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[2003-12-31] - SEMENTES DE ANO NOVO

Era dia 31/12/2003. Às 9h acordei, liguei e falei:

Tchau, tchau.

Fui tomar banho, mas antes dei uma olhada no vidrinho de nescafé. Lá estavam as 12 sementes prontas para nos oferecer um ano novo cheio de paz, tranquilidade e bla bla blá.

Então tá certo. Tomei meu banho, arrumei a mochila, guardei o vidro e a canequinha mágica e zarpei para a praça da cidade.

Fumei um ou dois cigarros e ela apareceu. Estava tensa. Eu também estava tenso. Depois dali não sabia o que podia acontecer.

Mostrei o vidrinho pra ela. Decidimos tomar ali mesmo e já coloquei metade da mistura na minha canequinha mágica. Ela bebeu sem maiores problemas.

Só de olhar para aquilo me deu um nó no estômago. Já experimentei viagens ao paraíso, estadias no inferno, contatos telepáticos com seres humanos e outras entidades. O que haveria de acontecer dessa vez? Já no natal eu tinha tomado esse treco. Foi bom. Falei com a Terra, mas ninguém acredita mesmo nessas coisas. Aí, ainda no natal, vi até uma estrela cadente e a Tartaruga Cósmica veio ter comigo e falar sobre a evolução do mundo. Mas ninguém vai acreditar mesmo, afinal, eu mesmo não acreditaria num drogado que fala que viu gnomos espalhados no jardim…

Tá. Tomei. E agora?

Fui no banheiro da rodoviária lavar minha canequinha mágica e acendi mais um cigarro. O cheiro da mistura me dava náuseas…

Fomos para uma outra praça, mais retirada do centro. Ficamos lá. Ela já estava reclamando de sentir náuseas e ficou um tempo encolhida do meu lado. Eu também não estava bem, mas colocando a mão sobre o umbigo amenizava o desconforto.

O meu tava protegido com minha mão que parecia que ficava cada vez mais quente.

Ela também protegia o dela enquanto ficava lá encolhida.

Mais um tempo depois e fomos andar pela floresta.

Imagina uma praça abandonada, perto de uma escola abandonada… tudo no meio do mato, como uma civilização perdida na floresta. Uma antena de comunicação, uns nóias de bombeta pra trás. Fodam-se eles todos. Estávamos na floresta, sugando energia de vários lugares. Daqui, dali, das pedras, do mato. Uma borboleta azul cruzou minha visão. Um bom agouro. Tudo ficava bem de uma hora pra outra, assim como tudo ficava mal de outra hora pra uma. Mas tava tudo ok. Ela queria porque queria catar espinha da minha cara. Ah! Cataí! Num tô sentindo nada mesmo. Ficou lá espremendo minha cara… foi legal, mas quando acabou a energia daquele lugar fomos para outro. Nos enfiamos no mato e as pessoas lá da antena de comunicação ficaram nos olhando.

Não falei nada disso. Só imaginei.

Lá no meio do mato ela olhou umas cores azuis pelo chão. As mesmas que eu havia visto e não comentado nada. Ela se sentou num banquinho e ele estava amarelo. Para mim também ele se apresentava amarelo.

Ficamos um tempo ali e ela quis sair. Achou que era um mal lugar. Fomos para um outro, logo em frente, e aí ficou tudo ok. Mas ela estava passando mal e ficou lá deitada. Eu não estava tão mal, a não ser pelo fato de ficar cuspindo toda hora. Conseguia controlar tudo. Meu corpo queria fumar, mas uma vez que minha mente não se importava eu ficava lá numa boa, sem nada de ruim na cabeça.

Ela falou que estava vendo riscos e bolinhas com os olhos fechados e isso parece que a fazia esquecer de que estava passando mal.

Eu fiquei olhando uma mariposa voando pela floresta. Depois uns mosquitos gigantes. E uns outros bichos…

Ficamos um bom tempo lá.

A sensação de estar conectado com tudo ao redor era nítida. Uma espécie de onisciência da floresta. Cada som, cada folha que caia… tudo estava ok, tudo sob controle. Depois sentei do lado dela e ficamos lá conversando. Ela me falou que minhas pupilas estavam dilatadas demais e eu estava com cara de louco. Seus olhos brilhavam de um jeito diferente. Acho que me hipnotizei com o brilho, porque depois disso não conseguia mais deixar de olhar dentro dos olhos da menina. Uma conexão legal mesmo. Perguntei se ela sabia que horas eram… eu mesmo já estava perdido no tempo. Se fosse 11h, 13h ou 15h para mim não fazia diferença. Não acharia nada absurdo.

Ela chutou em 13h30 e acertou na mosca.

É incrível a impressão de estar seguro no saber que as sementes nos dão.

Falou que estava com fome. Ora, vamos comer então! Queria porque queria panetone.

Vamos comer panetone então!

Saímos da floresta e fomos para a cidade. Eu olhava para ela, ela olhava para mim e achávamos engraçado essa coisa de “as aventuras no centro da cidade”, porque andar maluco de sementes pela cidade é uma aventura…

Ela foi na loja de R$ 1,99 comprar panetone e eu fui no banheiro mijar. Numa espécie de telepatia maluca eu sabia que eu devia esperá-la ao invés de ela me esperar.

Ela chegou. Fui comprar um suco desses de latinha numa lanchonete onde sempre vou. Era engraçado pedir. Estava bem sóbrio, bem consciente do que estava fazendo, mas era engraçado. Tudo era engraçado. As pessoas lá dentro comendo, as mulheres servindo, dinheiro, café, salgado, coisinhas, rodoviária, pessoas falando… era tudo engraçado e eu não conseguia esconder meu sorriso de satisfação de estar no estado de espírito em que estava.

Ela me viu com cara de lunático e falou para sairmos logo dali porque a gente tava doido demais.

Ok, vamos sair então.

Saímos. Fomos lá para uma grande tubulação de energia. Carros passando apressados na via expressa, perto do cemitério. Muros pixados. O trem passa logo ao lado. Tudo abafado, quente, que calor! Não vamos aguentar isso tudo.

Fomos nos sentar ali perto do cemitério. Ali ela devorou o tal do panetone. Eu nem aguentava ver aquilo perto de mim, porque a sensação de náusea se mantinha.

Fiquei meio malz naquela hora. Me arrependi de ter saído da floresta…

Depois olhei no céu uns trecos de luz.

PUTA QUE PARIU ESSA PORRA É DISCO VOADOR!

Eu sei lá. Pra mim aquilo não era pipa coisa nenhuma. Era disco voador. E eles foram tão gentis que até me reenergizaram a ponto de eu esquecer que estava malz há poucos minutos atrás. Agora já estava cheio de energia, tranquilo, contente e tudo mais!

Às vezes passava um ou outro mané falando que os fantasmas iam me pegar (só porque a gente estava em frente ao cemitério). E eu achava engraçado.

Ela apontou para o oeste e falou que ia chover. De repente, um vento muito forte começou a levar todas sacolinhas do nosso piquenique. Ía mesmo chover, e forte!

Seguimos andando pela via expressa. Se chovesse a gente ia se molhar, se não chovesse num ía.

Começou a cair uns pingos de nada, mas quando ela falou: “poderia chover mais forte”, aí começou a engrossar… falei: “não, muito forte é ruim”. Aí a chuva amenizou. Ela falou que queria que chovesse e ventasse muito! Aí foi foda! Falei que não… que sim… que não… que sim… que não…

Bem… molhou tudo. Mas foi legal brincar com o Pedrão. Estávamos conectados com céu e a terra e isso foi bom.

Acabamos por chegar numa grande praça. O pico da experiência já havia passado. Os olhos dela brilhavam como nunca. Conversamos sobre várias coisas e ainda era apenas 16h! Eu ainda passaria em casa, tomaria banho, falaria “hohoho! feliz ano novo”, cuidaria do meu cachorro e iria para a casa de um amigo comer e comemorar a chegada do ano novo lá…

Então fui pra casa tomar banho. Ela foi pra casa tomar banho. A noite nós íamos na casa de um chegado em comum, passar o reveillon. Meu cachorro estava estranho. Me olhava estranho. Agia de maneira estranha.

Ela me ligou.

Falou que sua gata estava estranha. A olhava estranho. Agia de maneira estranha.

Nos reencontramos.

Os efeitos cessaram, mas os olhos continuavam a faiscar.

E faiscaram até o fim daquela noite.

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