A cannabis é uma planta paradoxal: ao mesmo tempo subestimada e superestimada. Uns minimizam seus riscos enquanto exaltam seus benefícios; outros fazem o oposto. Não tenho uma opinião definitiva sobre ela. Só sei que, na minha experiência pessoal, foi a planta que mais me levou às fronteiras do surto psicótico.
Foram várias as vezes em que me vi paranoico, enxergando sentidos ocultos em coisas banais, traçando teorias grandiosas que, depois do efeito passar, se revelavam apenas fumaça.
Em uma dessas ocasiões, enquanto uma voz interna — que parecia ser da própria planta — sussurrava “Eu confundo, mas não minto”, fui levado para uma jornada que desafiou minha percepção de realidade.
O relato a seguir descreve uma dessas viagens. Uma travessia onde o véu entre a consciência, a loucura e o sagrado se tornou perigosamente tênue.
[2002-09-25] - SURTO PSICÓTICO OU EXPERIÊNCIA RELIGIOSA?
Qua Set 25, 2002
Então, após dar dois pegas num cachimbo com maconha fui me deitar na cama do meu irmão, pois ele iria dormir na casa da namorada.
Deitei, fechei os olhos e fiquei lá sem pensar em nada, quase que meditando. Então várias imagens/cenas oníricas me apareceram. Via aquele cara que matou o Super Homem, via uma moça chorando. Os personagens tinham vida própria nas imagens. Vi mundos e lugares. Quando a confusão era muito grande eu tendenciava a visão para formas abstratas e então formavam-se algumas mandalas na minha frente. Via ainda umas jóias brilhantes. Uma azul e talvez uma verde. Vi uma deusa azul e cheia de braços com cara de louca. Não era uma imagem estranha, deve ser algo da mitologia hindu ou budista.
Nesse estado de consciência era possível separar cada percepção de mundo. Sabia o que eu sentia do mundo físico, do mundo espiritual e do mundo imaginário. As coisas organizavam-se em camadas.
Comecei a notar um zumbido no ouvido e percebi que eu podia controlar esse zumbido. Pensei serem as ondas cerebrais. Eu as alterava. Conseguia fazer o lado esquerdo ou o direito funcionar. Tinha controle total sobre mim mesmo. Meus olhos começaram a abri-se lentamente e algumas luzes podiam ser notadas, apesar de eu estar vivenciando alucinações. Via muitos raios de luzes.
Sentia-me livre. Comecei a tentar sair do corpo. Vi numa dimensão 3D eu saindo do corpo, mas não saí efetivamente. Ouvia o som do meu coração como tambores. Ouvia um emaranhado de vozes. Pensei estar ficando louco e vi que as imagens vinham junto com a respiração. Toda inspiração produzia um flash onírico. A expiração trazia um ambiente de terror. Céu e inferno vinham ter comigo. Pensei mesmo ter pirado de vez. Alguns arrepios e convulsões se manifestavam. Estava incomunicável. O som do zumbido e das ondas ainda eram muito perceptíveis. Podia entender cada realidade. Havia o mundo real, onde ouvia minha mãe conversando com meu padrasto no quarto ao lado; havia o mundo biológico, onde sentia as ondas e cada reflexo do pensamento se manifestando no corpo; havia a realidade do pensamento, onde eu me afogava em fantasias e visões; e havia uma outra realidade espiritual onde eu ouvia canções e vozes, onde tudo era claro e simples. Ouvia um hino do Santo Daime que falava sobre Maria e sobre o céu. Eu via seres de outros mundos dançarem para mim. Era bonito. Formavam desenhos, pois era uma multidão de seres que dançavam. Meu espírito dançava, meus olhos viravam pra lá e pra cá. Tinha controle de tudo, mas me afundava nas fantasias. No início pensei que aquilo seriam importantes alertas do inconsciente, mas então notei que eram meras fantasias, as quais eu não devia tentar interpretar ou buscar sentido, mas apenas vivenciar, experimentar. Pude entender a diferença entre a loucura e a sabedoria, pois até então não conseguia entender direito essa diferença. Loucura é o que eu estava vivenciando naquele momento. Um caos de sons e imagens dos quais eu não tinha qualquer controle. Os arrepios e convulsões me faziam pensar que havia surtado mesmo. Cada vez ficavam mais fortes. Sentia os pensamentos e imagens diretamente no corpo. Me lembrei que os céticos dizem que muitos desses caras que tem experiências religiosas são doentes mentais e isso me deu um conforto, pois eu sei o quanto a psiquiatria convencional é limitada, e de repente eu não estava despertando doença mental nenhuma, mas estava tendo um contato com o mundo do numinoso.
Uma frase que havia lido durante o dia ecoou na minha cabeça. Dizia o seguinte: “os estados de consciencia são estranhos. O inferno e o céu são tão grandes que um está dentro do outro”. Na verdade não era isso que havia lido, mas era como eu havia interpretado. Comecei a pensar na lista de discussão do Mundo dos Sonhos (um grupo virtual onde se discute sonhos com base na teoria junguiana). Pensei também nas pessoas do Mundo dos Sonhos. Abri um sorriso no escuro. Algumas coisas que o Dr. Cesar (um integrante do grupo) havia me dito começaram a fazer sentido na minha cabeça e aí vi uma imagem dele subindo, crescendo e se tornando um mago, todo de branco.
As ondas ainda eram controláveis. Sentia como que envolvido por muitas ondas e os arrepios continuavam, apesar de mais amenos. Percebi que aquilo era como uma Crise de Felicidade. Uma idéia, uma imagem que vem de uma hora pra outra de forma avassaladora. O fogo do dragão marinho que vem em ondas atravessando tudo e me obrigando a sentir um arrepio e perder controle do próprio corpo por instantes. O que sentia era a consciência lutando para se manter presente frente a todo o poder caótico e desordenado do inconsciente. Visualizei uma serpente marinha lá longe navegando em um oceano. Ela era imensa e ondulava na água. Era uma cobra que cuspia fogo apesar de estar na água. Ela vinha em ondas e era a personificação da Crise de Felicidade.
Me levantei para tentar anotar algumas coisas. Percebi que ainda estava extremamente alterado. Muitas vozes na cabeça. Muita música. Peguei um caderno para tentar relatar a experiência, mas era a experiência que me relatava. Não era eu a escrever, mas minha mão se mexia sozinha e rabiscava palavras sem sentido, interligadas pela rima que faziam umas com as outras.
A sensação é que aquele estado de consciência sempre foi presente, mas nunca notado. Tudo aquilo que eu vivia naquele momento esquisito era o que eu sempre vivia no meu dia a dia, mas então agora eu podia perceber o verdadeiro tumulto da minha cabeça.
Eu sentia as ondas cerebrais, as vozes, as músicas. Comecei a pensar se aquilo se tratava de algum flashback de alguma droga que usei. É que já há uns três ou quatro fins de semana consecutivos eu havia feito experiências com cogumelos, sementes e ayahuasca. A idéia de aquilo tudo se tratar apenas de um flashback me acalmou. Afinal eu talvez não estivesse ficando louco nem nada (porque no momento era isso o que eu pensava), mas aquilo talvez fosse apenas um surto passageiro e logo eu voltaria ao normal.
Percebi que não estava em condições de escrever, larguei o caderno de lado e voltei a deitar. Comecei a achar que a locomotiva da experiência era o movimento dos olhos e da percepção auditiva, quando eu oscilava a captação do som, pois quando eu captava apenas o som com o ouvido esquerdo e depois só com o ouvido direito, eu desmembrava as ondas cerebrais e com um pouco de treino eu controlava as ondas e entrava em outras dimensões. O movimento dos olhos eram em arcos, como num arco-íris ou como o chapéu de um cogumelo. Vi cogumelos numa rápida visão. “Se a hipótese de oscilar a captação de som e fazer o movimento hipnótico com os olhos está mesmo certa e é mesmo uma forma de separar as ondas cerebrais, então é possível induzir este estado alterado por vontade própria!” - pensei.
Depois percebi que para colorir as imagens mentais o maxilar deveria estar cirrado, pois então estimulava um olho espiritual para perceber coisas além do mundo físico (devo ter lido algo sobre isso há algum tempo e ficou na minha cabeça). Mas aí ouvi um barulho atrás da cama e pensei ser uma barata. Levantei meio esquisito e acendi a luz. Fui para a cama de cima (é uma beliche). Lá em cima os zumbidos cessavam, mas eu ainda ouvia muitas vozes. Fiquei batendo um papo com um surfista. Ele falava com gírias, mas me respondia tudo que perguntava. Era como um oráculo. Dizia ser um flashback tudo aquilo que eu vivenciava. Achei que era a Alma Fungi conversando comigo, apesar de não ter comido nenhum cogumelo. Talvez fossem resquícios da minha ultima experiência.
O surfista me respondeu vários dilemas. Não era algo vindo de mim. O surfista tinha uma existência separada e idéias próprias. Às vezes ouvia outras vozes, mas a do surfista foi a mais intensa.
Notei que meu quarto estava todo plástico e pensei: “é seu doido… tu queria uma experiência, agora tó uma braba em plena terça-feira, meia noite e pouco”. Algumas pequenas alucinações e vultos passavam por mim. Fiquei olhando um quadro na parede que um amigo pintou e me deu. Depois olhei um pedaço de madeira que pintei todo colorido com lápis aquarelado. Eles se fundiam em um. Uma aura aparecia em volta de ambos. As cores se deformavam um pouco, ficavam fortes. O meu guarda-roupas produzia uma sombra no lado esquerdo do quadro, mas aí olhando de um jeito estranho a sombra sumia e o quadro passava a ser uno, apesar da existência física da sombra.
Olhei minhas mãos plásticas. Via uma pequena aura. Pensei comigo: “será que tô tendo um flashback de cogumelos, de sementes ou será o ayahuasca?” cheguei a conclusão que tinha alguns elementos de cada coisa. Os riscos e cores do ayahuasca (não tão intensos), a Alma Fungi do cogumelo, a sabedoria da semente… Uma fadinha era quem havia me tocado. Me mostrava fantasias lindas ou mesmo aterrorizantes. A fada era a máscara da ayahuasca. E havia uma velha bondosa, que era a personificação da semente. Uma criança personificava o cogumelo. A maconha era uma velha sábia que não era nem boa nem ruim, mas que mostrava e que me conectava às mais diversas realidades. Era a mais dinâmica das ferramentas de exploração da mente.
Peguei novamente o caderno e tentei escrever alguma coisa. Agora fluía um pouco melhor. Fui fumar um cigarro na cozinha. Tive um pouco de medo e depois uma panela se mexeu sozinha. Uma voz me dizia que aquilo era para eu desviar minha atenção da experiência, mas que eu não devia me preocupar com aquilo, pois estava protegido. Então fiquei feliz.
Voltei ao meu quarto e adormeci quando era quase duas horas da manhã.