mas com o sono que eu estava aquilo apenas me confundia. Eu precisava assimilar ainda tudo que havia acontecido (motivo pelo qual escrevo esse texto neste momento).

Então fomos seguindo e ele me deixou aqui na Avenida Paulista. Mais ou menos duas e meia da manhã. Ao pisar na calçada ainda alterado descobri que todos meus dilemas eram resolvidos com uma única idéia que eu havia esquecido: eu sou livre! Sim! Eu era aquele moleque sem lenço, documento ou dinheiro andando na Avenida Paulista sob efeito do Ayahuasca. Eu era livre! Então vaguei até agora pouco aqui pela Paulista. Fui ao café, como disse no começo desse relato. As pessoas me olhavam de um jeito estranho. Eu ainda estava muito alterado e tentando entender o que havia acontecido nessa noite.

Entre várias coisas, descobri o valor da humildade. Talvez seja um embrião da liberdade, em certo sentido. Estou aqui na Avenida Paulista com uma calça de moleton, camisa xadrez. Minha mochila, sem dinheiro (dois reais e umas moedas para pegar o metrô). Estou com cara de louco, mas nada devo a ninguém. Nada tenho que possam tomar de mim. Podem tirar minha vida - a cidade tem seus perigos -, mas isso só aconteceria se fosse permitido. Por entre todos esses carros e prédios de luxo. Por entre todas essas pessoas bem vestidas pulando de balada em balada eu me sinto livre. Não é a sensação de euforia e contentamento. É a paz. A liberdade de existir. Nada tenho senão minha vida. Me arrependo de coisas que me fizeram esquecer que a única coisa que tenho é essa minha vida. Me arrependo de ter me aprisionado em algumas coisas pela vaidade. Me aprisionei em minhas próprias idéias. Fui prisioneiro da razão. Agosto foi um mês ruim, mas agora tudo resplandece calma e serenamente. O daime não proporcionou uma experiência exatamente agradável, mas uma experiência que foi dolorida como uma cirurgia. Me elucidou de uma forma estranha. Talvez a ilusão volte, pois meu ego é astuto e me trai. Vou saber disso quando eu estiver triste. É quando quero algo que esse algo foge de mim. Quando não quero tudo vem. Sou um espírito livre do mundo e que tenta se libertar de si mesmo. Sou eu aqui na Avenida Paulista. Na madrugada. Sozinho e escrevendo num caderno e olhando os carros passarem. Não existe tempo. Meu espírito se aquieta. Os efeitos já cessaram definitivamente e agora resta-me a paz. Por um dia? Dois dias? Eternamente? Sei lá…

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