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[2005-12-20] - LIMONADA ROXA

I - OPERAÇÃO SECRETA

No telefone, falamos:

Peguei o trem, o coração palpitante.

Na Sé estavam ele e sua guria.

Fomos andando por aqueles cantos, conversando sobre os enteógenos. Me perguntou da erva mazateca. “Furiosa, mas eu imaginava outra coisa dela” — respondi. Me perguntou se saí do meu corpo e fiz viagens astrais. Falei que não, mas que tive vários encontros com ela e seus assistentes engraçados. Ele não ia entender ali, porque ainda não caiu nos encantos da formosa Maria Pastora. “Estou muito afins de conhecê-la”, me falou. Disse a ele que que se encontrasse alguma coisa avisaria.

Seguimos andando até um boteco, pra tomar um café. Sua guria tinha olhos bem brilhantes e aquele sorriso conhecido, daqueles que encontram cubensis pela primeira vez. Era um sorriso bem puro, beirando a ingenuidade.

Massa! Perguntei a ela o que achou. Falou que tudo era novo, que estava extasiada até aquele momento, de ver coisas assim tão bonitas. Vibrei muito com aquilo. Feliz a valer mesmo.

Perguntei ainda se havia sido uma experiência visual — quer dizer, se ela havia visto muitas coisas. Falou que viu, sentiu, ouviu, e que as formigas douradas andando na parede escura do pub em que estava eram muito lindas. Mostrou a bota que usava, que parecia ser bem pesada, e falou que ela ficava leve, como se andando na lua, como astronauta.

Ficamos conversando sobre isso. Depois perguntei a ele sobre sementes. Falou que teve boas experiências. Comentei que minha namorada gostava ainda mais delas do que dos cogumelos. Concordamos que o duro delas é o desconforto estomacal quando tomadas pelo método indígena.

Perguntou se havia experimentado Datura.

Ele falou que uma vez havia experimentado. Ficou cego por três dias e ficou mais outros dias tendo espasmos involuntários no lado esquerdo do corpo.

E é verdade. O ar infantil dos cogumelos, as festas, visões e caminhões coloridos das visões, os fogos de artifício, a alegria fungi. Ah…

Me entregou os três pacotes, conforme combinado. Falou que estava bom para misturar com uma limonada, porque a vitamina C ajuda na absorção da psilocibina e o ácido cítrico auxilia na digestão.

Falou que a limonada fica roxa.

Yeah! Limonada roxa! Desse jeito nunca tomei.

Conversamos mais, falamos sobre bad trips. Ele pagou o café, nos despedimos. Pediu para eu ver a erva mazateca pra ele. Falei que faria o possível. Nos despedimos. Ela, os olhos brilhantes, o sorriso. Dei um abraço. Eles foram pra lá e eu vim pra cá, com três doses enfurecidas.

Agora estou esperando.

II - PREPARATIVOS

No sábado de manhã fui pegar minha namorada, que trabalha à noite num hospital, e a deixei dormindo em minha casa. Enquanto ela dormia, fui comprar umas frutas, limões, plantei umas sementes de argyréia que ganhei em um vaso e procurei agilizar tudo para, à tarde, tomarmos os cubensis.

Quando foi umas quatro ou cinco horas, fomos para casa de um amigo nosso, que também tomaria conosco, lá em sua casa.

O cara estava meio mal-humorado ou sei lá. Até estava cogitando a possibilidade de não tomar nada, com medo de ter uma bad trip e tudo mais…

Sei que no final das contas ele acabou topando a trip, e enquanto foi tomar um banho, eu dei uma preparada no ambiente.

Desde uma certa experiência com Salvia ando numa piração de limpeza. Arrumei o ambiente, varri o chão, deixei tudo no esquema para uma viagem agradável. O lugar onde íamos tomar era em sua loja de artesanato, que também é quarto, cozinha e sala. Claro que a loja estava fechada ao público…

Quando ele voltou do banho, preparamos uma limonada com os cubensis no liquidificador. Então dividimos em três partes iguais.

A limonada ficou roxa.

III - EMBARCANDO

Tomamos. Esperamos.

Fiquei bem ansioso. Deixei um sonzinho no esquema.

Depois de uns quarenta minutos já sentia umas alterações na percepção. O estômago estava um pouco embrulhado, mas nada excepcional. Meu colega não parava de falar, comentando as distorções de sentido, as visões, falando do teto borbulhando e tudo. Minha namorada estava amuada, deitada no meu ombro. Dizia que ainda não sentia nada.

Por uns breves instantes questionei minhas experiências com enteógenos. Quer dizer, pra quê aquilo? Acho que já aprendi o que devia aprender com as plantas de poder. O que eu precisava agora era agir e me disciplinar, para obter algum progresso espiritual. Fiquei meditando sobre isso… Será que eu devia continuar nesse tipo de experiência?

De repente um clarão. Tudo ficou iluminado de repente, como se alguém acendesse uma luz. No relógio era umas seis horas da tarde.

A luz ora acendia, ora apagava, de repente. Notei as cores mais brilhantes, bonitas. Mas nada de excepcional. Pouco a pouco as coisas foram tomando suas formas de borracha.

Na loja em que estávamos havia quadros e artesanatos. Fui olhar os quadros com minha percepção aguçada de cores. Ficavam muito bonitos.

Sentia um pouco de fraqueza física. Sonolência. Estranhei essas sensações, porque geralmente fico muito eufórico com cogumelos.

Depois sugeri apagarmos as luzes, pra ver mais coisas. Fiquei deitado no chão com minha namorada, e meu colega ficou sentado com um violão. Ele achava engraçado as cordas que pareciam vibrar sozinhas.

Minha namorada ria muito. Meu colega não parava de falar. Foi um momento de muita risada. Mas eu sentia que a risada dissolvia o verdadeiro poder dos cogumelos, porque o riso serve pra isso mesmo: pra dissolver tensões. Falei sobre isso, mas caíram na gargalhada outra vez. Aí fiquei quieto, só deixando as ondas me levarem.

Depois de algum tempo senti euforia. Estava cheio de energia. Então entrei numa viagem de trabalhar o chi. Tenho feito kung fu, e dentro do kung fu tem o chamado chi kung, que é a ciência do chi. Comecei a me envolver em movimentos do kung fu, trabalhando o chi, e de repente me vi imerso naquele universo de formas corporais. Os movimentos saíam extremamente precisos e equilibrados. Minha capacidade física havia se expandido bastante! Estava em um transe incrível. Meus movimentos estavam saindo perfeitos. Muito melhores do que geralmente são em estados de consciência comum.

Meu colega não parava de falar, e aquilo me incomodava. Ele estava querendo descrever toda experiência dele, e isso enchia o saco. Minha namorada ficava rindo, ou curtindo visuais de olhos fechados. Não havia natureza para interagir. A prática dos movimentos do chi era algo onde eu podia depositar minha atenção.

Fiquei muito tempo naquela onda. Estava tudo mais ou menos escuro.

Minha namorada levantou do sofá, onde estava de olhos fechados, tendo suas mirações. Estava meio molenga. Ela também faz kung fu comigo, mas estava bem molenga.

Meu colega não parava de falar.

Eu percebi que era bom reter, isto é, não desperdiçar energia rindo ou falando demais… a introspecção era mais vantajosa.

Depois de um tempo acendemos uma luz e ficamos a conversar. Ali o papo começou a fluir melhor. Minha impressão é que os cogumelos conectavam nossa consciência com a essência da vida. Os cogumelos são seres criadores, que fazem a vida a partir da morte. Ali naquele estado de consciência eu sentia o pulsar da vida. Era ali que a vida ficava. Tudo isso passava pela minha mente.

Sentia que havia algo muito selvagem nesses pequenos seres, que são os cogumelos.

Muita conversa, muitos insights. Quando conversávamos sentia a imaginação trabalhar e trabalhar, criando seres, criando lugares, formas. A imaginação estava bem desenvolvida, a mente estava clara como um espelho.

Depois de um tempo fiquei observando minha namorada. Ela estava muito bonita. Parecia a figura feminina que habita o imaginário coletivo. Parecia Vênus. Os cabelos jogados pelo corpo, ela meio largada. Parecia argyréia nervosa. Falei pra ela. Foi engraçado. Mas era uma trip assexuada. Não havia malícia ou pensamento sexual. Era meio infantil, assexuado. Falei pra ela que a argyréia é uma planta sorrateira, bonita e muito poderosa, que quando se agarra em um portão ou qualquer outra estrutura de ferro, é capaz de entortar tudo. Pirei muito nessa relação entre o feminino obscuro e a argyréia nervosa.

Meu colega não parava de falar.

Dizem que os cogumelos podem ter tido uma certa influência no desenvolvimento da linguagem, em antigas tribos. Acho que isso é possível. A clareza e percepção aumentadas pela psilocibina é mesmo incrível. A capacidade de organizar a percepção e colocar ela em uma forma é real. Quando estava pirando em minha onda shaolin, eu falava numa linguagem, que saía naturalmente junto com os movimentos. Estava num transe incrível, como em rituais mágicos onde se envolvem com danças e urros e gritos. Eu pirava naquilo. Mas não era uma imitação. Não era um estilo específico de kung fu, nem nada. Era um fluir natural de movimentos harmoniosos, que trabalhavam o chi e produziam vocalizações, que pareciam reforçar o movimento. Meu mestre de kung fu diz mesmo que é importante falar com tan tien (três dedos abaixo do umbigo) ao executar golpes. Era aquilo que eu fazia. Mas ali eu sentia a verdade sobre o chi.

A linguagem verbal eu dispensava. Não queria FALAR. Explicar, descrever. Não queria. Não ia adiantar. Ia só resumir, racionalizar minha experiência. Eu até me incomodava com meu colega explicando e descrevendo. E havia muita sinceridade entre nós, e isso era bom.

Mais para o fim da trip me chateei um pouco. Me sentia meio sozinho, porque minha namorada estava em uma brisa, eu estava em outra, e meu amigo não parava de falar. Peguei o violão e fiquei dedilhando. E ele possuía um som agradável. Senti o violão como se fosse minha única companhia, a única maneira que eu havia de expressar o que estava sentindo. Ficou tudo silêncio. Minha namorada, meu amigo, só o violão ressoando. Foi um momento muito introspectivo.

Depois de umas quatro ou cinco horas os efeitos estavam bem mais amenos. Minha percepção ainda era mais aguçada, mas não havia mais nenhuma distorção de realidade. Aliás. Só houve distorção mesmo no momento da transição entre estado comum e estado alterado. Após isso o que havia era muita clareza dos sentidos e da mente. Poucas mirações e/ou alucinações. Muita clareza.

Coloquei um colchão no chão e deitei com minha namorada. Quando fechava os olhos, me sentia dissociar do meu corpo, mas nada muito claro. Me desligava do mundo. Eu dormi rápido. Minha namorada não conseguiu dormir.

No dia seguinte, tudo tranquilo. Estava com o corpo dolorido, dos exercícios, porque fazia tempo que não treinava. Mas no geral estava bem.

Minha namorada, bem como meu amigo, acordaram com muita dor de cabeça.

IV - CONCLUSÕES

Minhas melhores experiências com cubensis foram quando estava sozinho. Sempre que tomo com outras pessoas, fico um pouco apreensivo, com medo da reação das pessoas. Me sinto um pouco responsável…

Pretendo repetir a dose daqui algum tempo. De preferência em um lugar onde tenha mais natureza e menos coisas artificiais e papo furado.

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