[2005-02-01] - ELA E EU EM SÃO THOMÉ DAS LETRAS
Pois então eu tava de férias e ela também. Não tinha muita grana não, mas o que tinha era suficiente para passar uns dias na lendária São Thomé das Letras, em Minas Gerais.
Na terça, dia primeiro de fevereiro de 2005, arrumamos nossa mochila e às dez e meia da noite pegamos um ônibus rumo a Três Corações.
Legal, legal! Ônibus confortável, uma gata do meu lado, o coração cheio de alegria e ansiedade pra botar os pés sobre as pedras da cidade mineira outra vez.
Após uma meia hora de viagem vi um véio correndo lá do começo do corredor em nossa direção, nos últimos bancos do ônibus. Ele tava precisando ir ao banheiro. Aí ele entrou desesperado na cabine lá no fundo e se aliviou enquanto, com sua maldita sessão de descarrego, criou uma atmosfera especialmente infernal para nós, que estávamos no fundo… de onde estávamos ouvíamos sons bizarros dos quais não se pode ter certeza se eram manifestações de disfunções intestinais ou estomacais, quero dizer, se era merda ou se era vômito. Um cheiro desgraçado ficou pairando ali no ar e minha namorada abriu sua mochila para pegar um desoradante e espirrar pelo ônibus, para ver se suavizava o cheiro lá do fundo. Abrimos as janelas, os passageiros ao lado que dormiam acordaram assustados e se abanando.
A própria visão do inferno, juro pra você.
Quando o véio abriu a portinha do banheiro eu prendi a respiração e ao ver a cara dele não aguentei e acabei rindo. Ele olhou torto e sussurrou um “ai, caraio!” depois seguiu para seu banco. Véio cagão fia da puta. Caga e ainda fica xingando.
O resto da viagem foi bem tranquilo. Estrada, estrada, estrada, estrada, cochilo, estrada… nem era muita coisa. Foram apenas cinco horas de viagem até chegarmos em Três Corações, de onde teríamos de pegar mais um ônibus para chegarmos ao nosso destino.
Quando chegamos em Três Corações, o relógio da rodoviária da cidade apontava para quatro e pouco e como o ônibus para São Thomé só passaria às seis, fomos tomar um café num boteco que está sempre aberto. Ficamos lá e depois ela foi ao banheiro, e enquanto eu fiquei a esperando apareceu um cara banguelo com cheiro de cachaça:
- E aí, tudo bão?
- Ôpa. Tudo certo.
- Tá indo pra onde?
- Pra São Thomé.
- Eita. Lá é o mió lugar do mundo né não?
- É. Bem louco. Não conheço o mundo inteiro, mas gosto bastante de lá.
Ele perguntou se fumo unzinho. Falei que sim, às vezes. Falou que se eu quisesse era só procurar ele na cidade que ele me arrumava “do branco”, “do preto” ou qualquer outra coisa. Agradeci, ela voltou, ele a cumprimentou. Seu nome era Alessandro. Sujeito distinto. Falava rápido, sempre rindo, sempre louco, banguelo. Desses caras divertidos que conseguem criar assunto no vazio.
Fomos para um banco da rodoviária esperar o tal do ônibus. Tinha uma garota ao nosso lado. Ia pra São Thomé também. O Alessandro foi também ficar lá conversando. Começou a falar sobre uma vez que ele havia ido à São Paulo pegar metrô e aí tava bem loucão com uns comprimidinhos que ele chamava de “queijo” e foi esperar o metrô lá na linha, enquanto os seguranças iam lá tirar ele. Falava que tinha medo de escada rolante e que São Paulo só tinha gente doida. Olhou pra menina ao nosso lado, que estava lendo um livro, e falou que paulista gosta de ler demais. Ela pareceu satisfeita com sua afirmação. Aí ele complementou dizendo que paulista precisa ler tanto porque é burro. Eu bati nas coxas e vibrei! A menina desprezou o comentário do maluco e continuou seu livro. Ele voltou a conversar comigo. Perguntei se chovia em São Thomé e como iam os pastos. Falou que o tempo estava bom pra cogumelos e ficou contando umas histórias de uma vez que tomou cogumelos e queria escalar a parede feito homem aranha. Numa outra vez tava lá doidão e almoçando. Aí quando olhou o arroz no prato pensou que ele estava se mexendo e começou a gritar pra mãe dele que o arroz queria comê-lo ou sei lá. Depois, foi correndo para o chuveiro mas ao invés de cair água ele via cair fogo e falava que tava se queimando.
Era um sujeito bem distinto. Boa gente o rapaz. Meio louco é verdade, mas muitíssimo boa gente.
Até às seis da manhã ele ficou lá enchendo o saco da paulista que gostava de ler, chamando ela de loira burra e cabeçuda, e ela, depois de um tempo e com algum jogo de cintura conseguiu desprender-se de sua auto-imagem e começou a escrachá-la, entrando no jogo do Alessandro e usurpando suas armas. Um sábio chinês me perguntaria: qual o guerreiro que pode perder uma batalha se não estiver lutando?
Depois de algum tempo a paulista, caretona, e o Alessandro, malucão, acabaram entrando em bons diálogos. E foi legal.
Quando o ônibus chegou, entramos. Seguimos viagem enquanto o sol nascia por trás das montanhas mineiras. Um lindo dia estava nascendo. Teríamos apenas de achar um lugar para passar as noites e poderíamos curtir toda aquela natureza ao nosso redor.
Era quarta feira pela manhã, umas sete ou oito horas quando chegamos. Conseguimos uma pousada até sexta feira, pela manhã, por um preço bom. Era uma pousada bem ajeitadinha e agradável. Fomos lá, tomamos um banho e dormimos até às onze.
Ao acordar fomos andar pelas pedras, no cruzeiro e mirante. Levamos um binóculo que ela comprou de um camelô pra mim e fomos ficar olhando a paisagem. Vi gaviões e urubus em pleno vôo. Vi vacas em pastos distantes e uma riqueza de formas incrível em todas aquelas manifestações da natureza. A vida é mesmo muito bonita. Como sou feliz por ter nascido com um corpo humano capaz de perceber tanta coisa nesse universo magnífico!
Depois de um tempo lá no mirante encontramos um casalzinho. Um carinha me perguntou se eu sabia onde ficavam as cachoeiras. Expliquei pra ele onde eram e depois decidi que iria pra lá, os convidando para uma carona de sola.
Descemos os três quilómetros até a Cachoeira do Eubiose. No caminho fomos conversando. O casal vinha de Sorocaba, eram ambos caretas. Ficaram meio surpresos quando disse que eu fumava um de vez em quando. Acho que nem eu nem ela temos cara de quem faz isso, então algumas pessoas acham estranho mesmo.
No caminho passamos por um pasto e utilizei o binóculo para ver se achava algum cogumelo. Estava doido para tomar uns e ela queria muito conhecer seus efeitos.
Não achei nada. O casal que nos acompanhava ficou um pouco mais assustado conosco, pois haviam ouvido estórias dessas de gente que toma cogumelo e fica doido, e aí ficavam meio receosos… Sei lá.
Chegamos na cachoeira, foto pra lá, foto pra cá, o casal ficou tomando banho e nós fomos andar pelas trilhas. Ela molhou os pés na água e ficou um tempão lá curtindo. Seus olhos mostravam que ela estava bem feliz, e eu fiquei bem feliz de vê-la feliz e aí foi uma felicidade só. Muito legal mesmo.
Depois de curtir as águas voltamos para a estrada, caminhando mais três quilómetros para chegar na próxima cachoeira.
No caminho, mais pastos. Andamos e andamos sob aquele sol quente procurando cogumelos, mas não se achava nada. Pôxa, pusquê cês num aparecem, seus fungos?!
Chegamos na Cachoeira do Flavio. Muitos cretinos se banhando lá. Daquela gente fresca e nojenta que é sempre algo separado da natureza e te olha com um ar de superioridade. Eram provavelmente paulistanos.
Ficamos pouco tempo lá. Muita fome. Para voltar até a cidade teríamos de andar pelo menos seis quilómetros. Fomos, em passos vagarosos, até que de repente surgiu um carro das profundezas da estrada e nos ofereceu carona.
Era uma moradora da cidade. Falou que tinha ido se banhar na cachoeira para fazer uma “hidromassagem”. Legal ela. Toda articulada, uns quarenta anos, voz rouca e grave, camiseta vermelha do PT. Luciene.
Seguimos feliz e contente conversando com ela sobre as pedras da cidade e a administração. Ela parecia gostar de política. Uh, como seis quilómetros passam rápido sobre um motor!!
Faltando uns seiscentos metros para chegar na cidade o carro pifou. Começou a sair uma fumaça branca do capô, ela desligou. É a água que estava fervendo!
Ficamos lá olhando, apareceu um caminhoneiro conhecido dela e ele diagnosticou o problema: a ventuinha não estava refrigerando a água no motor.
Ficamos lá, começou a chover, o cara tentando arrumar, tentando… não deu certo. Ele ficou de ir chamar o marido dela na cidade para ir buscá-la e resolver o problema. Ela falou para irmos com o caminhoneiro de carona. Então fomos.
O caminhão ficou atolado algum tempo antes de conseguirmos partir, mas depois foi tudo ok. O motorista gente fina. O outro véio que ia com ele era meio amargo ou triste ou sei lá. Parecia meio ranzinza. O caminhão sacolejava pra cá, pra lá, o banco lá em cimão… uh!
Chegamos em São Thomé, comemos, fomos para a pousada em que estávamos hospedados e tomamos mais banho. Ficamos enrolando pela cidade e se curtindo mutuamente até chegar a hora de ir dormir.
Dormimos, acordamos. Tomamos banho, tomamos café, fomos para uma outra cachoeira, no Vale das Borboletas. No caminho haveriam pastos onde poderíamos continuar nossa busca por cogumelos.
Apenas dois quilómetros numa pista mais ou menos perigosa e chegamos lá. Logo na entrada da cachoeira já avistei um cogumelo. “Um bom agouro!” ela me disse. Eu o guardei no bolso e antes de irmos na cachoeiras fomos procurar mais cogumelos.
Achamos alguns, guardamos, fomos pra cachoeira descansar e depois faríamos outra busca.
Ela adorou a cachoeira. Antes da viagem ela nunca havia visto uma dessas e estava bem maravilhada. Muitas borboletas voando por ali, um cenário muito agradável e paradisíaco. Tinha pouca gente se banhando. Depois de um tempo só havia eu e ela por ali, o que era ótimo!
Caçamos mais cogumelos, ACHAMOS!
Estávamos com cogumelos suficiente para eu e ela tomar e sobrariam alguns para levarmos pra casa e dar para uns chegados nossos.
Fomos fazendo o caminho de volta torcendo para surgir alguma carona, pois apesar de ser apenas dois quilómetros entre a cidade e a cachoeira onde estávamos, agora era subida que não acabava mais!
Pedimos carona para um jipe.
Um cara cretino negou.
Filho da puta! Tomara que o pneu estoure.
Tomara nada. Tomara que vá bem.
Mas que era um filho da puta, isso era!!
Depois um outro carro. Duas cariocas muito malucax pararam e deixaram nóx irmox com elax. Ouviam um som meio chapado. Uma delas falou que era música de disco voador. Perguntei o nome: PRAM. PÊ, ERRE, AH, EME. PRAM.
Muito legal. PRAM.
Fomos conversando com elas. Falaram que tinha ido para Serra da Canastra, que era o lugar das cachoeiras altas, e agora iam pra não sei aonde. Elas perguntaram de onde viemos, pra onde vamos e fomos papeando assim como papeamos com essas pessoas que a gente conhece quando viaja.
De repente o carro das cariocas ultrapassou o jipe que nos negou carona. Eu olhei os manés lá dentro e cutuquei minha namorada, pra ela ver eles lá. Ela sorriu. Continuamos.
Lá na cidade elas nos deixaram e continuaram em suas viagens com o PRAM.
Eu e minha namorada compramos mel, compramos sorvete em pote e fomos para a pousada para tratar dos nossos cogumelos. Tomamos o sorvete, lavamos os cogumelos, picamos, misturamos com mel, deixamos a dose dos nossos amigos guardada e preparamos nossa dose pra tomar.
Tomamos e fomos andar. Começou a chover. Encontramos o casal na praça. Conversamos um pouco. Depois seguimos em diração às pedras.
Um mal estar inicial, um enjôo, uma estranheza no corpo: estava batendo.
Andamos até o mirante curtindo toda nossa atenção ampliada. Minha namorada parava em cada musguinho para perceber seus detalhes. Estava com um olhar microscópico. Eu me divertia caminhando pelas pedras com todo bem estar físico proporcionado pela psilocibina.
Subimos nas pedras, ela se deitou lá e ficou de olhos fechados absorvida em visões, enquanto eu fiquei sentado com o binóculo apreciando as paisagens no horizonte.
Depois de um tempo continuamos a andar pelas pedras e ficamos por ali até o pôr do sol.
Muitas fotos, muitas visões, insights. Essas coisas.
Num certo momento, lá nas pedras, um guri chegou até nós e disse:
- Tio, pega meu pipa que tá enroscado na árvore!
Claro! Claro que vou pegar!!
Fui lá com o maior cuidado tirar o pipa do guri, mas vi que estava rasgado. Minha namorada ajudou, tentou tirar com cuidado para não rasgar mais e depois devolvemos para ele.
Saí da cena todo chapadão com ela do meu lado e comentei, todo orgulhoso:
- Criança é um barato não? Gosto de fazer favor pra gurizada por que elas não perdem tempo agradecendo com formalidades e tudo…
Ela concordou e fomos andando. De repente o guri lá de trás começou a gritar:
- Moço! Você rasgou meu pipa! Pode ir me dando dinheiro pra eu comprar outro.
Ela olhou pra minha cara riu. Eu também ri. Guri FILHO DA PUTA!! Que dinheiro nada!!
Quando os efeitos cessaram fomos jantar. Reencontramos o casal careta, cumprimentamos, eles sentaram lá, nós nos sentamos cá. A comida tava meio sem gosto, mas serviu para nos alimentar.
Fomos ao quarto e lá ficamos se curtindo, ouvindo música, conversando. Essas coisas. Fumei um baseadinho com ela, ela foi dormir, eu fiquei lá deitado, um tempão, pensando em tudo.
No dia seguinte acordamos cedinho. Já era sexta feira e teríamos de deixar a pousada em que estávamos. Como queríamos ficar mais um pouco em São Thomé, mas aquela pousada em que estávamos já estava reservada, começamos uma busca por alguma pousada barata. Foi meio ruim de achar porque sábado, o dia seguinte, começaria o carnaval e nós só queríamos ficar até domingo. Os donos de pousadas só estava fazendo pacotes para o carnaval todo, o que não batia com nosso programa…
Acabou que encontramos um tiozinho que nos deixou ficar só a sexta feira, partindo no sábado de manhã, por um preço legal.
Beleza! Então aquele seria o último dia em São Thomé.
Pela manhã fomos novamente procurar cogumelos no Vale das Borboletas. Descemos os dois quilómetros e quando chegamos lá perto da cachoeira vimos um hippie com uma sacola lotada de cogumelos.
Hippie filho da puta! Tinha pegado tudo os nossos cogumelos!!
Meio desesperançados iniciamos nossa nova busca pelo pasto. De repente achei uns. Ela achou outros. Fomos para a cachoeira descansar para depois ir caçar mais cogumelos.
A cachoeira estava vazia. Ninguém. Só eu e ela. Nos banhamos e brincamos na água feito criança. Ficamos jogando pedra na água pra ver ela pular sobre a superfície. Tentei boiar mas não consegui. Fomos para onde caia o fluxo de água. Entendi o que a moradora quis dizer com “hidromassagem” no dia da carona.
Depois fomos andando pelas corredeiras da cachoeira. Pedras, água, árvores, natureza, pastos…
Andamos muito. Achei um cogumelo num pasto do caminho, voltamos.
Fomos caçar mais cogumelos. Ela achou vários. Ao todo coletamos doze. Decidimos que colocaríamos esses junto dos outros que havíamos achado para tomar eu, ela e nossos dois amigos quando voltássemos de viagem. Seria uma festa de confraternização psicodélica e sem motivos.
Conseguimos a carona por um pequeno trecho. O resto teríamos de subir a pé. Pior que aí começou a chover e aquele caminho se tornou muuuuito longo e cansativo.
Mas até que foi bom.
Chegamos na pousada, deixamos nossas roupas para secar, comprei algumas coisas para comermos, lavei, piquei e misturei os cogumelos e passamos o resto do dia e da noite lá comendo, conversando, ouvindo música e essas coisas.
Durante a madrugada, umas três da manhã, um gnomo apareceu lá no quarto para comer nosso pão. Rasgou toda sacola de pão e nos acordou. Depois voltamos a dormir e quando acordamos o gnomo havia aberto a porta do nosso quarto e partido…
Ainda bem que não levou nossos cogumelos.
Embarcamos rumo a Três Corações de manhã, pegamos o ônibus com destino à São Paulo e voltamos para casa naquele sábado.
No domingo fomos fazer a tal da confraternização com os chegados. Os cogumelos que estavam destinados à quatro tiveram de render pra cinco.
Foi tudo muito louco. Eu e ela, eles lá, o tempo bom e azul no céu, as cores vibrantes, um parque colorido para exercitar o físico. Um baseadinho numa roda de malucos. Intensificação de atenção, o Bira e eu conversamos:
-
É irmão, cogumelos não nos deixam mais inteligente, mas nos deixam mais sábios.
-
É sim, Bira. Porque podemos até esquecer o que concluímos durante essas viagens, mas com certeza esses insights influenciam nossas futuras decisões.
Falamos sobre engenharia e fluxo de informação. O Gerson andando sozinho com a camiseta vermelha na cabeça feito um louco. O Bruno quieto. Eu e ela comendo trevo, azedinho, sombra, companhia, água fresca…