Entre as tantas experiências que tive em 2002, talvez nenhuma tenha me impressionado tanto quanto uma tarde vivida sob o efeito das sementes havaianas de Argyreia nervosa.
Não foi apenas uma viagem psicodélica comum. Foi um mergulho em estados de consciência que transitavam entre a contemplação iluminada e a sensação de dissolução pessoal, entre a magia de um jardim encantado e a paranoia silenciosa de um mundo de julgamentos.
Neste relato, atravesso a companhia de três Tiagos, ventos que falavam, luzes que pulsavam, e uma sensação de que o universo inteiro conspirava para construir metáforas vivas diante dos meus olhos.
[2002-10-14] - OS TRÊS TIAGOS
Outubro/2002
Talvez de todas experiências (com ou sem psicodélicos) que sobrevivi durante todo esse ano estranho (2002), a que mais me impressionou foi uma agora no dia 5 de outubro com sementes havaianas (argyreia nervosa).
Tudo começou quando eu ia na casa do Tiago dar a ele umas sementes de Argyréia conforme a gente tinha combinado uns dias atrás. Eu fui de trem ouvindo Mutantes e lendo um livro chamado “Mandala”. Ginsberg, Burroughs, Allan Watts, Leary… um compilado de textos e experiências. Achei engraçado que no livro falava sobre um tal de yoga psicodélico e lá descrevia algumas sensações que tive um dia desses antes de dormir. Falava sobre ouvir zumbidos e músicas de outras dimensões, além de ter visões devido a abertura do chacka frontal e coisa e tal. Achei interessante. Um pouco duvidoso pra dizer a verdade…
Sei que aí eu cheguei ao metrô da Vila Madalena e fiquei esperando o Tiago vir me buscar para irmos até sua casa. Lá ficaríamos batendo papo e talvez fumaríamos um baseado. Ele apareceu com sua mãe num carro e fomos para sua casa. No carro falávamos sobre faculdade e essas coisas. Depois falamos sobre sonhos. Se tem um assunto que me interessa são os sonhos e tudo isso do inconsciente, Jung, e coisa e tal. O Tiago falou que tinha sonhado que estava num carro e descia a toda velocidade para uma espécie de piscina ou lago… não lembro bem. A mãe do Tiago falou que havia sonhado com portas e coisa e tal… falou que podia ser um sinal para tomar cuidado com quem entra em casa. Fiquei pensando se era uma indireta para mim ou apenas uma manifestação de minha paranóia. Talvez fosse comigo, afinal de contas eu tava lá com a maior cara de pobre e de louco, enquanto a mulher era uma senhora elegante dessas meio ricas que moram em apartamento caro em condomínios chiques e tudo. Nada concluí. Desencanei daquilo.
Subimos de elevador e fomos eu e o Tiago para seu quarto. Lá ficamos batendo papo. Entreguei as sementes a ele e fiquei brincando com o Toby, um cachorro que eu insistia em dizer que era uma cadela. Também fiquei brincando com a irmãzinha do Tiago, a Gabi. Ela era muito simpática e espertinha.
Depois de mais ou menos uma meia hora os pais do Tiago sairam. Ficaríamos apenas nós em sua casa. Então ele disse estar com uma erva boa e sugeriu fumarmos unzinho. Ele bolou um, fomos lá pra fora na varanda e ficamos fumando. Realmente era um fumo muito bom. Acho que foi uma das coisas mais fortes que já fumei. No duro mesmo. Eu fiquei extremamente alterado. Tudo parecia acontecer em câmera lenta… falar era algo muito difícil. Fiquei muito calado durante aqueles momentos.
Então, algum tempo depois, voltamos ao quarto. O Tiago perguntou se eu estava afins de tomar as sementes com ele. Eu fiquei com medo. Não estava nos meus planos viajar de LSA naquele dia e depois já estava alterado demais com maconha para viajar ainda mais longe… não respondi nem que sim nem que não. Estava meio difícil falar.
Enquanto estava lá pirando notei que as cores estavam mais nítidas. O horizonte estava muito brilhante. Como eu estava sem óculos as coisas pareciam pegar mais cores e ficarem menos focadas. Era uma boa sensação. O Tiago ficou olhando as sementes. Disse que havia tido uma afinidade pelas pequenas e que aquilo era muito positivo. Concordei sem falar nada. Eu entendia tudo o que acontecia, mas era impossível dizer qualquer coisa. Minha boca estava muito seca. Parecia que queria entrar para dentro como aqueles velhos sem dentes… pedi um copo de água e então fomos até a cozinha. Depois de saciar minha sede fiquei um pouco mais comunicável, mas ainda me mantive calado. Estava muito alterado, e pra dizer a verdade não estava muito legal. O Tiago perguntou novamente sobre o que eu achava de tomarmos as sementes. Olhei para o relógio. Era mais ou menos duas horas. Topei.
Mas então não tomaríamos muito. Seriam apenas sete sementes para mim e oito para ele. Meu recorde com sementes foi uma extração em água de 16 sementes. Sete seria uma dose teoricamente pequena.
Acontece que ao invés de fazer a extração com água, o Tiago estava afins de ingeri-las completamente. E foi o que fizemos. Massetamos as pequenas ritualisticamente até se tornarem um pó mais ou menos fino. Então diluimos esse pó em dois copos de água e tomamos. Ugh. Só de lembrar o cheiro daquilo me dá náuseas. A textura também…
Pronto. Agora era esperar os efeitos colaterais se manifestarem. O telefone tocou e o Tiago atendeu. Parece que era um amigo seu que ia até sua casa para conversar, fumar um e tudo.
Então voltamos lá para o quarto e ficamos papeando e aguardando os efeitos do LSA. Depois de uns dez ou quinze minutos apareceu o amigo do Tiago. Seu nome também era Tiago. Vou chamá-lo de Tiago II para não confundir a leitura… ficamos os três por um tempo lá no quarto. Fiquei ainda muito calado. Conseguia entender tudo, mas era impossível me comunicar. Num certo momento o Tiago foi ao banheiro e então o Tiago II puxou assunto enquanto eu estava vidrado num profundo nada. Me perguntou:
- Onde você mora?
- Jandira - disse e voltei a ficar olhando para o nada.
- Você estuda?
- Estudo. Faço cursinho.
- Onde?
Que merda. Que cuzão. O cara falava lá com um olhar desconfiado, me intimando. Certeza que era minha cara de pobre. Só respondi:
- No Objetivo em Alphaville.
Fiquei um pouco quieto e depois perguntei:
- E você, estuda?
- Tô no terceiro colegial.
- Ah… legal - tentei ser simpático e puxar algum assunto para acabar com aquela palhaçada - você vai prestar algum vestibular esse ano?
- Vou prestar pra filosofia.
- Ah legal! Cheguei a pensar em prestar pra filosofia, mas hoje em dia estou mais interessado em prestar pra biologia. Quero estudar a vida e coisa e tal…
Aí o cara me perguntou sobre as coisas que eu gostava, mas sempre com seu olhar desconfiado. Babaca. Falei que gostava de plantas, cogumelos e de desenhar. Aí mostrei uns desenhos pra ele. Até que ele pareceu achar legal, mas aparentava uma falsidade e desconfiança muito grande. Fiquei muito confuso, pois não sabia se ele estava mesmo afins de me sacanear ou era eu que estava numa paranóia braba. Aí o Tiago chegou e eles ficaram papeando. Eu voltei a ficar vidrado no nada, que era bem mais interessante que papear com aquele palhaço.
Decidimos sair e ir lá perto de uma fonte no condomínio do prédio. Eles ficaram conversando e eu ia me distanciando do mundo cada vez mais. Estava tão imerso em mim mesmo que nada do mundo exterior podia me afetar. Ouvia ainda o Tiago II jogando indiretas contra eu. Era até engraçado. Ele tentava influenciar o Tiago dizendo que havia descoberto como funcionava a Matrix e dizia que isso tinha relação comigo, como se eu estivesse corrompendo o pensamento do Tiago. Dizia que “esses caras revolucionários só se fodem no final das contas” e coisas assim. Cara louco esse Tiago II. Ou eu. Ou sei lá. Só sei que eu entendia ou achava que entendia tudo. Sabia, ou achava que sabia de tudo que estava acontecendo, e num rebote de um sentimento de inferioridade, desses que nos fazem sentir-se superiores, de algum jeito senti que estava num degrau acima, olhando tudo do alto. Minha consciência estava livre e de uma certa maneira, estava apática. Não tinha porque tentar me defender de qualquer coisa que o cara dizia contra minha pessoa. E aquilo que ele dizia para mim passou a ser uma espécie de desafio. Me parece que eu estava me saindo bem ficando quieto.
Fumei um cigarro. A trip estava ficando cada vez mais intensa. Fiquei olhando as ondinhas na fonte. Estava tendo alucinações visuais bem interessantes olhando a água fluir. Depois me deitei no chão e fiquei olhando o céu. Notava um zumbido muito forte no ouvido direito. Segundo o livro que eu estava lendo quando um zumbido começa no ouvido direito é um bom presságio. A intensidade aumentava e a interação com as forças da natureza que eu sentia naquele momento era algo que eu nunca havia sentido antes. Eu estava meio ansioso. Me movimentava demais. Naquele momento eu sentia um certo peso por não poder falar sobre minha trip com o Tiago. Eu queria me comunicar, mas era impossível. As forças que agiam sobre mim eram fortes demais. Apesar disso eu entendia tudo que acontecia ao meu redor. Era um estado de plena absorção, mas era impossível a comunicação.
Depois de um tempo em frente à piscina resolvemos andar. Fomos até um lugar chamado Praça do Pôr do Sol ou coisa parecida. Lá tudo era muito lindo. O sol estava ameno. O Tiago II continuava torrando meu saco, mas foda-se. Sentei do lado direito do Tiago e o Tiago II ao seu lado esquerdo. Fiquei apenas contemplando as coisas. Quando me perguntavam alguma coisa o máximo que eu conseguia fazer era apontar para o que estava olhando. Quando o Tiago II falava alguma coisa para me sacanear eu olhava para a cara dele e dava um sorriso. Às vezes pensava: “Pow… mas o Tiago pode se influenciar pelo pensamento do Tiago II, acreditar em toda merda que ele tá falando e começar a pensar bobagem de mim…” depois pensei: “…mas isso é entre eles. Não sou eu que vou me defender, mas ele é quem vai tirar suas próprias conclusões”. E continuei olhando a vida se desenvolvendo. O Tiago II acho que me via como revolucionário, místico, bruxo, viado ou sei lá… o cara não tinha ido com minha cara. Acho mesmo que é porque, pela minha forma de ser e me vestir, ficava claro que eu era de uma classe social economicamente inferior e era meio esquisitão, calado. Os Tiagos eram playboys, de outro mundo, outra idéia. Eu falava com o Tiago pela internet porque tínhamos interesses em comum sobre magia, plantas e essas coisas, mas éramos de mundos diferentes. Talvez o Tiago II tinha medo que eu fosse algum tipo de maníaco, ladrão, aproveitador. Ele ficava apontando o que achava de ruim em mim para o Tiago. Eu acho que ele fazia isso por eu ficar lá quieto na minha. Já notou como as pessoas geralmente atacam aqueles que são meio quietos e não se envolvem muito? Acho que o problema é a curiosidade que o silêncio desperta. Acho que eu deixava o Tiago II curioso por não dizer nada e ele ficava me atacando indiretamente. Eu me sentia plenamente consciente. Não sentia minha consciência alterada, mas sim expandida. Certas drogas me alteram, mas as sementes naquele dia estavam apenas me expandindo… e eu entendia tudo que estava acontecendo, e tentava não me importar.
Enquanto eles ficaram lá conversando eu fiquei viajando e brincando com as sensações. Ficava “respirando junto com a Terra”. Eu sentia os movimentos. Via as folhas cairem, os pássaros voarem. Estava num estado de profunda contemplação e absorção. Parece que ao mesmo tempo que eu via uma formiga andando no chão eu via um pássaro no céu e uma folha se desprendendo da árvore. Naquele momento pensei que aquele estado contemplativo era algum tipo de iluminação budista. Na verdade, durante aqueles momentos, eu tinha certeza de estar atingindo uma espécie de iluminação definitiva. Nada poderia me tirar do estado contemplativo em que eu estava. Aquele Tiago II seria como o próprio diabo testando minha iluminação e minha paciência. E eu deveria ser como um Buda ou Jesus e lidar com aquilo com calma, paciência e sabedoria.
Eu realmente tinha alcançado a tal da iluminação. Era agora um sujeito santo.
E a natureza falava comigo através de seus sinais. Um vento do ocidente anunciava que o Tiago II falaria alguma coisa. E falava. O vento do oriente tocava no meu rosto e me dizia para não me preocupar com aquilo. Havia uma nítida diferença entre as coisas que aconteciam no lado esquerdo e no lado direito dos sentidos. Eu aprendia a diferenciar a mão esquerda da direita, o ouvido esquerdo do direito. Os sons e os ventos do oriente traziam alívio e alegria. Os sons e os ventos do ocidente traziam tensão e dificuldade.
Notei que as minhas mãos estavam “inchadas”. Era a vasoconstrição, pelo que entendi. Meu corpo estava muito quente, minha respiração muito profunda. Não eram sensações ruins, mas me fazia pensar até quando eu estaria naquela piração toda. Aquele era certamente o pico da viagem. Não podia ficar mais alto que aquilo. Todos os sons, cores, sabores, cheiros e tudo o que os sentidos podiam captar era absorvido por mim como se fosse a primeira vez que os sentia. Uma coisa que começou a me incomodar foi minha roupa que era toda preta. Sentia que toda a intensidade da minha experiência era devido a roupa preta, pois absorvia todas as cores e luzes. Atraia muitas coisas boas, mas também coisas ruins. Eu não me sentia mal, porque minha consciência continuava a filtrar toda energia. Eu sentia que tudo chegava até mim, mas era minha consciência que selecionava o que eu absorvia. Minha consciência estava boa, tranquila, sem nada a dever ou temer.
Depois de um tempo nós voltaríamos e íriamos até a casa do Tiago para pegar a bicicleta do Tiago II e irmos até a casa de um outro Tiago, o qual vou chamar de Tiago III. Fomos seguindo pela praça e o Tiago parou em frente a uma árvore para contemplá-la. Então perto dessa árvore notei algumas flores coloridas. Elas brilhavam como se emitissem uma luz própria. Devido a minha dificuldade de me comunicar apenas apontei para as flores e o Tiago logo sacou o que eu queria dizer. Era muito legal me comunicar com o Tiago, pois ele entendia tudo o que eu dizia e pensava sem eu precisar falar. Sob o efeito das sementes existe uma espécie de telepatia intuitiva. A capacidade de se comunicar sem usar palavras se expande bastante mesmo.
Fomos andando. Parei em um boteco e comprei um guaraná, pois meu corpo estava muito quente e eu sentia muita sede. Ofereci guaraná para o Tiago e o Tiago II. Estávamos todos com muita sede. Fui falando um pouco com o Tiago. Quando eu andava era bom, porque a energia não se acumulava nem me sufocava como quando eu ficava parado. Andar era muito positivo.
Chegamos até a casa do Tiago III. Ele havia acabado de acordar. Achei bizarro o fato dos três caras se chamarem Tiago. Parecia coisa de filme. O Tiago III parecia ser uma pessoa muito legal, mas eu estava muito alterado para poder conversar com ele. Entramos em sua casa e eu fui até em frente a um quadro cor de laranja e não sei porque perguntei:
- Foi você que pintou?
Eles olharam desconfiados para mim. Respondeu que não. Eu era o louco incomunicável. Sentia que uma aura de mistério pairava sobre mim, mas isso na visão deles, pois para mim tudo estava claro e límpido. Raios atravessavam minha visão. Tive muitas alucinações visuais e em cada fonte de luz um círculo com todo o espectro de cores se formava em volta.
Depois fiquei bebendo mais água e viajando. Via muitas luzes e cores. O círculo de cores agora contornava todas as coisas (não apenas as fontes de luz) me fazendo pensar naqueles desenhos budistas coloridos. Era tudo fantástico. Fomos até o jardim da casa e lá vi um bonito pé de maconha. Achei bem legal. Pensei em como seria legal ter um jardim como aquele. Então no meio do jardim notei um pé de pitânga com umas poucas pitângas. Enquanto o pessoal ficava conversando eu fiquei comendo algumas pitângas. Depois de um tempo entrei novamente na casa. Eles estavam fumando skank, mas eu não quis fumar. Então sentei num sofá e lá fiquei. Eu tinha uma certa dificuldade em respirar e a temperatura do corpo parecia estar cada vez mais alta. Sentia muita sede. O Tiago III colocou uma música eletrônica que parecia que aumentava minha dificuldade de respirar. Também aumentava a temperatura do meu corpo. Era muito pesada, dava uma sensação ruim. E eu sentia meu corpo fraco. Para acalmar a temperatura, fortalecer o corpo e me suprir de oxigênio bastava respirar profundamente e tudo voltava a brilhar.
Então depois de um tempo o Tiago II sentou ao meu lado no sofá. Me parecia que ele havia desistido de me azucrinar e ficou lá sentado. Não falamos nada e depois de um tempo ele resolveu ir pra casa. Ele levantou-se olhou bem para os meus olhos e disse tchau. Eu apertei sua mão, dei um sorriso e falei tchau para ele. Então o Tiago III ficou mexendo no computador e eu perguntei se podia fumar lá no jardim. Ele me deu passe livre e fiquei lá fora.
Então lá fora era tudo de bom. O vento soprava e acalmava todo o calor e falta de ar. Fiquei fumando e fui em frente a um pé de amora que tinha um pedaço de papel escrito “Denise”. Pensei que era o nome da árvore. Notei que havia apenas uma amora no pé. Depois fui em frente ao pé de pitânga. Na verdade a árvore não estava plantada, mas estava numa espécie de vaso. Lembrei do pé de pitânga que tenho em casa e significa muito pra mim. Seria uma coincidência eu estar experimentando aquela gama de sensações num lugar que eu nem conhecia, na casa de um cara que eu nem conhecia, sozinho num jardim com um pé de amora com uma única fruta e um pé de pitânga com alguns frutinhos? Tudo para mim parecia ser algo arquitetado por uma consciência divina. Ecco para um cientista louco, sincronicidade para Jung, coincidência para os seres humanos comuns, psicose e loucura para aqueles que percebem que não tem nada demais um pé de pitanga e um pé de amora no quintal… o fato é que tudo parecia se encaixar perfeitamente. Ficava também pensando que coisa bizarra era conhecer três pessoas ao mesmo tempo com o nome Tiago. Os três Tiagos. Parecia título de contos de fadas. Tudo tinha um ar meio mágico naquela tarde. Aquele jardim parecia encantado. Era um desses que o Syd Barrett devia ter em sua casa. Ou então era esse o quintal que o Arnaldo Baptista dizia na música:
“quero cantar no meio da chuva! lá no fundo do quintal”
O sol estava indo embora. O Tiago e o Tiago III apareceram no quintal. A comunicação começava a ficar possível da minha parte. Conseguia usar um pouco mais a lógica. Perguntei:
- Denise é o nome da planta?
- É o nome da dona dela - respondeu o Tiago III.
Então o Tiago me explicou que Denise era o nome da mãe do Tiago III. Sentei numa escada em posição de meia-lótus e fiquei olhando um pé de bambu dançar. Apontei para ele e o Tiago ficou lá olhando também. Comentei que aquele estado de consciência deveria ser o equivalente a iluminação desses budas por aí. Para mim eu havia sido iluminado naquele instante. A natureza e suas forças pareciam se comunicar comigo. Não falavam, mas apenas cantavam a música da existência. O vento, as árvores, as luzes. Tudo cantava enquanto o dia ia indo embora junto com o sol.
Não sei se foi a noite ou o que foi, mas o fato é que uma certa ânsia começou a me incomodar. Precisava vomitar. Fui ao banheiro, me ajoelhei e vomitei. Não saiu quase nada, pois estava quase em jejum. Mas na verdade não era uma coisa física que eu precisava vomitar, eu sentia que era um negócio mais espiritual, assim como em minha experiência com o daime. Eu vomitava aquilo tudo que eu absorvia para mim. Eu era uma espécie de filtro, pegando coisas boas e ruins, absorvendo tudo ao mesmo tempo. Então chegava uma hora que eu precisava vomitar, jogar fora as coisas ruins.
Dei umas cuspidas e fui lavar a cara. Me olhei no espelho e minhas pupilas estavam muito dilatadas. Fiquei pensando sobre aqueles rituais de batismo. Então molhei toda a cara e o cabelo e senti um bem estar singular. Voltei lá para fora. O Tiago III continuava no computador. Parecia estar jogando um game de tiro.
Voltei lá para fora e fiquei conversando com o Tiago. Nossa conversa fluía bem. A música eletrônica incomodava e ele trocou o CD para um do Pink Floyd. Durante toda a experiência eu mijava muito. Toda hora ia no banheiro. Toda mijada dava uma impressão de purificação. Estava tirando coisas ruins de mim.
O Tiago então ficou lá dentro e eu continuei no jardim. Eu começava a acreditar cegamente que havia sido mesmo iluminado ou atingido algum tipo de nirvana. Sério mesmo. Eu pensei que a partir de então ia até voar. Sim, eu estava delirando, mas enquanto eu pensava, aquilo me parecia muito paupável. Quando olhei um passarinho em um muro eu pensei: “tá lá! Aquele é a testemunha de tudo o que eu tô sentindo”. Aí olhei para o pé de pitânga. Aquele também era testemunha.
Aí o Tiago apareceu com um violão e ficou tocando lá fora. A música fluía de maneira maravilhosa e ele dizia que não era ele a tocar… as notas saíam sozinhas. Então um gato preto veio descendo as escadas e me fazendo lembrar de uma música do Syd Barrett onde diz sobre um gato:
the cat is in the left side
you are in the right side
oh no!”
(era o que eu lembrava, mas na verdade diz):
you are in the left side
he’s the right side
oh no!”
O gato passou por nós e ficou agindo de uma maneira estranha. Depois foi lá para o meio do jardim, as sombras o esconderam e eu não mais o vi. Às vezes via alguns vultos e luzes nas sombras e aí me alimentava de fantasias imaginando que eram gnomos.
Então já era noite. Entramos na casa e ficamos sentados no sofá. De repente apareceu um jardineiro e a mãe do Tiago III. Então a coisa mais estranha: eles iam replantar o pé de pitânga!! Para mim aquilo era uma estranha coincidência. Eu ficava divagando sobre o fato de eu usar um pé de pitânga como “testemunha” da minha iluminação, e no mesmo dia esse pé de pitânga seria replantado em solo firme, consolidando minha santidade! Achei aquele fato curioso. Ainda mais por se tratar de um pé de pitânga, que é uma árvore importante pra mim.
Isso é uma coisa estranha das sementes: a linha de raciocínio que ela nos induz acaba por produzir uma percepção incrível de coincidências, sinais e presságios. O problema é que muitas vezes ela induz também a delírios. A gente acaba acreditando em uma porção de coisas irreais. Sem dúvida nenhuma, as sementes tem algo tão forte quanto o ayahuasca no que diz respeito a espiritualidade, mas para usá-las com esse fim é necessária extrema cautela, caso contrário acabamos por acreditar em fantasias, delírios e é isso que caracteriza certas doenças mentais. As sementes podem surtar pessoas…
(mas cá para nós: ela é bastante convincente, a ponto de que quase me sinto dizendo esse disclaimer da boca pra fora, e aceitando os significados que ela me propõe para compreender as coisas…)
Então o Tiago trouxe um pedaço de pão e uma maçã. Ele disse:
- Engraçado isso tudo.
- Como assim? - perguntei.
- O pão. O trigo. Jesus Cristo.
- Podiscrê né? E aí tem a maçã…
Comi um pedaço do pão. Ele me ofereceu a maçã. Hesitei. Pode parecer besteira, mas eu estava vivendo uma experiência metafórica ali. Tudo era simbólico. Para mim a maçã naquela hora não era um alimento, mas um símbolo. A maçã era o tal do “fruto proibido”. Depois olhei novamente para a maçã. Era apenas uma fruta. Fiquei indeciso durante um tempo se deveria ou não comer a maçã. Acabei por comer um pedaço. Isso já era mais ou menos umas sete ou oito horas da noite e eu precisava ir embora.
Falei com o Tiago e me despedi do Tiago III. Eu estava bem mais comunicável. Fomos até a casa do Tiago, peguei minha mochila que eu havia deixado lá, e ele me desenhou um mapa de como voltar para casa. Na verdade eu queria me perder nas ruas… queria andar, andar, andar seguindo apenas minha própria intuição. Mas de qualquer forma seria interessante guardar um mapa no bolso para caso eu me complicasse demais no meu caminho de casa. Eu sentia muita falta de voltar pra casa. Sentia falta da minha cama. Estava cansado e queria deitar.
Então o Tiago me acompanhou até a rua, pois iria passear com seus cachorros. Ficamos conversando um pouco em frente sua casa e depois decidi me aventurar no caminho de volta. Passei por casas muito bonitas. As ruas eram muito arborizadas. Sentia como se estivesse perdido numa espécie de paraíso, quando na verdade eu só queria voltar para meu quartinho fulera de sempre.
Comprei uma coca-cola e fui fumando cigarros e às vezes perguntando para as pessoas como se chegava até o metrô da Vila Madalena. As pessoas pareciam ter um certo medo de mim. Talvez devido ao tamanho das minhas pupilas (muito dilatadas) e pelo fato de eu estar todo de preto. Aquela roupa me incomodava demais. Ainda mais quando notei que a latinha de coca-cola era vermelha. Aí eu me sentia o próprio Exu vermelho-preto, que certa vez já havia se manifestado em mim em um sonho muito estranho que tive. Aí a roupa me incomodava cada vez mais. Fui caminhando com toda aquela má impressão, seguindo meus instintos e perguntando onde ficava o metrô até que finalmente o encontrei. Então fiquei lá sentado em frente ao metrô terminando de tomar minha coca-cola e fumando. Fiquei olhando os carros e lembrei da primeira passagem de um texto que eu escrevi um tempo atrás. Dizia algo como:
“Às vezes fico sentado olhando a vida passar. A vida nunca passa, mas passam ônibus, carros e tudo mais…”
Aquele era eu. Ficava olhando os carros passando. Uns indo e outros voltando. Me parecia que o mundo estava entrando numa transição de ciclos. Logo os papéis se inverteriam. Ficava pensando sobre o futuro, sobre a história humana. Ficava pensando em possibilidades, pensando no que estariam pensando as pessoas correndo com seus carros na avenida. Fiquei olhando as luzes dos faróis e postes lá na rua. Não sei se é porque eu estava sem óculos ou porque minhas pupilas ainda estavam muito dilatadas, mas o fato é que via o espectro de cores que saia de cada farol e de cada poste. Todas as cores partiam de uma e iam de mutação em mutação se transformando em outras e outras cores… e o círculo de cores continuava em volta de tudo. As luzes eram como diamantes brilhando. Naquele momento as cores começaram a tomar grandes significados para mim. Começava a divagar sobre o bege e o laranja. São as cores que estavam voltando para a luz de origem. O verde era vida e se tornara bege, transição para ir ao amarelo e voltar à luz branca. O vermelho eram desejos e se tornara laranja, transição para também voltar ao amarelo e finalmente à luz branca. Notei que a cor amarela nos carros, ônibus e essas coisas era sempre a que mais me dava impressão de intensidade. Fiquei pensando muito nas cores e os seus significados. Percebi que não era bom se apegar a nenhuma delas, mas sim se apegar a luz. A luz pura que não se separa. Então me deu vontade de ir mijar e eu entrei no metrô. O problema é que lá não tinha banheiro e eu tive que ir de baldiação em baldiação me segurando. Minha temperatura corporal estava insuportavelmente quente! Eu precisava chegar logo na barra funda para mijar, lavar o rosto e respirar! Um mal estar generalizado se apoderava de mim. Meu rosto pingava suor. Era minha roupa preta e aquela maldita coca-cola vermelha na minha mão!!
Chegando na Barra Funda eu fui rapidinho para o banheiro, lavei o rosto, joguei a maldita coca-cola fora e fui mijar. Tive uma certa vontade de vomitar, mas não saiu nada. Fui pegar meu trem.
Lá na estação a roupa me incomodava ainda mais e também a ânsia aumentava. Chegando em Presidente Altino eu tive que descer do trem devido a intensidade da ânsia. Na verdade não era vomitar o que eu queria, mas era uma estranha sensação de jogar pra fora algo que não era material, mas psicólogico ou talvez espiritual. Minha voz se alterava. Eu me sentia como que possuído por alguma entidade como já vi tantas pessoas por aí. Talvez fosse o tal do Exu. Sei lá! Vai saber né? O fato é que minha voz alterava e eu tentava expelir algo que na verdade não queria sair. O máximo que saía eram umas cuspidas. Mas parece que só de tentar forçar para a coisa sair a ânsia diminuía. Então eu olhei a luz da estação e fiquei olhando o círculo de cores ao seu redor. Aquilo me acalmava. Fiquei olhando até chegar um outro trem. E quando chegou, a viagem foi um pouco mais tranquila. Resolvi descer em Barueri para voltar a pé. Encontrei umas chegadas no meio do caminho. Fiquei tentando bater um papo com elas, mas eu não estava nada bem e fui seguindo a pé sempre com aquela vontade de expelir aquele algo dentro de mim. Era uma espécie de limpeza. Aí cheguei em casa ainda bem alterado, tomei banho, jantei e fui dormir.
As sementes proporcionaram uma viagem bem interessante, muito mais espiritual que qualquer coisa. Difícil é saber o que é fato e o que é delírio. Mas no fundo no fundo ninguém consegue diferenciar uma coisa da outra, mesmo careta…